Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1374

A imprensa, o 8 de janeiro de 2023 e a pauta dos debates nas eleições presidenciais

(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

Um dos deveres da imprensa é não deixar que caiam no esquecimento os ataques contra a democracia brasileira. Muitas pessoas morreram, foram torturadas e perderam os seus empregos para resgatá-la dos golpistas de 1964. Uma das maneiras de preservá-la é incluir na cobertura das eleições de 2026 perguntas aos candidatos sobre a tentativa de golpe de estado que aconteceu no final de 2022 e teve o seu episódio mais visível em 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas radicalizados que estavam acampados na frente de unidades militares se encontraram na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), e dali saíram quebrando tudo viram pela frente no Palácio do Planalto, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Congresso. É fundamental para o eleitor ser informado do que os candidatos pensam sobre o episódio. Lembro que mais de 1,5 mil envolvidos na tentativa de golpe foram presos, julgados e condenados, entre eles o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre uma pena de 27 anos na “Papudinha”, uma unidade prisional que fica no 19º Batalhão da Polícia Militar, dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. Nas eleições, em 4 de outubro, 150 milhões de brasileiros estarão aptos a votar. No primeiro turno serão disputados os cargos de deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República. O segundo turno será em 25 de outubro. Dois candidatos à Presidência já são conhecidos: o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que buscará a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, filho do ex-presidente. A estimativa é que pelo menos 10 candidatos concorram a presidente.

Sobre a tentativa de golpe existe uma abundância de reportagens e documentos oficiais disponíveis na internet. Portanto, não vou falar sobre o assunto. Julgo que será mais útil para os jovens repórteres que estarão envolvidos na cobertura do dia a dia das eleições se focarmos a nossa conversa no caminho que percorremos para sermos incluídos entre os países democráticos do mundo. Ele foi longo, demorado e cheio de armadilhas. Em 1964, uma parcela importante das Forças Armadas comprometidas com a extrema direita e os interesses dos Estados Unidos deu um golpe de estado, derrubando o então presidente, João Goulart (1919 – 1976), o Jango, gaúcho de São Borja. Eu tinha 14 anos e morava em Encruzilhada do Sul, pequena cidade na Serra do Sudeste, no interior do Rio Grande do Sul, onde a água congela nos canos durante o inverno. Lembro-me da minha mãe, a dona Loni, sentada em um sofá lendo o jornal que trazia na capa fotos de canhões e tanques. Fui saber o significado daquelas fotos pelo Dico, o mais velho da nossa turma e seguidor de Leonel Brizola (1922 – 2004), o inimigo número um dos golpistas. Três anos antes, em 1961, após a renúncia do presidente Jânio Quadros, Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, havia se entrincheirado no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, liderando um movimento que ficou conhecido como Legalidade, que buscava garantir, contra a vontade dos militares, a posse de Jango na Presidência da República. Além de pertencerem ao mesmo partido, o antigo PTB, Brizola era cunhado de Jango. Durante toda a minha adolescência convivi com pessoas assombradas pelo medo de serem presas pelos agentes do regime. Muitos dos que foram presos acabaram sendo torturados, mortos ou desapareceram. Parte dessa história é contada em filmes como Ainda Estou Aqui, baseado no caso real da prisão e desaparecimento, no Rio de Janeiro, do deputado Rubens Paiva (1929 – 1971), e Agente Secreto, uma ficção sobre um professor em Recife (PE) durante a ditadura. Nos anos 70, a barra era pesada. Lembro-me bem porque entrei na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas fui ter ideia do tamanho da encrenca que era a ditadura militar em 1975, quando comecei a trabalhar de “faz-tudo” na Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal), importante órgão da chamada “imprensa alternativa”, que desafiava os militares publicando reportagens denunciando a barbárie. Foi a convivência com os jornalistas na Coojornal que me influenciou a pedir a transferência do curso de Letras para a Fabico, a Faculdade de Jornalismo da UFRGS.

Em 1979, quando comecei a trabalhar como repórter em redação de jornal, o regime estava em decadência. Lembro-me que, na época, as conversas entre os jornalistas eram sobre a prisão, tortura e morte do colega Vladimir Herzog (1937 – 1975) pelos agentes do Doi-Codi, um dos órgãos de repressão da ditadura, em 25 de outubro de 1975, em São Paulo. No ano passado fez 50 anos do assassinato de Herzog – matérias na imprensa. Meses depois de entrar na redação, em 28 de agosto de 1979, foi assinada a Lei 6.683/1979, que ficou conhecida como Lei da Anistia. A legislação perdoou os crimes políticos cometidos entre 1961 e 1979. Permitiu o retorno dos exilados que viviam no estrangeiro e deu perdão para os agentes do estado envolvidos em crimes de tortura, prisões ilegais e sumiço de presos políticos. Vou voltar a falar da Lei da Anistia mais adiante. Em 1985, os militares foram substituídos no governo pelos civis. E, em 1988, foi publicada a atual Constituição. Aqui é o seguinte: o cerne da Constituição foi fechar as portas para não permitir que se repetisse o que aconteceu em 1964. Mesmo assim aconteceu a tentativa de golpe de 2022. Eu particularmente não acreditava que o ex-presidente Bolsonaro ia se envolver em tal evento. Classificava as palavras dele contra a democracia como bravatas para ganhar os votos e a simpatia dos saudosistas de 1964. Voltando à anistia. Ao contrário dos países vizinhos, como Uruguai, Argentina e Chile, onde os militares que derrubaram governos democráticos e instalaram regimes ditatoriais foram punidos com pesadas penas de prisão, a anistia brasileira deixou os golpistas livres. Isso facilitou muito o trabalho de pregação da volta do regime militar por parte do ex-presidente e de outros políticos de carreira. Traduzido: “Vamos fazer que não dá nada”. Desta vez deu cadeia. Muito mais que isso. Pesquisas mostram que a maioria da população brasileira é contra a anistia para os envolvidos na tentativa de golpe de 2022.

Para arrematar a nossa conversa. Vou acrescentar, por sugestão de um velho repórter que conheci durante as coberturas dos conflitos agrários nos anos 90, a resposta dada por Daniel Vorcaro, 42 anos, dono do Banco Master, envolvido em um escândalo de R$ 47 bilhões, durante o seu interrogatório conduzido pela delegada federal Janaina Palazzo. Perguntado pela delegada a respeito da sua influência entre os políticos e autoridades, ele assim respondeu: “Eu queria dizer o seguinte, se tenho tantas relações políticas como estão dizendo, e se tivesse pedido a ajuda destes políticos, eu não estaria aqui de tornozeleira, não teria sido preso e estaria com a minha família, que está sofrendo com a situação”. A resposta do colega sobre as palavras de Vorcaro: “Ele estaria exatamente onde está porque o Brasil não é uma República de Bananas”.

Publicado originalmente em “Histórias mal Contadas”

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.