
(Imagem: Divulgação/Mostra Internacional do Cinema)
Bolsonaro e Lula estão presentes em dois filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que celebra 50 anos, e ainda há tempo de assistir aos dois na semana que vem: Homem Ao Mar, do ator e diretor mexicano Gael Garcia Bernal, e Musk, do produtor e diretor norte-americano Alex Gibney. Bernal é conhecido do grande público pelos filmes de Walter Salles, “Diários de Motocicleta”, de Almódovar, “Má Educação” e “Babel”, e de Hector Babenco, “O Passado”. Gibney ganhou o Oscar em 2007 com “Um Táxi para a Escuridão” e aborda temas como tortura, Cientologia e escândalos como o da companhia americana de energia Enron, que faliu por fraude contábil em 2001.
Homem ao Mar é uma fábula leve e musical embalada por Ney Matogrosso cantando “Flores Astrais”, e Toquinho e Vinicius e Morais em “Canto de Ossanha”. Tem menos de duas horas de duração, cara de telenovela brasileira e uma brasileira no elenco, Débora Nascimento no papel da atriz Fabiana. O salva-vidas cubano Camilo, personagem do charmoso Bernal, acompanha uma novela estrelada por Fabiana e inspirada nos primeiros anos de militância sindical de Lula, que aparece preso. E reaparece algumas vezes. Sempre com referências à liberdade e injustiça. O próprio nome de Camilo é uma homenagem ao revolucionário cubano Camilo Cienfuegos. No filme, a vida pessoal de Camilo, casado com a filha de um empresário riquíssimo que ele salva ao ver o homem se afogar no mar, se desenrola num ambiente de farsa política e manipulação das classes dominantes alienadas, da qual procura uma saída.
Musk é um imperdível peso pesado com 4 horas e 35 minutos de duração e intervalo de 10 minutos. Gibney foi pescar a vida de Elon desde a infância na África do Sul com um pai violento, quando sofria bullying calado no colégio, até se tornar o homem mais rico – e perigoso – do mundo.
O documentário aborda sua relação com Trump no Dark Maga e os riscos que corria com Kamala Harris e Biden. Depois, os fracassos na primeira startup Zip2 e a varrida do PayPal até conseguir que seu foguete para Marte funcionasse na quarta tentativa e muitos milhões perdidos. Musk agregou a X e a X-AI (sua Inteligência Artificial) para fazer da Space X a maior oferta pública (IPO) já registrada. Gibney se surpreende, como ele consegue ganhar tanto dinheiro cometendo tantos erros.
CEO da Tesla, Musk é questionado por Martin Eberhard e Marc Tarpenning, que iniciaram a empresa automotiva, mas foram demitidos e apagados por ele.
Suas promessas para obter mais de 100 milhões de créditos ambientais na Califórnia são desmascaradas. Alegou que seus carros de 450 quilos poderiam trocar facilmente as baterias, mas esqueceu-se de dizer que a estação de troca ficava no deserto. O documentário mostra algumas das pessoas mortas pelos carros de direção autônoma que ele dizia ser seguríssimos.
É assustador o relato sobre o acesso de Musk ao DOGE, o Departamento de Eficiência Governamental, quando cortes de verbas aconteceram em massa em setores sanitários como a USAID, que deixou de enviar medicamentos causando 4 mil casos e mais de 2 mil mortes no Congo por ebola. Pior foi o acesso de Musk aos dados detalhados sobre cidadãos americanos, os milhares de demitidos em setores-chave como educação foram substituídos por jovens de 19, 20 anos, especialistas em TI, sem qualquer experiência, com todos os dados nas mãos. Gibney se assusta com os “garotos do DOGE”, que “enviaram nossos dados para o Space X”.
A relação com mulheres e filhos é desastrosa. Gibney entrevista a primeira mulher Justine, mãe de seis de seus 14 filhos, que relata a misoginia do marido desde o dia do casamento. O primeiro filho do casal realmente morreu, mas um deles, Xavier, que se tornou a bela Viviane aos 22 anos, está bem viva embora Musk alegue que (o filho) “está morto…pelo vírus woke”. Ele nunca aceitou a mudança de gênero. Justine foi trocada por várias mulheres. Uma delas, Ashley St Clair, relata como Musk insista que engravidasse, “como um metralhadora de esperma nas DMs dele”. Outra das suas autodenominadas “parideiras”, Claire Boucher (“Grimes”), reclama como ele surrupiou um de seus três filhos, o X, seu favorito, sem se importar com o resto. Há uma associação com o imperador chinês de origem mongol Kublai Khan (1215-1294) que entre esposas e concubinas teve 12 filhos.
Não faltaram desentendimentos com jornalistas e associações a drogas, a Epstein, à serra elétrica de Milei e a Jair Bolsonaro, que agradece a Musk caindo na sua bem sedimentada rede de empréstimo de poder a políticos que poderiam enriquecê-lo. Bolsonaro pede uma salva de palmas para Musk.
Eleições estão na mira, junto com suas arquitetadas tentativas de miná-las, como uma repórter da Al-Jazeera revela em off sobre Bolsonaro e as urnas de 2022. Musk cita “o arqui-inimigo de Bolsonaro, o ministro Alexandre de Morais” que travou um combate contra o X em 2024. E repete sobre “este juiz” que ele “traiu a Constituição e povo do Brasil”. “Ele deve renunciar ou ser afastado por impeachment. Vergonha, @Alexandre, vergonha”.
As falas de Elon Musk são todas reais, mas como o personagem principal se recusasse a falar, foi criado um avatar, com as mesmas roupas e jeito do empresário.
É um bom momento para ver Musk. Gibney oferece neste documentário lições de história sobre fraudes em eleições (“você não pode ir lá simplesmente e alterar votos”, disse numa entrevista ao The New York Times). E ainda cita as imoralidades cometidas no setor econômico pelos líderes da tecnologia, “esse pequeno grupo de pessoas tentou dar um golpe em todos nós”.
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Norma Couri é jornalista formada na PUC do Rio de Janeiro, com mestrado na Journalism School da Universidade de Columbia em Nova York e doutorado em História Social na USP. Trabalhou no Jornal do Brasil, Veja, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Playboy e em várias revistas brasileiras como Piauí, Forbes, Época, Claudia, Nova, portuguesas como Grande Reportagem, Máxima e no jornal da ONU em Nova York. Foi correspondente na Europa por 10 anos e no Brasil para a revista Visão (Portugal). Escreve no jornal Valor Econômico. Ganhadora de dois prêmios Esso (com equipe).
