
(Foto: Yuting Gao/Pexels)
Donald Trump criticou duramente Cuba durante seu primeiro mandato. Ele voltou a fazê-lo recentemente. No entanto, Cuba parece, tanto agora quanto em 2026, continuar sendo uma preocupação secundária. Outras prioridades capturaram sua atenção. Migrantes árabes e latino-americanos, México, Coreia do Norte e Irã, entre outros, parecem ter solicitado mais sua atenção de 2017 a 2021.
Desde 20 de janeiro de 2025, o foco tem sido o comércio internacional, a China, Israel, a Península Arábica e, na América Latina, o Panamá e a Venezuela. É verdade que o endurecimento das sanções tem sido mais brutal desta vez. Isso prenuncia iniciativas mais dramáticas? E, em caso afirmativo, de que tipo? O sequestro do presidente Miguel Díaz-Canel? O bombardeio de Havana? Ou um cenário menos violento: uma escalada verbal de ameaças contra o regime, provocando sua completa capitulação? Seria também necessário conhecer os objetivos do presidente dos EUA: são econômicos e políticos, ou econômicos ou políticos? Ele busca substituir o regime comunista por opositores residentes nos Estados Unidos, particularmente na Flórida? Ou se contentaria com um acordo à moda venezuelana: o regime permanece, mas seu sistema econômico muda de mãos, ficando sob controle dos EUA?
O tom de Donald Trump é marcial. O mesmo adotado em 16 de junho de 2017 em Miami. “Estou muito comovido por estar entre amigos na Little Havana”, disse-lhes naquele dia, completando “que não se calaria diante da opressão comunista […] Vamos fortalecer o embargo […]. Tenho dito às autoridades cubanas para aceitarem as liberdades políticas e econômicas […]. Deus abençoe Cuba e aqueles que buscam a liberdade”[1].
Em uma de suas coletivas de imprensa em meados de março de 2026, o ocupante da Casa Branca reiterou sua posição: “Terei a honra de tomar Cuba, […] ou libertá-la […] para dizer a verdade, posso fazer o que quiser […]. Cuba é um país falido. Quero um acordo e acredito que o conseguiremos. […] Caso contrário, faremos o que for preciso”[4].
Em outras palavras, se entendemos corretamente, por enquanto, não haverá intervenção militar e, muito provavelmente, as sanções serão intensificadas. A prioridade, indicou o presidente, continua sendo o Irã. Dado que a situação nessa frente provavelmente permanecerá inalterada por algum tempo, com Donald Trump preocupado com essa questão, a abordagem em relação a Cuba só pode ser de continuidade.
Como Cuba ainda não era uma prioridade, Trump, em 2026, assim como em 2017, ampliou o escopo das sanções. Desta vez, ele foi implacável. A operação em Caracas, em janeiro de 2026, permitiu que ele suspendesse a venda de petróleo venezuelano para Havana. Poucos dias depois, ele proibiu todas as vendas de combustível para Cuba, de qualquer país. O México, o país visado, acatou a ordem, assim como todos os países consultados por Havana, da Argélia à Rússia. Incapaz de importar os 60% do petróleo necessários para abastecer o país, a vida parou. Os apagões são diários e cada vez mais prolongados. Escolas, universidades e hospitais operam com capacidade reduzida. Aeroportos, sem querosene, fecharam. Não há mais turistas, uma fonte estratégica de receita. Além disso, Trump pressionou com sucesso os países que haviam contratado médicos cubanos, outra importante fonte de renda para o país. Esses médicos agora estão fazendo as malas para Guatemala, Honduras… e Calábria, no sul da Itália.
Cuba, embora à margem da crise, está sofrendo um choque econômico tão severo que Donald Trump acredita que o regime pode ruir a qualquer momento, como uma fruta madura. De fato, rumores de contatos bilaterais foram confirmados em 13 de março pelo presidente Miguel Díaz-Canel. Poucos dias depois, cerca de 50 presos, apresentados como presos políticos, foram libertados. E uma liberalização da economia, ainda que paliativa, foi anunciada pelas autoridades. Seus beneficiários, cubanos residentes no exterior, anteriormente discriminados por Havana, foram autorizados a investir livremente na ilha. “Poderia ser melhor”, comentou um deles, Marco Rubio, secretário de Estado de Donald Trump. Uma avaliação semelhante veio de potenciais investidores em Miami.
Segundo Donald Trump, as sanções, elevadas ao nível máximo, poderiam permitir que Cuba evitasse uma intervenção militar. Tudo indica isso. O fornecimento de combustível foi interrompido. Cuba está paralisada. As declarações de apoio às autoridades são numerosas: do Brasil, China, Espanha, México, Rússia e Vietnã. Mas nenhuma delas é acompanhada de entregas de petróleo. Apenas ajuda humanitária chega a Cuba, principalmente do México, da Europa e da Espanha. A Rússia considera participar de alguma forma não especificada. A população, exasperada, começa a manifestar seu descontentamento batendo panelas e frigideiras. Claramente, os anúncios econômicos iniciais, com seu efeito retardado, não surtiram o efeito desejado. O tempo está se esgotando para Díaz-Canel e o Partido Comunista Cubano.
Mas também pode ser uma questão urgente para Donald Trump, que enfrenta uma difícil eleição de meio de mandato em 3 de novembro. Um impasse prolongado no Golfo Pérsico teria consequências eleitorais negativas para o campo republicano. A tentação para Donald Trump poderia então ser a de usar Cuba como carta e antecipar as eleições. Cuba é um país pequeno e fragilizado, com poucos recursos militares e geograficamente próximo dos Estados Unidos. Uma guerra relâmpago não representaria grandes problemas. E o resultado seria um retorno garantido nas urnas. Garantido com os cubano-americanos, garantido com os republicanos, garantido com os cidadãos americanos, já que Trump conseguiria retomar Cuba, algo que todos os seus antecessores, democratas e republicanos, não conseguiram fazer em mais de sessenta e seis anos.
Texto publicado originalmente em francês, em 19 de março de 2026, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Cuba sur la liste des courses de Donald Trump”. Disponível em: https://www.espaceslatinos.org/archives/132240. Tradução de Andrei Cezar da Silva e Luzmara Curcino.
Notas
[1] Departamento de Estado dos EUA, Discurso do Presidente Trump sobre a política dos Estados Unidos em relação a Cuba, Assuntos Públicos Globais.
[2] Donald Trump afirmou que “terá a honra de assumir o controle de Cuba”, Seção de Finanças, 17 de março de 2026.
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Jean Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
