Saturday, 02 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

América Latina, árbitro de querelas espanholas?

(Foto: Helvetica-Suisse/Nouveaux Espaces Latinos)

Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol e secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), Pablo Casado, presidente do Partido Popular Espanhol (PP), Sebastián Abascal, líder do Vox, partido de formação espanhola de extrema-direita, têm, por meses a fio, rondado o território latino-americano. Eles não se esbarram no caminho, é verdade, mas as faíscas dessa fricção são projetadas ao longe, visíveis por toda a região ibero-americana.

Após as transições espanhola e latino-americana, nos anos 1980/1990, os democratas, dos dois lados do atlântico, multiplicaram os encontros. Era interesse da Espanha fortalecer a sua influência no exterior antes de sua entrada na Comunidade Europeia. Os democratas da América Ibérica elegeram Madrid no intuito de consolidar uma parceria de liberdades com o chamado Mercado Comum. É evidente que, agora, os líderes espanhóis, além de sua economia e diplomacia, trazem consigo, ademais da língua e cultura em comum, um ardente e combativo componente ideológico em seu roteiro de viagens.

E quem atirou primeiro? O PSOE, o PP, o Vox? As movimentações transatlânticas dos “líderes” espanhóis adquiriram impulso em 2019. Ano em que, ao fim de uma maratona eleitoral iniciada após a votação de uma moção de censura, ainda no 1º de junho de 2018, o PSOE e o Unidas Podemos firmaram uma relativamente estável relação com o governo de esquerda. Essa foi a primeira coalizão realizada na Espanha pós-ditatorial, que, até então, só havia conhecido governos bastante homogêneos e de maiorias, tanto de centro-esquerda (PSOE) como de centro-direita (PP). Essa prévia das eleições fraturou a direita e, por consequência, endureceu um debate partidário que, muito rapidamente, se deslocou também para a América.

Pedro Sánchez, um dia após a vitória de Andrés Manuel López Obrador, o visitou no México nos dias 30 e 31 de janeiro de 2019. Pego nas contradições venezuelanas de seu partido, Pedro Sánchez não ofereceu nenhum suporte à tentativa de mediação proposta pelo México. AMLO (Andrés Manuel López Obrador), pouco depois, também recuou, mas não sem exigir um pedido de desculpas de Madrid, referente aos crimes coloniais cometidos entre 1521 e 1821. No dia 12 de julho de 2021, o ex-presidente socialista do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, participou da criação de um grupo de ex-líderes progressistas latino-americanos, chamado “Grupo de Puebla”, com a bênção de seu partido. O PT do ex-presidente Lula manifestou, no dia 11 de janeiro de 2022, o desejo de ser informado em primeira mão sobre a lei que modifica o Código do Trabalho, tal como defendida pelo governo de coalizão espanhol e combatida pelo PP e pelo Vox. O candidato da esquerda colombiana, Gustavo Petro, visitou a Espanha no dia 29 de dezembro de 2020. Na cidade de Madri, ele conversou com o secretário-geral do Unidas Podemos (UP), Pablo Iglesias, vice-presidente do Governo. No dia 30 de abril de 2021, Petro pediu aos colombianos que residem em Madri que votassem no Unidas Podemos nas eleições regionais de 4 de maio. Entre os dias 9 e 14 de janeiro de 2022, esteve de novo na Espanha. Encontrou-se com a prefeita de Barcelona, Ada Colau, com Ione Belarra, Secretária-Geral da UP, Yolanda Díaz, Vice-presidente do governo (UP) e Pedro Sánchez, Presidente do governo e secretário-geral do PSOE.

Sem demora, os partidos de direita espanhóis lançaram um contra-ataque. O Partido Popular (PP), por exemplo, reativou os antigos discursos anticubanos e anticomunistas de José María Aznar, presidente do governo de 1996 a 2004 – atual líder da Fundação para Análise e Estudos Sociais, FAES. Seu atual “líder”, Pablo Casado, transferiu a batalha das ideias e poder para o solo latino-americano. Cooptou o opositor venezuelano, Leopoldo López Gil, membro do partido Voluntad Popular, filiado à Internacional Socialista, e que foi eleito, no dia 29 de maio de 2019, ao posto de eurodeputado pela lista do PP. Ele também criticou firmemente, durante toda a campanha legislativa, nos meses de outubro e novembro de 2019, as relações do governo PSOE/UP com Cuba, a que se referiu como “uma ditadura comunista”. Em nome das liberdades, Casado visitou líderes liberais-conservadores do Cone Sul, Mauricio Macri na Argentina, Mario Abdo Benítez no Paraguai, Luis Lacalle Pou no Uruguai e Sebastián Piñera no Chile, no intervalo entre os dias 8 e 11 de dezembro de 2021.

Mas as ofensivas antigovernamentais mais fortes vieram da extrema direita, encabeçadas pelo partido Vox. O Vox tomou a iniciativa de contrariar o UP e o PSOE, e ultrapassar o PP, deslocando a batalha para a América Latina. Seus funcionários visitaram o Brasil, Equador e México, no intuito de forjarem alianças com Jair Bolsonaro, Guillermo Lasso e eleitos mexicanos do PAN e do PRI. Ofereceram treinamento ao PAN. Pediram a união da extrema-direita contra o Foro de São Paulo e o Grupo de Puebla. Uma carta fundadora do Grupo Madrid foi enviada aos partidos e aos dirigentes de uma futura “Iberosfera das liberdades” no dia 26 de outubro de 2020. assinada, em particular, por Eduardo Bolsonaro (deputado brasileiro, filho do presidente), José Antonio Kast (Frente Social Cristã Chilena, ex-candidato à presidência), Antonio Ledezma (ex-prefeito de Caracas), Javier Milei (deputado argentino), Zoé Valdés (escritora cubana), bem como por representantes de partidos argentinos (PRO, UNIR), colombiano (Centro Democrático), chileno (Partido Republicano), costarriquenhos (Costarica Justa, Nueva República), equatorianos (PSC, Suma), guatemalteco (Creo), hondurenho (Partido Liberal), mexicano (PAN), peruanos (Alianza para el Progreso, Avanza País, Fuerza Popular, Renovación Popular), salvadorenho (ARENA), uruguaio (Partido Nacional) e venezuelanos (Alianza Bravo Pueblo, 16 de Julio, Cuentas Claras, Repúblicos, Vente Venezuela).

* Texto publicado originalmente em francês, em 22 de janeiro de 2022, na seção ‘Actualités, Amérique Latine’ do site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “L’Amérique latine, arbitre de querelles d’Espagnols?”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/103867. Tradução de Thiago Augusto Carlos Pereira. Revisão de Luzmara Curcino

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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris, e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014), e colabora frequentemente com o Observatório da Imprensa, em parceria com o LIRE (Laboratório de Estudos da Leitura) e LABOR (Laboratório de Estudos do Discurso) ambos com sede na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).