Quarta-feira, 29 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1385

Venezuela desestabilizada, Espanha agitada

(Foto: Chris Boland/Unsplash)

A crise venezuelana desembarcou na Espanha e adquire cada vez mais força. Será que a queda do dominó venezuelano e de seu líder, Nicolás Maduro, está prestes a derrubar cabeças em Madri? As manchetes da imprensa e das televisões castelhanas, bascas, catalãs e outras misturam e sobrepõem Caracas e Madri, Venezuela e Espanha, Nicolás Maduro e Pedro Sánchez.

A demonização da Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro pela extrema direita mundial encontrou um forte eco na Espanha. O Partido Popular (direita liberal e conservadora), desde a chegada ao poder de Hugo Chávez, em 2000, e posteriormente o Vox, partido de extrema direita, pouco depois da sua fundação, em 2013, assumiram a crítica permanente, e de forma viral, do que seria a identificação bolivariana do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol). É verdade que o cenário dessa crítica se prestava bem a isso. Vários milhões de venezuelanos foram obrigados a deixar seu país em decadência econômica. A grande maioria se instalou em países vizinhos, como Colômbia, Peru, Equador, Chile e Brasil. No entanto, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) da Espanha, até a data de 1º de janeiro de 2026, 690 mil venezuelanos vivem na “Pátria Mãe” europeia. De acordo com o INE, os venezuelanos constituem a terceira comunidade estrangeira residente na Espanha, logo atrás dos marroquinos e colombianos. Seu número aumenta regularmente. Somente em 2025 chegaram 94.100 cidadãos venezuelanos à Espanha.

Esses imigrantes têm uma particularidade na Espanha. Parte deles são opositores políticos, radicalmente de direita e até mesmo de extrema direita. “Madri”, intitulava o jornal El País, em 27 de janeiro de 2019, “é a capital do exílio venezuelano na Europa”[1]. Nesse exílio se encontram o editor do jornal venezuelano de oposição El Nacional, Miguel Henrique Otero, e Fernando Gerbasi, ex-embaixador venezuelano junto à Comunidade Europeia. Edmundo González, candidato que foi privado da vitória eleitoral pelo então presidente Nicolás Maduro, em 24 de julho de 2024 fixou residência em Madri. Edmundo González era apoiado por María Corina Machado, suspensa de seus direitos civis pelo poder em exercício.

Edmundo González encontrou-se em Madri com Leopoldo López, líder do partido Voluntad Popular, com Leopoldo López Gil, seu pai, eleito deputado europeu em 2019 pelo Partido Popular, e Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas. Maria Corina Machado e Antonio Ledezma são signatários da “Carta de Madri” do partido Vox, destinada a estabelecer as bases de uma internacional que reúna a extrema direita europeia e latino-americana.

Pedro Sánchez, chefe do governo desde 2018 e secretário-geral do PSOE desde 2017, preside a Internacional Socialista (IS) desde 2022. Naquela época, o Voluntad Popular era membro da Internacional Socialista, tendo sua candidatura aceita e formalizada em 2014. Antonio Ledezma foi durante muito tempo membro do partido Ação Democrática, afiliado à IS. Posteriormente, fundou a Alianza Bravo Pueblo, que se definiu como social-democrata. O Voluntad Popular foi excluído da IS em 2024. Antonio Ledezma abandonou-a de fato ao deixar a Ação Democrática. Mas as sobreposições e os contatos passados criaram um legado de conivência. Esta realidade, as referências éticas do socialismo espanhol permitem compreender a proteção diplomática e, posteriormente, o asilo concedido por Madri a Leopoldo López.

“Na Espanha”, comentou um responsável associado venezuelano residente em Madri, “ganhamos muitos pontos junto aos líderes políticos, que são obrigados a assumir a questão venezuelana e promover as políticas necessárias para que haja uma mudança de poder” [2]. De fato, a ministra das Relações Exteriores, Arancha Gonzalez Laya, reclamou publicamente em 2020 de ter de dedicar “80% de suas intervenções à Venezuela” [3]. O cenário político espanhol, cada vez mais polarizado, ficou realmente agitado com a questão venezuelana. Uma escala feita em Madri em 20 de janeiro de 2020 por Delcy Rodriguez, então vice-presidente do governo venezuelano e atual presidente em exercício, gerou uma forte polêmica na Espanha, o que perdurou por muito tempo. O Partido Popular multiplicou as interpelações parlamentares e midiáticas na ocasião.

A Espanha, seguindo os Estados Unidos de Donald Trump em seu primeiro mandato e muitos países europeus e latino-americanos, havia então validado Juan Guaidó como “presidente interino”. Juan Guaidó foi recebido em 25 de janeiro de 2020 pela ministra das Relações Exteriores. A escala de Delcy Rodriguez e, em seguida, em 7 de fevereiro, após o encontro em Caracas entre o ex-presidente do governo espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero, e Nicolas Maduro, consolidaram a crise venezuelana em torno do ódio político entre os partidos espanhóis. O cenário permaneceu o mesmo em 2026.

A Venezuela, os laços do PSOE e, nominalmente, de José Luis Rodriguez Zapatero com Delcy Rodriguez, preenchem todas as semanas várias páginas da imprensa da oposição, e mais particularmente do jornal El Mundo. A visita de José Luis Rodriguez Zapatero a Caracas, em 6 de fevereiro de 2026, foi descrita da seguinte forma por Daniel Lozano, jornalista do El Mundo: “Nestes tempos em que o simbolismo exacerbado reina na política, a imagem dos três Rodriguez em um salão do Palácio de Miraflores na Venezuela, sob a imagem tutelar do libertador Simón Bolívar, refletiu o chavismo reciclado em seu estado mais puro”. [4]

A intervenção armada dos Estados Unidos e o sequestro de Nicolás Maduro foram saudados com estas palavras pelo líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo: “O mal foi derrotado. A captura de Maduro é uma boa notícia […] Foi o próprio regime [da Venezuela] que virou as costas a uma ordem baseada em regras ao roubar uma eleição”. Diagnóstico que foi completado, na crítica ao governo socialista, pela presidente da Região de Madri, Isabel Diaz Ayuso (PP): “O governo está constrangido porque foi cúmplice [de Maduro]. As únicas ditaduras no mundo são de esquerda e elas se apoiam mutuamente” [5].

Diante da clara violação do direito internacional cometida pelos Estados Unidos, o Partido Popular revisou parcialmente sua posição. O Vox assumiu então a liderança da crítica, sem nuances nem distância. “O regime narcoterrorista deve se render […]. Hoje o mundo está um pouco mais livre”, proclamou Santiago Abascal, seu líder, na manhã de 3 de janeiro de 2026 [6].

Em meio a essas polêmicas, a petrolífera espanhola Repsol participou discretamente, em 9 de janeiro, da reunião na Casa Branca sobre o futuro dos recursos petrolíferos e gasosos venezuelanos, organizada por Donald Trump. Em 13 de fevereiro, o Gabinete de Controle de Ativos Estrangeiros do Tesouro dos Estados Unidos suspendeu as sanções impostas à venda de petróleo pela Venezuela. Sob a condição de não fornecer petróleo à China, Coreia do Norte, Cuba, Irã e Rússia, cinco empresas petrolíferas, incluindo a Repsol, receberam luz verde para retomar suas atividades na Venezuela [7].

Texto publicado originalmente em francês, em 19 de fevereiro de 2026, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Venezuela déstabilisé, Espagne bousculée”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/131782. Tradução de Andrei Cezar da Silva e de Luzmara Curcino.

[1]  Jornal El Pais, 27 de janeiro de 2019, p. 5.

[2] Jornal El Nacional, Reinaldo Oliveros, 15 de março de 2019.

[3] Jornal El Pais, 28 de fevereiro de 2020, p. 15. 

[4] Daniel Lozano, « L’agenda de Zapatero bute sur la polémique loi d’amnistie », Jornal El Mundo, 8 de fevereiro de 2026, p. 26.

[5] Natalia Junquera, Jornal El Pais, 5 de janeiro de 2026, p. 22.

[6] Paloma H. Matellano, Jornal El Mundo, 11 de janeiro de 2026, p. 9.

[7] São elas: BP, Chevron, ENI, Repsol, Shell. 

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Jean Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).