
(Imagem: Divulgação/50ª Mostra de Cinema)
Dura 15 dias, mas é um farol para o ano todo. A 50ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo é um guia para os filmes premiados nos melhores festivais dos dois lados do globo. Não é preciso lastimar se algum ficou perdido depois do final da Mostra. Eles podem ser apanhados na repescagem esta semana, quando os filmes mais votados voltam às telas (ver em mostra.org). Depois, no resto do ano quando estiver em exibição nas salas de cinema ou no streaming. Descubra o tesouro nesta lista abaixo, em diversas categorias.
DOCUMENTÁRIOS
Em Entre Mundos o acadêmico, professor de literatura na Universidade de Columbia, crítico e ativista político palestino-americano Edward Said conta a sua história. Que é a história da Palestina. Para Said, (1935-2003), foi missão de vida iniciada com a perda da casa, da terra, da família tornada refugiada, e da consciência do papel periférico que passou a ter depois de uma infância alegre e de boa convivência com os israelenses na Jerusalém britânica. O livro “Orientalismo” escrito em 1978, foi um marco, e o documentário de Maiken Baird é uma lição sobre a verdadeira cultura palestina. Porque, segundo Said, o que corre sobre o seu povo é uma invenção dos ocidentais, “vocês nos inventaram”, acusa.
Sócrates Brasileiro é o novo filme de Walter Salles, uma série em cinco episódios em finalização sobre o breve momento em que o futebol deixou de ser o ópio do povo para virar ato político, os jogadores reivindicando a resistência democrática. O líder desse movimento foi um médico, craque do futebol na década de 1980 com nome de filósofo grego. Sócrates (1954-2011), irmão de Sóstenes e Sófocles, filho do cearense Raimundo e da paraense Guiomar, cristalizou a democracia até na camiseta do Corinthians. Uma família bem criada pode fazer a diferença no Brasil, como mostra a série de Walter Salles, realizada a partir de um pedido de um dos seis irmãos, Raí, criador do Gol de Letras.
Uma Missa para Dom Angélico, documentário de Emília Silveira, diretora de filmes como Setenta em 1913, Callado em 1917, lembra um anjo iluminado que salvou uma comunidade da fome, do despejo e do desamparo enquanto foi bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, junto a Dom Paulo Evaristo Arns. Dom Angélico (1933-2025) teve papel fundamental na sustentação nas CEBs, as Comunidades Eclesiásticas de Base, dando apoio às Juventudes Estudantis e Universitárias Católicas (JEC e JUC). O futuro desmonte desse movimento a partir do golpe que demonizou a cartilha de Paulo Freire e a figura de dom Helder Câmara deu espaço ao crescimento das igrejas evangélicas, da individualização, da expansão da extrema direita no Brasil com perseguição de padres como Julio Lancelotti. Na esteira, a falta de gentileza e solidariedade, o discurso do ódio. Este filme passou no Festival do Rio e está em exibição simultânea à Mostra.
Sem o documentário Musk (Alex Gibney), o homem mais rico do planeta, não se entenderia nada sobre alguns dos desastres deste mundo. Não percam.
Focado num dos diretores de teatro mais vanguardistas do mundo, com mais de 50 peças inovadoras, Robert Wilson and the Civil Wars (Howard Brookner) discorre sobre a produção de uma das montagens mais ambiciosas do século, que nunca chegou ao Festival Olímpico de Artes de Los Angeles em 1984. Apesar das frustrações, ao lado de compositores como Philip Glass e David Byrne, o texano Bob Wilson (1941-2025) revela sua arte única, focada não nas palavras, mas nas imagens, na memória e nos sentidos. O documentário não capta na tela toda a beleza e magia que seus espetáculos minimalistas causavam e permaneciam muito tempo depois de assistidos, mas fica claro nas declarações do poeta Louis Aragon e do ex-ministro da Educação francês, Jack Lang
Ficção premiada nas mostras de Cannes e Veneza
Palma de Ouro em Cannes, Fjord , de Cristian Mungiu, é um filme sobre a que ponto pode chegar a intolerância religiosa e cultural em relação a um casal romeno-norueguês e seus cinco filhos, recém estabelecidos num fjord distante. Um intrigante retrato da sociedade moderna liberal.
Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, Mulher Deconhecida (MayEl-Toukhy) é um impressionante filme sobre o segredo de uma mulher durante o nazismo na Dinamarca e as consequências que esse mistério pode causar. O silêncio da mulher também fica caro e dúbio em outro filme premiado em Cannes, Minotauro (Andrey Zvyagintsev), desta vez por outros motivos, a relação amorosa a três —uma história baseada em A Mulher Infiel, de Claude Charbrol, que levou o Grande Prêmio do Júri em Cannes em 1969 e está na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos pelo The New York Times.
O Outro Lado das Redes (Aaron Sorkin) é um thriller inspirado em fatos reais que explica como garotos, a começar por Mark Zuckergerg, começaram a tomar conta de nossas vidas pelo lado de dentro. É o poder assustador do Facebook.
Tigre de Papel (James Gray), com Adam Driver e Scarlett Johansson, dá o alerta sobre o beco sem saída do consumismo, da ganância e o blefe do “sonho americano” de uma família simples e (outrora) feliz morando no Queens e sonhando com Great Neck.
Furies é o eletrizante filme de assalto, candidato libanês ao Oscar. É o primeiro filme da diretora Rami Kodeih, inspirado na reação violenta da população quando o colapso bancário se instalou no país em meio à guerra e aos boicotes. Duas irmãs resolvem assaltar um banco depois de verem suas economias congeladas diante da necessidade de uma delas de realizar uma cirurgia importante. Recrutam dois homens, um ex-miliciano e um caminhoneiro para serem os “braços fortes” da operação, na verdade conduzida por elas em meio ao caos da cidade que leva tudo ao descontrole. George Clooney, casado com a advogada anglo-libanesa Amal Alamuddin, deu seu aval ao filme.
Literatura, arte e cinema
A grande chave da Mostra deste ano são os filmes que retratam, em documentário ou ficção, a vida de escritores, cineastas, pintores, poetas.
A Biografia de Jorge Luis Borges (Mariano Llinás) tem cinco horas e 40 minutos, numa minuciosa investigação dos papéis e livros que ele deixou. Revisita locais que Borges frequentava, incluindo amigos da vida toda, como os escritores Bioy Casares e sua mulher, Silvina Ocampo. Paul Auster fez questão de prestigiar até o chão da biblioteca que Borges pisou.
A Voz Partida de Lorca (Manuel Menchón) é na verdade a voz de Álvaro Morte, diretor e ator espanhol, famoso no papel de professor na série Casa de Papel. Federico Garcia Lorca (1898-1936) deixou nos documentos inéditos traços sobre sua vida, arte, amores e o motivo de seu assassinato pelos soldados de Franco logo no começo da violenta Guerra Civil Espanhola. Até hoje há buscas sobre seu corpo. Lorca tornou-se uma lenda ecoada, escrita e cantada, de H. D. Wells e Tennessee Williams a Bob Dylan, Pablo Neruda, Lou Reed, Patti Smith e Leonard Cohen.
A bem-sucedida adaptação para cinema de Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco, pelo cineasta português Sérgio Graciano retrata a prisão do escritor e sua amante Ana Plácido num processo de adultério que foi o escândalo do século XIX.
O libertino Arthur Rimbaud, com suas inquietações, e a famosa relação de amor com outro poeta, Paul Verlaine, sempre atraiu curiosidade. Principalmente pelo abandono de tudo aos 20 anos e sua morte aos 37 anos (1854-1891). O diretor Patrick Wang realizou A. Rimbaud em quase três horas com o australiano Blake Draper no papel do poeta, acompanhando as alucinações da escrita e da alma de um dos cults imortalizado na pequena foto de cabelos e gravada desalinhadas, olhar sempre perdido no tempo. Estranhamente, em inglês.
O Menino da Fotografia é Carlos Saura, um dos maiores roteiristas e cineastas espanhóis, representado na Mostra com um documentário íntimo de 1:22:00. Sua filha Anna desvenda o pai desde a infância até a morte aos 91 anos (1932-2023). Um superprodutivo Saura, que coleciona máquinas fotográficas, pinta suas fotos, escreve roteiros e filma clássicos como Cria Cuervos (1975), Mamá Cumple 100 Años (1979, Bodas de Sangue (1981).
Cavalcanti (Graubi Garcia e Jairo Neto) vem preencher uma lacuna inexplicável sobre a vida e obra desde cineasta brasileiro, Alberto Cavalcanti, reconhecido na França desde o cinema mudo, e aclamado na Inglaterra pela essencial contribuição ao documentário inglês. Em contrapartida, restou o desprezo dos brasileiros desde 1954 quando trouxe técnicos europeus e veio dirigir a Cia Vera Cruz. Esquecido até hoje, 44 anos depois de sua morte, em 1982.
Ana Carolina escolheu o ator carioca Julio Adrião para contar de forma irreverente e através de cartas o excêntrico que ousou pintar a cara do Brasil e causou estranhamento ao expor suas obras na Semana de Arte Moderna em 1922. Di Cavalcanti teve uma vida desalinhada, foi colega de Luis Carlos Prestes no colégio, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro, foi preso várias vezes, casou-se quatro, deixou a política para trás e viajou para a Europa várias vezes, sem dinheiro. Conviveu com Brecheret, Mario e Oswald de Andrade, Tarsila e Anita Malfatti, Paulo Prado, Vinicius de Morais, Antonio Maria. Boêmio, pesado, bonachão, foi causando sensação no país e levando a cara do Brasil para fora. Elogiado por Stefan Zweig, foi reconhecido como um respeitado representante do modernismo brasileiro. Tuna Dwek, no papel da segunda ex-mulher, a pintora e aluna de Di, Noêmia Mourão, dá o toque picante e elegante.
Melhor direção no Festival de Cannes, A Terra do Meu Pai (Pawel Pawlikovski), registra em 1 hora e 22 minutos os cinco dias da volta de Thomas Mann à Alemanha, onde não colocava os pés desde a ascensão do nazismo em 1933. Mann (Hans Zischler), ganhador do Nobel de 1929, retorna quatro anos depois do fim da guerra para receber o prêmio Goethe. E se confronta com uma Alemanha partida que faz questão de percorrer na Guerra Fria pelos dois lados ocupados: Frankfurt, onde Goethe nasceu e, para espanto do lado ocidental, Weimar, sob domínio soviético, onde Goethe morreu. Mann condena o Teatro do Festival de Bayreuth criado para ser a casa das óperas de um Richard Wagner antissemita. Na viagem é conduzido por sua filha Erika (Sandra Hüller), agora casada com o poeta americano W.H. Auden. Erika tem um desagradável encontro com o ex-marido, o ator Gustaf Gründgens (Joachim Meyerhoff) que ela acusa de colaboracionismo e de ter boicotado o livro “Mefisto”, do irmão Klaus, na verdade uma caricatura do próprio Gründgens. Quando o filme abre ouvimos a voz que mais tarde saberíamos ser de Erika, conversando pelo telefone com quem depois se revelaria ser Klaus (August Diehl), homossexual. Rejeitado pelo pai, Klaus se mata em Cannes durante esta viagem, o que não altera a frieza do pai.
