
(Foto: Adem AY/Unsplash)
A comunicação contemporânea atravessa uma crise epistêmica que não se resume a questões tecnológicas, mas exige uma profunda reorientação teórica. As plataformas digitais, com suas lógicas algorítmicas e seus regimes de visibilidade seletiva, remodelaram radicalmente os modos de produção, circulação e recepção de sentidos. Diante dessa transformação, as teorias clássicas da comunicação, enraizadas em modelos lineares e funcionalistas, mostram-se insuficientes para compreender a complexidade de um ecossistema marcado por disputas de poder, performatividade e controle. O verdadeiro desafio não é apenas atualizar conceitos, mas construir uma ecologia de saberes comunicacionais capaz de sustentar a diferença, o dissenso e a coexistência como fundamentos do comum.
A trajetória das teorias da comunicação reflete as mutações históricas do próprio campo midiático. No século XX, o modelo matemático de Shannon e Weaver e a fórmula de Lasswell inauguraram um paradigma tecnicista, centrado na transmissão eficiente da informação. Embora fundamentais para a institucionalização científica da área, essas abordagens reduziram o fenômeno comunicacional à sua dimensão instrumental, ignorando aspectos culturais e políticos. A Escola de Frankfurt, com Adorno e Horkheimer, introduziu uma inflexão crítica ao denunciar a indústria cultural como instrumento de alienação ideológica. Já os Estudos Culturais Britânicos, especialmente com Stuart Hall, deslocaram o foco dos meios para as mediações e recepções, reconhecendo a comunicação como espaço de negociação e resistência simbólica. McLuhan, por sua vez, compreendeu os meios como extensões sensoriais do humano, antecipando a ecologia midiática que hoje experimentamos.
Na virada digital, autores como Castells, Jenkins e Van Dijck analisaram a constituição da sociedade em rede, da cultura da convergência e da conectividade, apontando para uma comunicação participativa e rizomática. Contudo, a promessa de democratização digital foi tensionada pelo capitalismo de plataforma, descrito por Srnicek, e pelo capitalismo de vigilância, analisado por Zuboff. Esses regimes mercantilizam dados, afetos e subjetividades, instaurando novas formas de subordinação. No cenário latino-americano, Martín-Barbero e Canclini aprofundaram a compreensão das mediações culturais e dos hibridismos, enfatizando os vínculos entre comunicação, cultura e poder em contextos periféricos. Surge, assim, a necessidade de uma epistemologia comunicacional que vá além da técnica, incorporando dimensões éticas, ontológicas e decoloniais.
A cultura midiática contemporânea é atravessada por um paradoxo fundamental, pois enquanto expande o acesso e a participação, reforça formas sutis de controle e exclusão. As plataformas digitais, ao operarem sob lógicas algorítmicas, instauram um novo regime de visibilidade que reproduz desigualdades raciais, de gênero e geopolíticas. Essa dinâmica configura o que Quijano denominou colonialidade do poder, agora em sua dimensão digital, uma colonialidade algorítmica. Sob a aparência de neutralidade técnica, os algoritmos classificam, hierarquizam e controlam fluxos informacionais, perpetuando o eurocentrismo epistemológico e cultural. A comunicação deixa de ser apenas um campo técnico ou simbólico para se tornar um campo político, em que as infraestruturas digitais moldam a própria possibilidade de expressão e reconhecimento.
Nesse contexto, a crítica heideggeriana da técnica, como fazem Gestell (enquadramento) e Bestand (reserva) revela-se novamente atual. A racionalidade tecnológica contemporânea transforma a vida em dado e o Ser em recurso. Porém, como observou Heidegger, no perigo habita o que salva, e é na própria técnica que se pode reencontrar o potencial da diferença. Essa abertura é aprofundada por Yuk Hui, que propõe os conceitos de cosmotécnica e tecnodiversidade, entendendo a técnica como expressão cultural situada e não universal. Cusicanqui, por sua vez, formula o conceito de ch’ixi, a coexistência conflitiva entre racionalidades distintas, enquanto Mouffe defende o agonismo democrático como reconhecimento produtivo do dissenso. Essas perspectivas convergem na proposta de uma ecologia de saberes comunicacionais, na qual a comunicação é compreendida como campo de tradução agonística entre epistemes diversas.
As epistemologias críticas e decoloniais emergem como instrumentos teóricos indispensáveis para desestabilizar as hierarquias de saber e poder que estruturam o campo comunicacional. Walsh, Lugones e Gonzalez propõem uma reconfiguração epistêmica que desloca o centro do conhecimento das matrizes eurocêntricas para perspectivas plurais, situadas e insurgentes. Essas abordagens possibilitam compreender a comunicação como prática social atravessada por relações de raça, gênero, classe e território, nas quais o discurso midiático participa da manutenção, mas também da contestação, das hegemonias simbólicas. A crítica de bell hooks ao olhar dominante reforça essa leitura, apontando que as representações midiáticas hegemônicas perpetuam exclusões e hierarquias.
Ao articular essas contribuições com as noções de mediação cultural, torna-se possível reconhecer que os sujeitos periféricos e subalternizados não são meros receptores passivos, mas agentes de resistência e reinterpretação. Suas práticas comunicacionais, manifestas em coletivos digitais, movimentos sociais e produções culturais híbridas, configuram formas de reapropriação tecnológica que desafiam a lógica hegemônica das plataformas. Ao reconfigurarem os signos da cultura dominante e criarem espaços alternativos de visibilidade, esses sujeitos produzem o que Santos denomina epistemologias do Sul, modos de conhecimento que resistem à monocultura do saber ocidental e afirmam outras racionalidades comunicativas e estéticas.
A contemporaneidade comunicacional, marcada por uma contradição constitutiva, substituiu a promessa de pluralidade pela padronização algorítmica que governa a atenção e o desejo. Contra essa monocultura cognitiva, pensadores como Glissant propõem uma poética da relação, na qual o saber nasce do contato e da opacidade, o direito de não ser totalmente traduzido. Essa ética da diferença ecoa nas epistemologias decoloniais, feministas e pós-humanistas, que reivindicam um conhecimento situado, relacional e mais-que-humano. Debray, ao formular a noção de mediologia, reforça a importância da mediação como estrutura simbólica da cultura, opondo-se à instantaneidade e à superficialidade das redes. Em diálogo com Glissant, Hui e Cusicanqui, reintroduz-se a dimensão histórica e cultural da transmissão, essencial para uma comunicação que sustente a diferença e a memória.
O jornalismo, nesse cenário, enfrenta desafios inéditos. A circulação massiva de desinformação, as deepfakes e a pós-verdade colocam em xeque os princípios éticos que tradicionalmente fundamentaram a profissão. Se Kovach e Rosenstiel reafirmam a importância do jornalismo como pilar da democracia, é preciso reconhecer que esse ideal é tensionado pelas pressões econômicas das plataformas e pela fragmentação da esfera pública. A análise de Van Dijck sobre a cultura da conectividade revela como algoritmos filtram e hierarquizam conteúdos, criando assimetrias de visibilidade que afetam diretamente o debate público. Habermas pensou a esfera pública como espaço de deliberação racional, mas esse modelo é desafiado pela desordem informacional, pela polarização discursiva e pela emergência de novas formas de jornalismo cidadão e ativismo digital.
Dessa confluência entre teorias críticas, decoloniais e pós-humanistas emerge a noção de heterogênese epistêmica, a produção de saber por fricção entre mundos, e não por síntese totalizante. A comunicação, nesse horizonte, é ecologia viva de traduções, tensões e resistências, onde o conflito é condição do comum. Compreender as mediações comunicacionais permite perceber que os processos de recepção, apropriação e reinterpretação simbólica não se reduzem à lógica técnica, mas são atravessados por contextos sociais, afetivos e políticos. Nesse sentido, a cultura digital não deve ser concebida como um campo homogêneo, mas como espaço de negociação contínua entre poder e resistência, no qual a hegemonia é constantemente tensionada por práticas de reexistência.
A superação da crise comunicacional contemporânea requer deslocar o foco da transmissão para a coexistência relacional, da técnica como dominação para a técnica como cuidado. Assim, compreender as teorias da comunicação à luz da cultura midiática contemporânea implica assumir que o verdadeiro desafio não é tecnológico, mas ético e epistêmico. É necessário construir uma ecologia de saberes comunicacionais capaz de sustentar o dissenso, a diferença e a coexistência como fundamentos do comum. A democratização das mídias e das tecnologias depende, fundamentalmente, da pluralização dos saberes e do fortalecimento de uma ecologia comunicacional orientada pela justiça cognitiva, pela diversidade cultural e pela emancipação coletiva.
As teorias da comunicação, quando atravessadas por epistemologias críticas e decoloniais, revelam que comunicar é mais do que informar, é negociar mundos, é produzir coexistência. A comunicação torna-se o território privilegiado onde se decide o futuro do conhecimento e da democracia, se permanecerá capturada pela lógica do controle ou se transformará em espaço de pluralidade e justiça cognitiva. Mesmo em meio à colonização algorítmica e à padronização cultural, persistem formas criativas de insurgência simbólica e epistemológica, nas quais o ato de comunicar se converte em gesto político e emancipador, reafirmando a comunicação como campo de produção de sentido, justiça cognitiva e transformação social.
***
Ramsés Albertoni é Professor de Artes, Pós-doutorando em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador dos Grupos de Pesquisa Arte & Democracia e Comcime.
