
(Foto: William ZALI/Pexels)
Nós sabemos que a cobertura jornalística da política brasileira não é (ou não deveria ser) um reality show. Mas, é inegável que, desde domingo, dia 25 de outubro, temos vivido a espera do próximo acontecimento político – ou obscenidade – que vai ser acompanhada e narrada pelas redes sociais, pelas TVs, rádios, jornais, conversas em pontos de ônibus, rodas de amigos etc.
Entre fotos que estarão em museus e manchetes memoráveis, um respiro. Tive a sensação, por um milésimo de segundo, que as manchetes do dia seguinte não seriam obscenas; que jornalistas teriam uma boa noite de sono – quase sem pensar em ameaça à democracia, que linguagem ou formato usar para desmentir uma fake news que parece absurda, mas não é absurda para todos; que, agora, a importância da profissão talvez tivesse ficado evidente.
Primeiro, foi a reeleição de Lula. Um momento histórico. Improvável, mostravam as pesquisas. Mas não impossível, comprovaram os eleitores que, desde o dia 4 de outubro, mobilizaram cada canto da internet e das ruas. Nunca um candidato a presidente havia perdido no primeiro turno e virado. Luiz Inácio Lula da Silva fez isso. Não só virou como também bateu recordes. Ele teve a maior votação já recebida por um presidenciável no país. Mais de 64 milhões de votos. 51,79% dos votos válidos. O primeiro presidente da história do país a ser eleito quatro vezes. São tantos feitos históricos que jornal nenhum pode ignorar, mesmo aqueles que abertamente, na forma de editorias, se opuseram à reeleição do presidente.
Pelo contrário, no mesmo dia, Flávio Bolsonaro fortaleceu o discurso de contestação ao resultado das Eleições. Não só isso, anunciou que pediria anulação. Assim como em 2022, incendiou o próprio eleitorado. Enquanto isso, o ministro Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse os passaportes. Isso porque o senador do PL é investigado. E entre a noite de terça-feira (27) e a madrugada de quarta-feira (28), Flávio fugiu rumo aos Estados Unidos.
O exato momento do desembarque de Flávio e da família ao aeroporto Opa-Locka, em Miami, nos Estados Unidos, foi televisionado. Quase como se o senador e candidato a presidente da República derrotado (que contestou as Eleições, que pediu anulação, que é investigado, que não poderia deixar o Brasil, que fugiu), estivesse tirando férias.
De novo, a cobertura jornalística da política brasileira não é um reality, ainda que na última semana tenha parecido. E, neste caso, está muito, muito longe de ser um entretenimento.
