
(Foto: Anna Wintour, por Gustavo Sobral)
O jornalista David Remnick entrevistou a jornalista Anna Wintour para a revista The New Yorker. Na ocasião, em setembro de 2025, após 37 anos, Wintour deixava a direção da revista Vogue.
Remnick não é um jornalista especializado em moda. Este é o seu trunfo. Ele olha para a Vogue como uma empresa de mídia, uma instituição cultural, uma plataforma digital e uma marca e mostra que falar sobre a revista é também falar sobre o futuro do jornalismo. Ele pergunta sobre o impresso. Ela responde:
“É algo sobre o qual todos nós precisamos nos sentar, conversar e descobrir qual é o caminho certo a seguir. Mas vem da ideia de que o impresso precisa parecer mais substancial, mais importante. É o nosso desfile de moda. Se você pensar em quantas pessoas realmente vão a um desfile da Vuitton – são entre quatrocentas e oitocentas pessoas. Mas depois isso é transmitido para milhões e milhões”.
“E acho que o impresso tem essa mesma responsabilidade. Você está passando uma mensagem, está criando notícias, está transmitindo sua visão, mas isso não precisa necessariamente acontecer repetidamente, muitas e muitas vezes ao ano. Acho que a maioria dos grandes estilistas provavelmente faz seis ou sete desfiles por ano, o que já é muito.”
A pergunta sobre o impresso leva ao modelo de negócio. O modelo de negócio, à identidade editorial. A identidade editorial, à transformação tecnológica. A tecnologia, à relação com o público. Assim, Remnick leva a entrevista adiante. Ela conta:
“Quando comecei na American Vogue, era exclusivamente uma publicação impressa com alguns eventos e um tipo de festas elegantes às quais tínhamos que ir. Agora, ela [Chloe Malle, a nova editora da revista] tem todas essas maneiras diferentes de falar com nossos públicos, seja pelas redes sociais, pelo TikTok, pelo impresso ou por eventos, que são uma parte enorme do que pensamos hoje”.
Ele pergunta e faz Wintour, uma figura que é avessa a falar de si mesma e que não está interessada no passado, como ela declara na entrevista, a fazer justamente isso: falar de si mesma e falar também do passado. Ela fala sobre a infância, o pai, que era jornalista, a decisão de ser editora da Vogue, a formação profissional.
O método Remnick é a escuta e a pergunta nasce a partir das respostas. Ele apenas conduz e deixa que a entrevistada desenvolva o pensamento. Por isso, a entrevista avança como uma conversa em que cada resposta também deixa uma porta aberta para a pergunta seguinte. E não evita temas.
Remnick pergunta também sobre política. Lembra o apoio dela a Hillary Clinton e aos democratas. Pergunta sobre Donald Trump e as tarifas. Pergunta sobre a politização da Vogue. Pergunta sobre o filme “O diabo veste Prada”. Pergunta sobre a imagem autoritária que a acompanha há décadas. Wintour responde tudo.
Quando a entrevista chega ao fim, ele reconhece que não é conhecido pelo seu modo de se vestir: “Anna, eu vesti uma camisa decente e um paletó de verdade hoje em deferência a você e à ocasião, mas, ainda assim, acho justo dizer que não sou conhecido pelo meu senso de estilo impecável. É sem esperança? Por onde posso começar?”
Ela responde: “David, fico muito tocada por você ter vestido um paletó, mas prefiro mesmo ver você com aqueles moletons da The New Yorker.” Afinal, um jornalista reconhecido por seus perfis biográficos, mesmo que não esteja na moda, foi capaz de mostrar que sabe perguntar sobre moda. E até entendia um pouco…
David Remnick: Então, houve uma época em que até mesmo pessoas leigas como eu sabiam – ou sabiam um pouco – sobre estilistas de grande influência. Pelo menos, sabíamos seus nomes ou tínhamos uma vaga noção do que faziam: Karl Lagerfeld; Miuccia Prada, que ainda está superativa; John Galliano; Marc Jacobs. De repente, quase todas as grifes de moda passaram a ser lideradas por estilistas jovens ou mais jovens, cujos nomes não são particularmente…
Anna Wintour: Mas serão. E muitos deles já são.
David Remnick: E não são muitas mulheres, também.
Anna Wintour: Não.
David Remnick: Como você avalia essa nova cena?
Anna Wintour: Bem, um sai, e então é como um castelo de cartas, e…
David Remnick: Por quê?
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.
