
(Foto: Sora Shimazaki/Pexels)
Para quem está acompanhando o processo eleitoral do segundo turno no Brasil, é quase impossível não estar imerso nas comunicações imperativas das redes sociais, que protagonizam as manifestações populares. Mas o que isso nos diz sobre a sociedade brasileira e, sobretudo, sobre o jornalismo que nos interessa pensar nessa sociedade? Posicione-se!
Uma pessoa com engajamento alto nas redes sociais é convidada, lê-se, em muitos casos, “pressionada” a comunicar de forma transparente seu voto. Assim, antes de ir à urna e confirmar meu voto, eu digito e publico meu posicionamento no feed do Instagram. Esse é o percurso natural deste pleito. Sem espaço para mensagens subtendidas, o posicionamento político explicita valores sociais e define o que orienta politicamente aquele ator digital.
Na comunicação em rede, isso se relaciona à segmentação de assuntos e públicos, além de atender ao uso estratégico da identidade. Você se conecta com quem pensa como você e defende seus valores sociais. O posicionamento deixa de ser um risco e passa a ser um ativo nas redes. Para o jornalismo, representa um manifesto de luta e resistência.
“A sociedade brasileira não pode pagar pra ver. E o jornalismo brasileiro não pode vacilar: é hora de adotar uma posição clara em defesa da democracia e contra o autoritarismo. Trata-se de uma situação que já vivemos antes. Em 2018, muitos acreditaram na ilusão de que o status quo político acabaria por moderar Jair Bolsonaro. Hoje, podemos afirmar com toda a certeza: foi o bolsonarismo que radicalizou o status quo” (Infoamazonia).
O trecho do editorial conjunto publicado por 58 veículos de jornalismo independente que integram a Associação de Jornalismo Digital (Ajor), nesta quarta-feira, 14, chama a atenção para os riscos à democracia que a candidatura de Flávio Bolsonaro representa. O posicionamento explícito dessas organizações, que também repercutiram nas redes sociais digitais, mostra a tensão entre as ameaças e as resistências que marcam a trajetória do jornalismo no país. Não, não é uma novidade a união dos atores sociais jornalísticos em defesa de uma causa. Na pandemia de Covid-19, por exemplo, houve a criação do Consórcio de Veículos de Imprensa (CVI) em resposta à falta de transparência do governo federal de Jair Bolsonaro (2019-2022).
Em um cenário não diferente do que se viu em outros tempos históricos do Brasil, em que parte significativa da imprensa corporativa corteja um projeto político contrário ao interesse público e às políticas de garantia de direitos das minorias, o que se vê são os veículos independentes ganhando força por meio da internet para se posicionarem de forma transparente contra o projeto de governo que se mostra em continuidade ao que já se viu em uma história recente do país.
Fundamentados em pesquisas da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) que apontam para o aumento alarmante da violência contra jornalistas, com picos em 2019-2021, impulsionado pela institucionalização de violações à liberdade de imprensa, o editorial registra um posicionamento histórico para o jornalismo brasileiro.
Sobre isso, o modelo tradicional de imparcialidade asséptica parece ter perdido espaço para os movimentos jornalísticos que, sob o viés de uma transparência editorial, assumem valores e critérios editoriais para se conectar com sua audiência e, sobretudo, para defender princípios jornalísticos de forma independente.
Enfim, nessa disputa de audiências que caracteriza estas eleições, as formas de atuação demonstram aspectos que nos levam a pensar sobre o jornalismo que conhecemos. Da mesma forma que observamos novos direcionamentos na comunicação de campanha, especialmente no campo progressista, novos arranjos parecem precisar ser mobilizados na teoria e na prática jornalística. Vale ressaltar que, neste espaço de reflexão crítica, estes são apontamentos iniciais. Cabe-nos olhar, com mais tempo e método, para esses movimentos de circulação de informações.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Karine Nunes é Jornalista amazonense, doutoranda em Jornalismo no PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS
