Sexta-feira, 23 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

A imprensa como matéria-prima para cortes e shorts eleitorais nas plataformas

(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

A imprensa e a televisão deixaram de ser os principais influenciadores na definição de voto pelos eleitores brasileiros. Ambas viraram agora meras supridoras dos chamados cortes (abreviação de recortes) e shorts, micro mensagens transmitidas em massa nas plataformas digitais (1). Seja qual for o resultado da votação no segundo turno, o candidato vencedor terá que creditar, pelo menos metade de sua eleição a personagens como André Janones e Pablo Marçal. Os dois foram, respectivamente, os criadores do ‘Exército de Lula’ e da ‘Tropa do Bolsonaro’, cujos arsenais são formados quase que exclusivamente por cortes e shorts.

O bombardeio de micro mensagens transformou as plataformas digitais na principal arena política deste segundo turno, onde a busca de aliados e simpatizantes se baseia no princípio de que as opiniões são formadas pelo acúmulo de percepções e não por meio da reflexão alimentada por dados, notícias e informações. Assim, as estratégias de comunicação na era digital tendem a desenvolver opiniões baseadas em percepções que podem ser essencialmente emocionais e sensoriais.

O problema é que a maioria da imprensa escrita e dos departamentos de jornalismo das redes de televisão ainda acredita que debates formam opinião. Os debates e entrevistas são, por natureza, programas longos e que tendem à letargia diante do ritmo frenético da circulação de notícias pelas plataformas. Para compensar a perda de público, as televisões e, em menor escala, os jornais, continuam apostando na alternativa “luta de boxe” como solução para manter a atenção dos espectadores.

A opção não funciona porque, se partimos da ideia de que o público deseja ver “olhos inchados” e “lábios sangrando”, as plataformas oferecem confrontos muito mais violentos, envolvendo militantes tanto do “Exército” como da “Tropa”. Ambos os movimentos se alimentam das frases, gestos e atitudes dos protagonistas dos debates e entrevistas para desenvolver centenas de micro mensagens que são a grande arma para conquistar adeptos políticos.

A estratégia desenvolvida por André Janones para o candidato Lula surpreendeu os bolsonaristas que eram a força hegemônica na guerra eleitoral nas plataformas, e acabou se mostrando tão eficiente que logrou alavancar uma reação dos lulistas desestimulados depois da derrota no primeiro turno. A nova realidade no campo da comunicação mostrou que a arena política se transferiu definitivamente para as plataformas, o que implica métodos novos de cobertura jornalística de processos eleitorais.

O dilema jornalístico

No dia seguinte ao debate na TV Bandeirantes, muitos comentaristas lamentaram na imprensa tradicional a ausência de debates sobre os programas de governo dos candidatos participantes. Isto mostrou claramente que assinaturas respeitáveis na imprensa ainda não compreenderam que a realidade mudou e continuará mudando com o aumento do uso e do detalhamento da inteligência artificial.

O problema é que, como os cortes e shorts se baseiam em percepções e estas são influenciadas por emoções, a ausência de reflexão e diálogo entre posições diversificadas tende a criar e reforçar as chamadas bolhas político-ideológicas, onde o extremismo prolifera rapidamente. É neste ambiente que o jornalismo passa a ter que atuar, numa conjuntura totalmente nova para a profissão, que terá de desenvolver políticas editoriais voltadas para a desativação do estopim extremista.

A cobertura jornalística em situações polarizadas exigirá o abandono da preocupação em transformar uma eleição numa corrida de cavalos, onde o mais importante é saber quem ganha e quem perde. Se a imprensa resistir à tentação da superficialidade e simplificação para ajudar o eleitor a decidir como votar, não poderá estimular a ideia da “luta de box” porque isto significa aguçar rivalidades entre “bolhas” partidárias num ambiente polarizado e onde um dos polos flerta com o uso da violência física.

A revisão das estratégias da imprensa na cobertura de eleições na era digital parece já ter começado nos Estados Unidos. Ainda é muito cedo para se dizer se o Partido Democrata estadunidense descobriu a fórmula para neutralizar o caos frenético das micro mensagens em plataformas digitais. Vários candidatos da oposição aos Republicanos nas eleições legislativas de novembro próximo estão fazendo campanhas focadas em questões locais em parceria com a imprensa e jornalistas independentes, também locais. Algumas sondagens já mostraram resultados surpreendentes para um partido que parecia nocauteado.

  1. A principal diferença é que Shorts (ou Reels/TikTok) definem um formato de vídeo curto e vertical (geralmente de 60 a 90 segundos), enquanto Cortes são a origem do conteúdo — trechos editados e extraídos de um vídeo maior, como uma live, entrevista ou podcast. Geralmente um corte é transmitido como um short. (Explicação produzida por Inteligência Artificial).