Quinta-feira, 16 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1384

Visibilidade feminina: entre homenagem e esquecimento

Imagem de Ada King, Condessa de Lovelace, 1838. Por Science & Society Picture Library_Www.fathom.com_ (https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3AAda_lovelace.jpg)

No Dia Internacional da Mulher, multiplicam-se homenagens a figuras que contribuíram decisivamente para áreas como política, artes, ciência, tecnologia, esportes e direitos sociais. A imprensa costuma resgatar nomes em reportagens especiais, listas comemorativas e conteúdos retrospectivos. Fora dessas datas simbólicas, porém, esse reconhecimento tende a desaparecer do noticiário e do debate público.

No campo da tecnologia e da programação, esse padrão se repete. Ada Lovelace, frequentemente apresentada como a primeira programadora da história, é um exemplo recorrente desse tratamento episódico. No século XIX, ao trabalhar com a máquina analítica de Charles Babbage, Lovelace não apenas desenvolveu algoritmos, como antecipou princípios centrais da computação moderna ao perceber que máquinas poderiam operar não apenas com números, mas também com símbolos e linguagem.

Apesar da relevância de sua contribuição, Lovelace costuma aparecer na cobertura midiática como curiosidade histórica ou exceção feminina em um território associado ao gênero masculino. Esse enquadramento não é neutro. Ele se repete em reportagens, materiais educativos e narrativas jornalísticas que sugerem que a presença feminina na produção científica e tecnológica é episódica, e não estrutural.

O resultado é uma memória seletiva, sustentada por uma lógica editorial que privilegia datas comemorativas e não a contextualização histórica contínua. Quando a imprensa limita o reconhecimento de cientistas a homenagens pontuais, deixa de evidenciar a continuidade real da produção científica feminina, inclusive pesquisadoras contemporâneas, cujos trabalhos avançam silenciosamente em laboratórios, universidades e centros de pesquisa, mas não recebem o mesmo espaço midiático concedido a figuras de visibilidade digital.

Exemplos atuais reforçam esse contraste. A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordena estudos sobre regeneração neural com uma proteína experimental capaz de estimular a reconexão de neurônios lesionados, linha investigativa acompanhada com interesse pela comunidade científica por seu potencial impacto no tratamento de lesões medulares.

Esse descompasso revela um problema de critério informacional. Quando a visibilidade midiática passa a refletir alcance de audiência, nomes com grande presença digital, os chamados “influencers”, muitas vezes recebem mais espaço do que cientistas cujas contribuições têm impacto real, mas pouco apelo midiático. O resultado é uma percepção distorcida do que constitui de fato impacto social e intelectual.

Relembrar nomes como o de Ada Lovelace no Dia da Mulher é relevante, mas insuficiente. Mais importante é perguntar por que suas contribuições ainda precisam ser “resgatadas” e qual tem sido o papel da mídia na seleção do que merece memória.

O desafio do jornalismo é ir além das datas comemorativas: integrar mulheres de forma permanente à narrativa pública sobre ciência, cultura e inovação. Só assim será possível construir uma memória mais completa e justa, em que contribuições reais não dependam de modismos ou visibilidade digital passageira.

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Suzy Azevedo é jornalista formada, pós-graduada em Comunicação Informacional e autora de textos reflexivos sobre mídia, comportamento humano e questões sociais. Escreve sobre temas que impactam a forma como as pessoas pensam, se informam e se relacionam com o mundo.