Quarta-feira, 17 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1392

Revista Pesquisa FAPESP: uma carta de despedida

 

Em 25 de maio, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) concedeu à revista Pesquisa FAPESP e ao jornalista Bernardo Esteves, da revista Piauí, o prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica de 2026, o mais importante reconhecimento do jornalismo científico brasileiro. Receber tamanha honraria confirma a excelência da publicação em seu 27o ano de vida e enche de orgulho a equipe responsável por esse trabalho, que está de partida.

Referência em divulgação científica, a revista Pesquisa FAPESP nasceu como um boletim de notícias e se tornou um veículo de jornalismo sobre ciência. Sempre ancorada em pesquisa de qualidade, traz reportagens sobre temas atuais, pessoas e fazeres da ciência. Também cobre políticas e instituições do ecossistema brasileiro de C&T e temas de tecnologia e inovação.

Esse conteúdo se distribuiu, até agora, em uma revista mensal de 100 páginas, um programa semanal de rádio, veiculado por meio de parceria com a rádio USP, um site de acesso aberto, com atualizações diárias e 15 milhões de visualizações em 2025. A revista também conta com um canal no YouTube, com novos vídeos quinzenais – no último ano foram 990 mil visualizações –, e está em diversas redes sociais, com destaque para o Instagram (163 mil seguidores). Tem várias newsletters e todo o conteúdo da versão impressa de Pesquisa FAPESP está disponível no site com tradução para o inglês e o espanhol.

A revista era distribuída para mais de 4 mil escolas e bibliotecas públicas e contava com uma base fiel de assinantes. Até a recente suspensão das novas assinaturas, 5 mil pessoas pagavam para receber um exemplar físico, mesmo a edição estando disponível gratuitamente online. Também era vendida em bancas de todo o país.

Pesquisa FAPESP tornou-se o produto de alta qualidade e larga respeitabilidade que é graças à sustentação institucional da Fundação que lhe deu nome, estrutura, e continuidade, e ao empenho dos profissionais que se dedicaram a produzi-la todos esses anos. No final dos anos 1990, a direção da FAPESP tomou a decisão visionária de criar sua própria revista sobre ciência brasileira, feita por um time de jornalistas especializados e dedicados integralmente à publicação.

Os gestores à época entenderam que esse projeto, embora vinculado à Fundação e à sua missão institucional, deveria preservar natureza jornalística própria, distinto daquele da comunicação institucional – área na qual também foi pioneira – por terem funções, procedimentos e critérios editoriais diferentes. Criar uma publicação para falar diretamente com a população sobre ciência requer que se coloque o leitor em primeiro lugar: ao fazê-lo se interessar por ciência de modo amplo, entenderá a importância da alocação de recursos públicos para o fomento da ciência e, portanto, da existência de uma instituição como a FAPESP.

Por mais de duas décadas, a revista esteve subordinada à Diretoria Científica da Fundação para que seus jornalistas pudessem usufruir da proximidade com o corpo de assessores – pesquisadores seniores de diversas áreas de conhecimento, vinculados a instituições de ensino superior e pesquisa do estado de São Paulo –, levantando pautas, revisando textos, garantindo a solidez e a precisão que veio a caracterizar sua produção.

O visionarismo do passado deu lugar a uma confusão conceitual: a revista passou a ser vista pela Fundação como um veículo de caráter mais institucional. Exemplo disso é a manifestação da direção da FAPESP de 9 de março, na qual o desempenho de Pesquisa FAPESP é comparado ao da agência de notícias da Fundação e o custo de produção da revista é cotejado, de modo pouco fiel, ao da gerência de comunicação institucional. A única métrica de desempenho mencionada no comunicado é “menções na mídia nacional e internacional”, indicador aplicável a uma assessoria de imprensa ou agência de notícias.

É de causar espanto o fato de que uma das principais agências de fomento à atividade científica e tecnológica do país tenha esquecido um ensinamento repetido a todo pesquisador em início de carreira: não se pode comparar objetos de categorias diferentes como se fossem equivalentes. Uma revista jornalística tem por objetivo expor resultados de forma abrangente e crítica, escolhendo pautas e cuidando do texto de modo a atrair e reter a atenção dos leitores. Já a missão de uma agência de notícias institucional é fornecer a outros veículos de comunicação informações pertinentes à atuação da instituição que a abriga.

Produzir todo o conteúdo que Pesquisa FAPESP publicava mensalmente, respeitando seus procedimentos de checagem e aperfeiçoamento, tem um custo, assim como tem um custo fazer ciência de qualidade, com rigor. É prerrogativa da Fundação decidir se é do seu interesse manter esse investimento. Essa avaliação de que a revista seria “cara” foi reforçada por cifras fantasiosas, que circularam na comunidade científica e foram difundidas por jornalistas sem averiguação. A desinformação a respeito do seu custo, somada à confusão conceitual sobre seu propósito e a dificuldades operacionais resultantes de escolhas administrativas e jurídicas equivocadas da Fundação, motivaram uma radical reestruturação da Pesquisa FAPESP neste ano e, a partir de junho, o desligamento de toda a equipe de 25 pessoas.

Reformulações, mudanças, cortes, e modernizações fazem parte da trajetória das publicações. No entanto, o caminho adotado pela Fundação para essa “reestruturação” foi marcado pela ausência de diálogo, por propostas de trabalho precarizado, pela divulgação de informações contraditórias, quando não erradas, além de insinuações sobre o descumprimento de medidas (quais? por quem?) e de “usos político-partidários” da revista – lembrando que a pauta de todas as edições era previamente avaliada e avalizada pela direção da FAPESP e que nenhuma edição seguia para a gráfica sem o “de acordo” de todos os seus diretores.

Uma equipe em que vários integrantes trabalharam por vinte anos foi dispensada sem nenhuma palavra de reconhecimento. É evidência do descaso da Fundação pela revista o fato de não ter publicado, até a data da escrita dessa carta, uma nota sequer sobre o prêmio José Reis em seu site institucional ou na Agência FAPESP.

Ao receber essa honrosa láurea na reunião anual da SBPC em julho, a FAPESP e a nova equipe da revista receberão também a responsabilidade de levar adiante um projeto sério de jornalismo científico brasileiro, fazendo jus à história de Pesquisa FAPESP. Desejamos boa sorte.

São Paulo, 8 de junho de 2026

Fabrício Marques, Maria Guimarães, Carlos Henrique Fioravanti, Ana Paula Orlandi, Yuri Vasconcelos, Christina Queiroz, Marcos Pivetta, Alexandra Ozorio de Almeida, Claudia Warrak, Andressa Matias, Ingrid Teodoro, Leonardo Ramos Chaves, Valter Rodrigues da Silva, Maria Paula Iliadis, Alexandre Affonso, Maria Cecilia Felli.