
(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)
Em um momento tão decisivo para a história do nosso país, nunca foi tão necessário relembrar os princípios básicos que sustentam o bom jornalismo, especialmente diante das eleições presidenciais de 2026. Temos assistido, sem nenhum pudor, a veículos jornalísticos utilizarem seu poder de informar a sociedade para tentar manipular os rumos das eleições, haja vista os episódios recentes envolvendo o almoço antes de uma sabatina com um candidato e o uso de fontes sensacionalistas sem a devida checagem e verificação.
Práticas como essas só evidenciam ainda mais os interesses políticos e comerciais envolvidos.
Cabe aos profissionais, entidades e organizações representativas da categoria desempenhar um papel importante na defesa de padrões éticos e transparentes, fundamentais para o sustento do bom jornalismo.
Do contrário, essas práticas só contribuem para agravar ainda mais a crise do próprio modelo de negócio jornalístico, marcado pela crise de credibilidade e pela perda de confiança que o setor vem enfrentando há anos.
Em um momento em que a sociedade carece de orientação e esclarecimento para decidir o futuro do país, a atuação jornalística não pode estar subordinada à defesa de grupos, candidatos ou projetos de poder. Da mesma forma, a busca por audiência, engajamento ou retorno financeiro não deve se sobrepor à precisão das informações e aos princípios éticos que orientam a profissão. Como lembra o pesquisador e jornalista americano Tom Rosenstiel, entre os elementos básicos do bom jornalismo, o compromisso com a verdade é a primeira obrigação, acima de qualquer interesse ou suposição. A esses princípios somam-se a transparência quanto aos métodos e às fontes, a imparcialidade, a precisão, a ausência de interesses comerciais na apuração, a responsabilidade de fiscalizar e verificar as informações e o compromisso ético e moral com a informação.
É na preservação desses princípios que reside a função das notícias na vida das pessoas. Por meio da informação, a sociedade toma suas próprias decisões. Sem informação de qualidade, não há democracia.
A verdade não pode ser negociável
Em períodos eleitorais, essa responsabilidade assume uma dimensão ainda maior. O acesso a informações permite que os eleitores avaliem propostas, questionem discursos e acompanhem a atuação de candidatos e instituições. Caso contrário, a capacidade de escolha da população pode ser comprometida pela circulação de notícias falsas e pela desinformação. Isso não significa exigir uma imprensa sem posicionamentos editoriais ou perspectivas próprias.
Em um ambiente informativo cada vez mais sujeito a desinformação e ao excesso de conteúdos adulterados, em que as pessoas carecem de letramento midiático, cabe também orientar e instruir o público diante das informações que recebe: comparar conteúdos, consultar diferentes fontes, verificar a origem das notícias e desconfiar de afirmações que circulam sem evidências.
Em momentos decisivos para o país, a imprensa tem uma responsabilidade ainda maior na garantia do debate público qualificado. Sua função não é determinar os rumos das escolhas da sociedade, mas oferecer informações consistentes para que cada pessoa decida com autonomia.
Sem jornalismo de qualidade, a democracia perde uma de suas ferramentas essenciais de sustentação. Defender a qualidade da informação é, acima de tudo, defender o direito da sociedade de conhecer os fatos, questionar e construir o próprio futuro.
***
Monique Souza é jornalista formada pela PUC-Campinas, mestre em Mídia e Tecnologia pela Unesp Bauru e doutoranda pela mesma universidade. Pesquisa as transformações do jornalismo diante das tecnologias digitais, com ênfase na inteligência artificial e nos modelos de negócio jornalísticos.
