
(Foto: Feyza Tuğba/Pexels)
O debate sobre a obrigatoriedade de diploma de jornalismo para exercer a profissão está sendo travado de forma equivocada. Discutem-se mais questões jurídicas, conveniências políticas, liberdade de informação e relações empregatícias do que o que define a atividade jornalística: a informação. A obrigatoriedade de diploma esteve mais associada a práticas corporativistas do que à melhoria da qualidade e confiabilidade das notícias fornecidas ao público. Hoje, no entanto, com a avalanche de dados e fatos na internet e o fenômeno da inteligência artificial, a informação passou a ser a matéria-prima mais valorizada da era digital. Além disso, ela assumiu importância transcendental na formação de nossas opiniões, percepções e posicionamentos.
Lidar atualmente com a informação tornou-se uma atividade extremamente complexa cujas consequências podem determinar o rumo de países, de comunidades e influir na solução de dilemas como a crise ambiental global, guerras, fluxos financeiros mundiais e migrações, para citar apenas algumas questões mais atuais. Já é consenso que as notícias falsas podem gerar desdobramentos catastróficos. Assim, é preciso que indivíduos altamente capacitados para lidar com informação ocupem posições estratégicas na configuração de fluxos globais de notícias para detectar a tempo processos de desinformação em escala local, nacional ou global.
O jornalismo é a atividade humana cuja missão é estruturalmente vinculada à informação. Durante quase dois séculos esta missão foi desvirtuada por sua dependência em relação a empresas, o que contribuiu para que o fator econômico passasse a ter um peso excessivo no processo de produção de notícias. As limitações tecnológicas fizeram com que a sobrevivência do jornalismo passasse a depender do sucesso financeiro da imprensa. O surgimento do corporativismo jornalístico foi uma consequência da luta dos profissionais preocupados com a defesa dos princípios da independência, isenção, objetividade e credibilidade da informação contra a preocupação dos executivos e donos de empresas jornalísticas em aumentar a lucratividade dos seus negócios.
As novas tecnologias digitais mudaram radicalmente este quadro. A relação entre profissionais e a imprensa deixou de ser de dependência para ser a de um ‘salve-se quem puder’, por conta da crise do modelo de negócios das empresas jornalísticas. O fechamento de jornais provocou a demissão em massa de repórteres, editores, ilustradores, fotógrafos, cinegrafistas e programadores que buscaram a sobrevivência pessoal e profissional na atividade autônoma. A migração para a internet e para as plataformas digitais veio acompanhada do surgimento de uma multidão de chamados influenciadores, igualmente interessados em produzir notícias com a intenção de monetizá-las. Criou-se assim o que muitos chamam de caos noticioso. Frente a esta situação, a produção de informações de qualidade tornou-se o passaporte mais seguro tanto para a sobrevivência financeira individual como para o combate à desinformação e notícias falsas.
O novo papel do jornalismo
O jornalista ganhou assim um papel-chave, entre todas as atividades e profissões ligadas à comunicação pública, como garantidor da qualidade informativa indispensável à nossa existência como cidadãos digitais. Isto exige que os novos jornalistas tenham uma qualificação muito superior à que é oferecida hoje pelas universidades porque eles terão que responder a demandas muito mais complexas e sofisticadas, especialmente depois da generalização do uso da inteligência artificial.
Esta nova inserção do jornalismo na estrutura social da era digital obviamente dá aos seus praticantes responsabilidades que exigem mais formação humana e capacitação técnica. A nova conjuntura digital confere aos jornalistas uma posição única e extremamente delicada, já que passam a lidar com a matéria-prima mais valorizada e estratégica dos tempos atuais. Eles não deverão mais ser meros assalariados, encarregados de produzir notícias que alimentam a troca da atenção pública por publicidade paga. A função social do jornalismo, que ficava diluída no frenético dia a dia das redações, tornou-se concreta e mensurável ao se analisar as consequências da desinformação e das notícias falsas.
Por tudo isso, é preciso discutir a fundo o novo contexto em que o jornalismo começa a ser exercido para identificar claramente os novos procedimentos, regras e valores que orientarão o exercício da profissão. O jornalismo está deixando de ser associado a uma atividade empresarial para exercer um papel social que impacta profundamente a sociedade. Este é o grande desafio que não será resolvido por juízes, nem por legisladores, mas sim pela maior capacitação dos profissionais do jornalismo para lidar com a informação.
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Carlos Castilho
