Tuesday, 09 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1199

Filme dos irmãos Cohen não entusiasma na abertura da Berlinale

Ave Cesar filme George Clooney divulgação

George Clooney no filme “Ave Cesar” , dirigido pelos irmãos Cohen / foto divulgação

A comédia dos irmãos Cohen, mostrando a vida nos estúdios de cinema nos anos 50, à qual se referem « com afeição e um pouco de admiração, não com nostalgia », não é das melhores da dupla e o personagem vivido por George Clooney não é dos mais brilhantes, razão pela qual o ator conhecido por seu comercial das máquinas de café expresso da Nestlé, se pergunta rindo “será que sou tão tonto assim ?”

É a história, vivida por Josh Brolin, um compenetrado diretor de estúdios e “quebrador de galhos”  entre os artistas, se é assim que se pode traduzir « fixer ». A pelicula é baseada num personagem real que trabalhou na MGM (seria o verdadeiro Joseph Edward Manix) e se inspira também nas colunas sociais de jornalistas correspondentes em Hollywood daquela época.

A história da atriz grávida (Scarlett Johansson) cuja gravidez e parto foram mantidos em segredo, aconteceu realmente. Para ficar com a criança, ela simulou uma adoção. Era a época da cronista Loretta Young, língua de trapo, especialista em descobrir escândalos, que poderia ter contado a gravidez de uma atriz pelo ator Clark Gable.

Mas ao ironizar e construir o filme com seu título e roteiro principal no personagem vivido por George Clooney, portanto, em cima do sequestro do ator por um grupo de comunistas de Hollywood, talvez os irmãos Cohen tenham forçado a barra.

Isso porque outro filme , com o nome de Trumbo, retorna aos anos da guerra fria e do macarthismo nos EUA e dentro de Hollywood, fazendo fugir gente como Charlie Chaplin, Kubrik e outros. Durante a entrevista coletiva, uma jornalista tentou levantar a questão do marcarthismo dentro dos estúdios de cinema, porém os irmãos Cohen descartaram.

Os irmãos Cohen teriam se inspirado em algum caso de ator raptado, naquela época, por um grupo de comunistas com cúmplices dentro dos estúdios de Hollywood, para obter um resgate que acabou se perdendo no mar, diante de um submarino soviético ? Ou o episódio do filme teria sido uma mera provocação de que os comunistas dos estúdios da época queriam influir nos filmes e curtiam a ilusão soviética , como diziam os macarthistas ?

No filme, Clooney tem um papel ridículo, num filme épico romano, alusão aos diferentes filmes bíblicos da época, com os trajes de um centurião na legião romana, que se converte aos pés da cruz de Jesus. Se realmente os irmãos Cohen pensavam nele ao escrever o roteiro, Clooney teria razão para se ofender.

Depois de raptado, o ator passa por uma lavagem de cérebro, simpatiza com as ideias de seus raptores e, ao ser libertado com o pagamento da soma exigida, quer convencer o diretor dos estúdios repetindo os argumentos comunistas aprendidos de seus raptores, tentativa que acaba terminando  com quatro bofetadas na cara pelo diretor.

Nos estúdios aconteciam absurdos como utilizar, sem explicação um ator de rodeios e western para um filme totalmente diferente, dramático, como de um Çukor. E relembra igualmente, com Channing Tatum, aquelas comédias musicais com claquetes e números de dança atualmente ausentes dos filmes de Hollywood. No filme, é o ator da comédia musical de marinheiros que recebe o resgate para a libertação do legionário romano Baird Whitlock, vivido por Clooney.

Clooney brinca e se azeda

O filme era dos irmãos Cohen mas o astro maior na sala abarrotada de jornalistas, era o ator George Clooney. Numa interminável pergunta, uma jovem jornalista, fã de Clooney, acaba ouvindo a resposta do ator que provoca riwsos em toda a sala: “Você está me cantando ? Eu sou casado”.

Outra jornalista deixa o ator de mau humor ao sugerir que Clooney deveria usar de seu prestígio para fazer um filme sobre os povos e regiões que vivem hoje guerra e miséria, insinuando haver muita conversa e pouca ação no filme dos irmãos Cohen. O ator se defende dizendo que já esteve no Dafur e tem encontro com Angela Merkel para discutir a questão dos refugiados.

Explica também que um filme é algo complicado para se fazer, é preciso se construir uma história e que isso não se consegue facilmente. Mas que ele, Clooney, achava estranho esse tipo de pergunta, e que, na verdade, embora não tenha dito, a considerava uma cobrança.

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Rui Martins é jornalista e está em Berlim cobrindo o Festival de Cinema