Segunda-feira, 3 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1399

Bolívia, Chile, Colômbia, Cuba, Peru: Radicalismos ignorados e, no entanto, desestabilizadores

(Foto: Ryan/Pexels)

O barco América do Sul está fazendo água da Bolívia ao Peru, passando pelo Chile e pela Colômbia nestes últimos tempos. Mas quem se preocupa com isso fora dos países envolvidos? A França e a Europa vivem em uma triagem seletiva de informações. Fora das longitudes de Moscou e Miami, e de suas extensões iraniana, israelense, libanesa e ucraniana, nada a relatar (RAS – rien à signaler) em nossas telas. Na América Latina, observa-se o mesmo silêncio midiático, com as frequências da imprensa sintonizadas no meridiano da Trump Tower.

É verdade que o destino do mundo não é decidido em Bogotá, La Paz, Lima ou Santiago. Mas a instabilidade, onde quer que esteja, quando não é administrada ou é mal administrada, espalha suas metástases pelos quatro cantos do planeta. As terapias de choque, privilégio dos poderosos, são incertas. Basta ver, no Estreito de Ormuz, como os Estados Unidos acabaram presos em sua própria armadilha intervencionista. O golpe militar bem-sucedido de 3 de janeiro — uma operação relâmpago na Venezuela — funcionou. Mas poderia ele se repetir em versões musculosas da Bolívia à Colômbia, de Cuba ao Peru, caso as circunstâncias internas desses países se deteriorassem simultaneamente?

O presidente Donald Trump apostou na regulação unilateral. Enfraqueceu as organizações internacionais. A paz sofre com isso. A ONU funciona em marcha lenta. Procura um novo secretário-geral. Seu atual dirigente multiplica declarações que caem em ouvidos distraídos. A UNASUL (União das Nações Sul-Americanas), que ontem ainda era um instrumento diplomático ativo e que solucionou diversas disputas sul-americanas — internas na Bolívia e bilaterais entre Colômbia e Venezuela — já não faz falar de si. Os BRICS perderam seu horizonte, divididos entre a atração exercida pelos Estados Unidos sobre alguns de seus membros, as consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia e as posições divergentes da Índia e da China.

Enquanto isso, o “quintal” americano que Donald Trump tenta reconstruir apresenta rachaduras, com risco de consequências danosas. O medo disseminado pelo ocupante da Casa Branca paralisa todo mundo, inclusive os doze governos que optaram pela submissão voluntária ao aderirem, em 7 de março passado, ao “Escudo das Américas”. O triunfalismo verbal e verborrágico exibido pelo secretário de Estado Marco Rubio mal consegue esconder a deterioração da vizinhança imediata de Miami.

A Bolívia, primeiro desses campos de ruína em ordem alfabética, mergulhou em uma crise semelhante à dos “coletes amarelos”, cujo desfecho é difícil de prever. Um aliado de Donald Trump, Rodrigo Paz, foi eleito presidente em 19 de outubro de 2025. “Fizemos uma revolução sem disparar um único tiro”, declarou ele a um jornalista espanhol em janeiro de 2026. Pouco depois de assumir o cargo, eliminou os subsídios aos combustíveis em nome da verdade dos preços. O Estado, acrescentou ele, deve funcionar como uma empresa, de maneira capitalista. No início de maio, todos aqueles que dependem de caminhões ou veículos motorizados para trabalhar bloquearam as estradas. Outras reivindicações aumentaram ainda mais a pressão sobre o presidente. O país está paralisado. Há mortos. Encurralado e recusando-se a renunciar, Rodrigo Paz decretou estado de exceção e autorizou a intervenção do Exército.

O Chile elegeu, em 14 de dezembro de 2025, um presidente de extrema direita sem disfarces: José Antonio Kast. De origem privilegiada, recebeu o apoio dos nostálgicos do ditador Augusto Pinochet devido ao histórico inequívoco de sua família. Mas dele se esperava sobretudo resultados na economia e na questão migratória. Cem dias após sua entrada no Palácio de La Moneda, os resultados ainda não apareceram. Seus eleitores continuam esperando medidas capazes de expulsar efetivamente venezuelanos, bolivianos, haitianos e peruanos do território nacional. Porém, o Peru fechou sua fronteira. Ninguém mais entra. A aplicação da “motosserra” econômica inspirada em Javier Milei, anunciada desde o primeiro dia, mostrou-se mais complicada do que o previsto. Houve, sem dúvida, anúncios de redução de impostos para empresas e heranças, suspensão de medidas de proteção ambiental para eliminar obstáculos ao crescimento, além da extinção de serviços públicos de defesa dos povos indígenas e de programas de apoio à identidade de gênero e à cultura. O preço dos combustíveis aumentou. Mas essa serra orçamentária assustou a população. Desde o fim de março, manifestantes vêm ocupando as ruas de forma repetida e contundente.

A Colômbia está em meio a eleições presidenciais. O país encontra-se polarizado. Dois candidatos disputarão o segundo turno em 21 de junho: à direita, o extremista Abelardo de la Espriella; à esquerda, Iván Cepeda. Ambos ultrapassaram os 40% dos votos no primeiro turno. As regiões periféricas do país sofrem com a ação de diversos grupos violentos, mais ou menos criminosos e mais ou menos politizados: o Clan del Golfo, o ELN e dissidências rivais das FARC. A confusa política de “paz total” defendida pelo presidente Gustavo Petro, hoje em fim de mandato, desmobilizou as forças de segurança sem convencer os grupos armados, que continuam mais ativos do que nunca. A economia vai relativamente bem, mas à custa de um pesado déficit fiscal de 7% do PIB. O forte aumento do salário-mínimo conquistou o apoio dos mais pobres, que apoiam Petro e o candidato progressista Iván Cepeda. Mas a radicalização da campanha promovida por Abelardo de la Espriella, encarada como desafio por Gustavo Petro, não favorece Cepeda. Ainda mais porque Donald Trump, seguido por Marco Rubio, declarou publicamente apoio após o primeiro turno de 31 de maio. “Parabéns”, afirmou Trump em 2 de junho, “ao candidato presidencial, o Tigre, Abelardo de la Espriella, por sua liderança no primeiro turno”. Nesse contexto, o desaparecimento dos candidatos de centro, combinado ao crescimento dos ódios mútuos e da violência, levanta dúvidas sobre o dia seguinte ao segundo turno.

Cuba está com a cabeça abaixo da linha d’água. As sanções reforçadas por Donald Trump mergulharam o país em uma incerteza vivida diariamente. Há cortes de energia elétrica, com todas as suas consequências domésticas: falta luz, faltam geladeiras funcionando, a gasolina se torna escassa, o transporte praticamente desaparece, surgem problemas de abastecimento e as ligações aéreas necessárias ao turismo são suspensas. Grandes redes hoteleiras canadenses e espanholas, ameaçadas pelos Estados Unidos, retiraram-se do país. Talvez desta vez Cuba ceda, sobretudo porque a pressão ainda pode aumentar caso Donald Trump não consiga sair de sua guerra no Golfo nos próximos meses. Mas o troféu eventualmente conquistado pode se revelar uma faca de dois gumes. Uma Cuba de joelhos significa necessariamente o risco de um fluxo potencial de migrantes rumo ao Norte, rumo a Miami.

O Peru, por fim, não está em situação melhor. O país despertou atordoado em 8 de junho, após o segundo turno das eleições presidenciais. A polarização que dominou a campanha não resolveu nada. Os resultados definitivos não são esperados antes da análise de inúmeras impugnações, provavelmente apenas em meados de julho. O processo tumultuado de apuração após o primeiro turno, que se arrastou por semanas e foi marcado pela renúncia forçada da direção da ONPE (Oficina Nacional de Processos Eleitorais), não inspira confiança.

Bolívia, Chile, Colômbia e Peru atravessam simultaneamente momentos difíceis. O mundo ignora isso, ou finge não ver. É verdade que se trata de Donald Trump e que os Estados Unidos afirmam ter reconstruído com sucesso o antigo “quintal” de sua influência. Mas será que essa onda de febres regionais desestabilizadoras poderá ser contida dentro dos limites da América Latina? Donald Trump conseguirá administrá-la de acordo com os interesses dos Estados Unidos, sem risco de contágio e de efeitos colaterais que ultrapassem amplamente a região?

Texto publicado originalmente em francês, em 10 de junho de 2026 no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Bolivie, Chili, Colombie, Cuba, Pérou: Radicalitées ignorées et pourtant déstabilisantes”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/134270.Tradução de Myllena Araújo do Nascimento e revisão de Andrei Cezar da Silva.

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Jean-Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).