Sunday, 19 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

As telas e os livros

O correspondente do jornal Zero Hora em Israel, Nahum Sirostky, defende a tese de que a internet, apesar de ser uma ferramenta maravilhosa, provoca uma espécie de nivelamento por baixo. As pessoas recebem muita informação e sabem pouco sobre muita coisa (os jornalistas, bem antes do advento da internet, costumavam dizer que eram pessoas que não sabiam nada sobre muita coisa).


Um artigo traduzido pelo Estado de S. Paulo na edição de ontem (2/4) trabalha numa linha semelhante. Foi escrito por Edward Tenner, apresentado como autor do livro Our Own Devices: How Technology Remakes Humanity. Tenner tem um site.


O artigo se chama “Sites de busca emburrecem os estudantes?” Tenner diz que caiu nos Estados Unidos e na Inglaterra a proporção de universitários capazes de ler textos complexos. Não Proust, mas rótulos. Afirma que digitalização na universidade tem uma parcela de responsabilidade: “A partir do início da década de 1990, escolas, bibliotecas e governos adotaram a internet como o portal para o acesso universal à informação. E no âmago de suas esperanças estavam mecanismos de busca, como o Google e seus rivais, Yahoo e MSN. Os novos sites não só encontram mais, eles geralmente apresentam informação utilizável na primeira tela.


(….) Muitos estudantes parecem não ter habilidade [capacidade; a tradução mecânica de ability por “habilidade” virou uma praga] para estruturar suas buscas. Em 2002, pediram a estudantes de graduação da Universidade de Tel-Aviv que encontrassem na internet, sem limite de tempo, uma imagem da Monalisa, o texto completo de Robinson Crusoe ou David Copperfield e uma receita de torta de maçã com fotografia. Só 15% executaram as três tarefas.


Hoje, o Google acelerou essas tarefas, mas o problema persiste. Bibliotecária da Associação Histórica Americana, Pamela Martin observou que ´a simplicidade e a impressionante proeza de busca do Google engana os estudantes, fazendo-os crer que são bons pesquisadores em geral´.


A educação superior está contra-atacando. Bibliotecários estão ensinando ´capacitação para obter informação´. Alunos de pós estão começando a discutir a adesão à Wikipedia em vez de combatê-la, como muitos ainda fazem quixotescamente”.


No Globo de sábado (1 de abril), entrevista com o presidente da Biblioteca Nacional da França, Jean-Noël Jeanneney, ganhou o título “Três razões para enfrentar o poder do Google”. A saber: O Google “não tem critérios claros para a busca de livros; baseia-se sobretudo na obtenção de lucros, o que não é o caso de instituições públicas; e privilegia um olhar anglo-saxônico do mundo”.


As revoluções tecnológicas são assim: primeiro, resistência ao que é novo; depois, maravilhamento (lembro-me de Villas-Boas Corrêa no Jornal do Brasil primeiro desdenhando a informática e três dias depois querendo ter o monopólio de seu computador, o que a escassez de equipamentos não permitia); em seguida, a aquisição de uma visão crítica.


Numa é demais repetir: cultura depende antes de mais nada de leitura. Leitura de livros.