Quinta-feira, 22 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

A imprensa está com saudade do cercadinho?

(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

A frase que batiza esse texto parte de uma indignação justa, mas, ainda assim, comete uma injustiça. Quem sente falta do cercadinho não é a imprensa. É uma parte pequena de executivos das empresas jornalísticas. Gente que nunca pisou lá.

Enquanto a diretoria da TV Globo convida Flávio Bolsonaro para almoçar em salões refrigerados, o andar de baixo da emissora é visto com desconfiança tanto pela esquerda quanto pela direita. A esses trabalhadores, só cabe cumprir suas tarefas e tentar saber para que lado venta a biruta dos diretores. Os graúdos tomam vinho com o candidato e o chão de fábrica é chamado de “globolixo” justamente pelos militantes bolsonaristas.

A Folha sempre publica fotos de Lula raivoso ou com cara de bêbado, enquanto Flávio aparece altivo, olhando esperançoso para o horizonte. Quem escolhe essas fotos provavelmente não pisa na rua faz tempo e talvez tenha escapado do surto de transtornos mentais descrito por Eduardo Scolese em seu “1461 dias na trincheira’.

Enfim, jornalistas que correram riscos não esquecem o que passaram no Governo Bolsonaro. Diretores dos seus veículos precisam ser relembrados. Então, vamos lá.

Entre 2019 e 2022, a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) contabilizou 570 ataques de Jair Bolsonaro a jornalistas e veículos. Na trincheira relatada por Scolese, isso daria um ataque a cada dois dias e meio. Vamos relembrar alguns, porque todos seria complicado em um artigo curto.

1º de janeiro de 2019

Jornalistas relataram restrições de circulação e de acesso a água, alimentos e banheiros durante a posse de Jair Bolsonaro. Dezenas precisaram descansar sentados no chão.

19 de julho de 2019

Durante um café da manhã com correspondentes estrangeiros no Planalto, Bolsonaro afirmou falsamente que Míriam Leitão havia sido presa a caminho da Guerrilha do Araguaia e chamou seu relato de tortura de “drama todo, mentiroso”.

20 de dezembro de 2019

Na saída do Alvorada, Bolsonaro disse a um jornalista: “Você tem uma cara de homossexual terrível”. Na mesma manhã, ao ser questionado por outro repórter sobre um suposto empréstimo a Fabrício Queiroz, respondeu com uma ofensa envolvendo a mãe do profissional.

18 de fevereiro de 2020

Diante de apoiadores e jornalistas no Alvorada, Bolsonaro atacou a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo: “Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”.

4 de março de 2020

O humorista Márvio Lúcio, conhecido como Carioca, apareceu fantasiado de Bolsonaro e ofereceu bananas aos jornalistas na entrada do Alvorada.

3 de maio de 2020

Durante uma manifestação pró-governo diante do Planalto, apoiadores de Bolsonaro derrubaram e agrediram com socos e chutes o fotógrafo Dida Sampaio, do Estadão. O motorista Marcos Pereira também foi agredido.

5 de maio de 2020

Bolsonaro mandou jornalistas calarem a boca depois de ser questionado sobre uma possível interferência na mudança da Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro.

17 de maio de 2020

A jornalista Clarissa Oliveira, da BandNews TV, foi atingida na cabeça por uma bandeira empunhada por uma apoiadora de Bolsonaro durante uma manifestação em Brasília.

25 e 26 de maio de 2020

O Globo, Folha e outros veículos suspenderam a cobertura na entrada do Alvorada, o tal cercadinho, por falta de segurança.

Junho de 2020

Gabriela Biló, então fotógrafa do Estadão, teve documentos, telefone, endereço e foto da casa da família divulgados por um perfil bolsonarista. Também circularam vídeos manipulados para fazê-la parecer autora de uma ameaça contra Sara Winter.

23 de agosto de 2020

Questionado sobre depósitos de Fabrício Queiroz e de sua mulher na conta de Michelle Bolsonaro, o presidente respondeu a um repórter de O Globo: “A vontade é encher tua boca com uma porrada, tá?”.

4 de março de 2021

Em conversa com apoiadores em Uberlândia, Bolsonaro ironizou cobranças da imprensa pela compra de vacinas: “Vai comprar vacina. Só se for na casa da sua mãe”.

21 de junho de 2021

Em Guaratinguetá, Bolsonaro mandou Laurene Santos, da TV Vanguarda, afiliada da Globo, calar a boca após uma pergunta sobre o uso de máscara.

8 de outubro de 2021

Profissionais do jornal A Tribuna e da TV Tribuna, afiliada da Globo, foram agredidos verbalmente e fisicamente por um apoiador de Bolsonaro no Guarujá, durante a cobertura da passagem do presidente pela cidade.

12 de outubro de 2021

O repórter cinematográfico Leandro Matozo, da GloboNews, sofreu uma cabeçada de um apoiador de Bolsonaro dentro do Santuário Nacional de Aparecida.

12 de dezembro de 2021

Profissionais da TV Bahia, afiliada da Globo, e da TV Aratu, afiliada do SBT, foram agredidos por integrantes da segurança presidencial em Itamaraju. Eles tentavam cobrir a visita de Bolsonaro à região atingida pelas chuvas.

3 de abril de 2022

Ao responder a uma publicação da jornalista Miriam Leitão, o deputado Eduardo Bolsonaro escreveu “Ainda com pena da”, seguido de um emoji de cobra. Era uma referência à bárbara tortura sofrida por Míriam durante a ditadura, quando, grávida, foi deixada nua numa sala escura com uma jiboia.

Diretores, acionistas e outros integrantes de “aquários” e salas refrigeradas não figuram entre as vítimas dessas atrocidades. Da segurança de suas salas fechadas, estão dispostos a fazer seus funcionários passarem por isso de novo? É uma pergunta que assombra a mim e a muitos outros jornalistas (principalmente mulheres).

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Rafael Simi é jornalista formado pela PUC-Rio, com especialização em macroeconomia conferida pela University of California, Irvine, através da plataforma Coursera. Ex-repórter do Grupo Globo, já publicou textos no jornal Extra, no Globo Online, CartaCapital e no Yahoo. Escreveu o livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”.