Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

O jornalismo produz algum tipo de conhecimento? A contribuição brasileira

(Foto: StockSnap/Pixabay)

Uma das grandes discussões ainda em aberto na pesquisa acadêmica nas Ciências da Comunicação é entender qual o tipo de conhecimento produzido pela atividade jornalística. A questão não é nova e sinais desse debate remontam ao início do século 20. Em 1910, o jornalista alemão Otto Groth (1875 -1965) empreendeu uma série de estudos na tentativa de criar uma enciclopédia do jornalismo em seis volumes, entre 1910 e 1965, com o objetivo de firmar e reconhecer a “ciência dos jornais”.

Otto Groth seguia os caminhos de Max Weber (18640-1920), que também em 1910 publicou o artigo Sociologia da Imprensa: um programa de pesquisa, [1] no qual Weber salienta a necessidade de se pesquisar os jornais como um fenômeno à luz da Sociologia, que àquela época estava se firmando como disciplina autônoma.

Outra referência é o ensaio “A notícia como conhecimento”, do sociólogo americano Robert Park, pertencente à primeira geração da Escola de Chicago. O texto, publicado em The American Journal of Sociology, em 1940, da Universidade de Chicago (EUA), representa também um marco teórico importante nessa discussão.

A análise de Park é muito referenciada no Brasil, mas quase sempre com o enfoque crítico em que se apontam os limites de sua abordagem tida como “funcionalista”. É quase imperceptível a ênfase que o sociólogo (e antropólogo) dá ao surgimento do repórter como “um dos acontecimentos mais importantes da civilização norte-americana” nos idos dos anos de 1940.

No Brasil, esse debate epistemológico atesta a contribuição de Adelmo Genro Filho (1951-1988). Seu legado, fruto de sua dissertação de mestrado e que deu origem ao livro O Segredo da Pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo, publicado em 1987, foi tema central do encontro, em 2021, da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor).

A singularidade como característica

Genro Filho postula a “singularidade” como uma categoria que caracterizaria o tipo de conhecimento socialmente produzido pela atividade jornalística. Essa noção filosófica é originária de Hegel, no século 19, mas Genro Filho foca nas discussões sobre estética de Georg Lukács (1885-1971) para analisar as categorias “universal’, “particular” e “singular’.

Diferentemente do universal (ligado às ciências) e do particular (associado principalmente às artes), a preocupação com a singularidade dos fatos ou com aquilo que é específico dos acontecimentos sociais, é inerente ao jornalismo, na análise de Genro Filho. A ciência opera com noções lógicas e universais, enquanto no jornalismo o “singular” é, por natureza, efêmero.

O jornalismo narra micro instâncias dos fatos e se refere, na maioria das abordagens, a acontecimentos isolados, sem preocupação de relacioná-los. A imediaticidade do real é um ponto de chegada no jornalismo – e não de partida, como bem percebeu Genro Filho. O jornalismo seria uma História feita de fragmentos de realidade.

A produção jornalística estaria num ponto intermediário entre a ciência e o senso comum. Mas o próprio autor reconhece que isso não resolve o problema. Nem toda linguagem que se valha desse trânsito de saberes pode ser considerada jornalismo.

A contribuição de Adelmo Genro Filho é fundamental nos aspectos teóricos relevantes que apresenta, no diagnóstico-síntese da atividade e, sobretudo, no mapeamento que faz das produções acadêmicas brasileiras até meados da década de 1980, cujos livros fizeram parte da formação de muitos jornalistas.

O problema é que o autor enquadra tudo o que foi produzido até 1986 no que se convencionou chamar de “análise funcionalista” da comunicação social. Segundo as críticas a essa visão, o funcionalismo, grosso modo, enxerga os produtos da comunicação social como necessários às funções e às necessidades das sociedades capitalistas. Estão no alvo de sua crítica ácida José Marques de Melo, Clóvis Rossi, Ciro Marcondes Filho, Cremilda Medina, Nilson Lage, além do norte-americano Robert Park, entre outros.

Os limites do jornalismo como forma de conhecimento

Eduardo Meditsh, contemporâneo de Genro Filho, deu continuidade a esse debate de forma mais equilibrada, delineando os limites do jornalismo dentro das chamadas epistemologias do conhecimento. O pesquisador retoma a ideia singularidade, sem o viés marxista fortemente presente em O Segredo da Pirâmide.

Em O Conhecimento do Jornalismo, publicado em 1992, Meditsh centra-se nas ideias de Genro Filho, mas sua contribuição ganha corpo anos depois com inclusão de autores fora da área de comunicação. A interrogação deste artigo faz uma alusão direta a Meditsch [2] que responde ao problema com uma afirmação. Sim, o jornalismo produz um tipo específico de conhecimento, mas existem problemas e limites quando comparamos a atividade com outras áreas do saber. O foco dos seus estudos, contudo, muda para discutir o que é de fato conhecimento. É somente aquilo validado pelas ciências? Um consenso parece nortear as discussões até aqui. Definitivamente jornalismo não faz ciência, mas promove outras formas de saberes.

Críticas mais contundentes, mapeadas pelo pesquisador, destacam que a prática jornalística pode não somente reproduzir outros saberes como também degradar o conhecimento científico sobretudo porque o método empregado pelo jornalismo é frágil e sem rigor.

Muniz Sodré, no livro A Ciência do Comum, pontua uma certa fragilidade das pesquisas em comunicação social. Ao analisar o desenvolvimento dos estudos das chamadas Ciências da Comunicação, Sodré reforça que é fraca a vertebração conceitual dos estudos nessa área, apesar de reconhecer o avanço nesse campo.

Jornalismo se define por uma ética, e não por uma técnica 

Meditsch salienta, contudo, entre outras abordagens, que o jornalismo não revela mal nem revela menos a realidade do que a ciência, mas opera isso de forma diferente. A atividade pode mostrar inclusive aspectos da realidade que os outros modos de conhecimento não são capazes de revelar, sobretudo, porque a singularidade não interessa à ciência.

A falta de transparência dos condicionantes da produção jornalística, a velocidade da produção e a espetacularização ao narrar os acontecimentos, na busca por mais público, estariam entre os fatores problemáticos no jornalismo como produtor de conhecimento, segundo Meditsch.

Em raras situações, o leitor será informado sobre os critérios de decisão que nortearam a equipe de jornalistas, bem como não saberá o que foi omitido ou privilegiado na produção de um material.

Na concepção sobre a forma de conhecimento produzida pelo jornalismo, há de considerar de que a profissão não se define por uma técnica – e sim por uma ética. Em Ética e Imprensa, Eugênio Bucci salienta esse aspecto, o de que o jornalismo é uma vitória da ética nas sociedades democráticas.

Bucci reforça essa concepção ao enquadrar o jornalismo como lugar de conflito. Ou seja, “o jornalismo é conflito, e quando não há conflito no jornalismo um alarme deve soar. Aliás a ética só existe porque a comunicação social é lugar de conflito” (BUCCI, 2006, p. 11).

O conhecimento do jornalismo: a contribuição da Antropologia

A concepção do jornalismo como uma modalidade social de conhecimento ganharia mais corpo teórico, com aplicabilidade em reportagens, se o jornalismo mantivesse um diálogo mais consistente com os estudos e métodos antropológicos. A minha pesquisa de doutorado tenta apontar nessa direção.

O conjunto de procedimentos que compõe a etnografia – o método por excelência da antropologia – engloba práticas de observação-experiência que guardam similaridades também com o trabalho de reportagem. As ferramentas que compõem a etnografia são múltiplas e adaptáveis a diferentes circunstâncias de tempo e espaço social, físico ou virtual.

As similaridades entre as duas áreas ocorrem também no campo epistemológico. O debate sobre o valor científico das pesquisas antropológicas está em aberto até hoje. Não há consenso, inclusive, nem se a prática etnográfica pode ser considerada ‘um método’ (PEIRANO, 2014).

Não há uma técnica etnográfica, um modelo a ser seguido, assim como não há uma fórmula para escuta ou escrita etnográfica. Nem tudo que se vê é importante e interessante no trabalho de campo – é preciso haver uma modulação do olhar. E isso varia conforme o cenário, atores e regras para que se possa estabelecer alguns eixos de observação. Excesso de descrição, contudo, não é etnografia.

O jornalismo está excessivamente preso à dimensão discursiva e explora muito pouco uma condição inerente à profissão que é a de colher informações a partir do que se viu, ouviu, experimentou.

O antropólogo brasileiro Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006) ressalta a ação “profundamente empobrecedora” das entrevistas na relação pesquisador/informante (jornalista/fonte). Em muitos contextos, as perguntas feitas de forma burocrática criam um campo ilusório de interação.

Prática muito similar acontece frequentemente no jornalismo. As entrevistas, as formas de captação de dados e as abordagens no jornalismo são muito padronizadas. A instrumentalização de técnicas é a tônica. Aprender a extrair informações a partir da observação-experiência é um terreno movediço, mas igualmente fértil.

O que o saber antropológico ensina é que não existem fórmulas nem receitas para isso. É exatamente o caráter incompleto do trabalho que mantém a força permanente de se estabelecer novas perguntas para o mesmo problema.

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Alex Sander Alcântara é jornalista, doutorando na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). É bolsista CNPq e desenvolve pesquisa sobre as confluências entre jornalismo e antropologia. Faz parte da Comissão Editorial da Revista Ponto Urbe, do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU), da USP.

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Notas

[1]  Publicado na Revista Española de Investigaeiones Sociales – REIS, nº 57/1992, pp. 251-259.

[2] Além do livro que consta na bibliografia, algumas ideias de Eduardo Meditsch que utilizo aqui estão condensadas em artigos e numa conferência proferida em 1997, disponível na biblioteca on-line de Ciências da Comunicação: http://www.bocc.ubi.pt/pag/meditsch-eduardo-jornalismo-conhecimento.pdf

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Referências bibliográficas

BUCCI, Eugênio. Sobre Ética e Imprensa. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

MEDITSCH, Eduardo. O Conhecimento do Jornalismo. Florianópolis, Editora da UFSC, 1992.

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: por uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre, Editora Tchê, 1987.

GROTH, Otto. O poder cultural desconhecido: fundamentos da Ciência dos Jornais. São Paulo, Editora Vozes, 2011.

PARK, Robert. A notícia como forma de conhecimento: um capítulo da sociologia do conhecimento. In: STEINBERG, Charles (Org.) Meios de Comunicação de Massa. 2ª Edição. São Paulo: Cultrix, 1976, p.168- 85.

PEIRANO, Mariza. Etnografia não é método. Porto Alegre, Horizontes Antropológicos, ano 20, n. 42, jul./dez. 2014, p. 377-391.

SODRÉ, Muniz. A Ciência do Comum. Notas para o método comunicacional. Petrópolis (RJ), 2014.

OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. O trabalho do Antropólogo: olhar, ouvir, escrever. Revista De Antropologia, Vol. 39 (1), 1996, p. 13-37.