Wednesday, 10 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

CPI, PMs, reeleição ou golpe

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

A Comissão Parlamentar de Inquérito avança e torna cada vez mais evidente o plano de Bolsonaro com seu gabinete secreto, composto de charlatães, de expor a grande maioria da população brasileira ao contato direto com o coronavírus. Tudo a fim de não paralisar a economia com o confinamento ou o “fique em casa” indicado pela Organização Mundial da Saúde.

Seria o plano da imunização coletiva, pela qual as pessoas, sem utilizarem máscaras nem álcool, iriam passando umas às outras o vírus. Em pouco tempo, todos os brasileiros teriam pegado a “gripezinha”. Só os mais fracos, os mais velhos e os mais pobres poderiam ter complicações e morrer. Mas, como se dizia, “ninguém morre antes da hora!”.

Além disso, era a solução mais barata e mais econômica. Enquanto os outros países estariam paralisando a economia e gastando os tubos para criarem ou comprarem vacinas, o Brasil promoveria a imunização coletiva com o comércio e indústrias funcionando. Só que, na prática, os hospitais ficaram cheios, não era gripezinha, os membros metidos a sabidos do gabinete secreto eram mais que charlatães, eram idiotas mesmo e, por enquanto, não se sabe ainda quem estaria ganhando comissões com a venda da cloroquina.

Essas revelações da CPI e o meio-milhão de mortos vão contaminar o presidente Bolsonaro e provocar o impeachment? Renan e Azis que perdoem minha incredulidade. E uma prisão do ministro contra o Meio-Ambiente, Ricardo Salles, contrabandista de madeira de lei contaminaria o presidente e seus asseclas?

Pelo jeito não, porque nessa área política talvez funcione a tal da imunização coletiva!

Nesse caso, sem impeachment só restará a possibilidade de uma derrota de Bolsonaro nas eleições. As pesquisas de opinião estão mostrando uma queda da popularidade do presidente e uma vitória de Lula nas próximas eleições. Será que podemos acreditar como vitória certa e segura? O conhecido Frei Beto não tem bola de cristal e nem usa turbante, mas acaba de ter visões inquietantes.

A polarização da campanha eleitoral poderá nos levar de volta a 2018, ressuscitando tudo quanto se dizia sobre Lula e o PT. Até lá o desmatamento da Amazônia já começará a dar lucros aos ruralistas. Os pastos para os rebanhos bovinos e as plantações de soja se transformarão no eldorado prometido por Bolsonaro aos seus fiéis, que esquecerão rapidamente os mais de 700 mil e quase um milhão de mortos causados pelo genocida. Ainda não haverá tempo para se saber ter mudado o clima na região amazônica, com seca e estiagem, e os ruralistas com os evangélicos promoverão churrascos eleitorais em homenagem ao “inmorrível”, ao som de gospels e gritos de Aleluia e Glória a Deus!

Mesmo sem Ricardo Salles, prosseguirá o corte das árvores seculares da Amazônia, com madeira de lei vendida a baixo preço, enriquecendo numerosos madeireiros, pois a atual falta de madeira fará muitos europeus esquecerem seus compromissos com a defesa das florestas. Pelo menos durante alguns anos, haverá necessidade de mão-de-obra para cortar milhões de árvores… se Bolsonaro for reeleito.

E o papel da esquerda e do centro-esquerda contra Bolsonaro? Numa previsão pessimista do clima eleitoral, é provável o uso de violência e ameaças pelos fanáticos bolsonaristas nas cidades pequenas contra quem não quiser votar em Bolsonaro. E aqui surge o projeto de reformulação das polícias militares, cujos comandos deixarão de ser escolhidos pelos governadores e poderão ser submetidos ao comando único do presidente da República.

Sabendo-se que a maioria das polícias militares estaduais já têm representação política e de tendência bolsonarista, no caso de uma próxima aprovação dessa lei, cujo relator é o paulista capitão Augusto, da chamada Bancada da Bala, na Câmara Federal, elas não se submeterão aos governos estaduais. Se aprovada antes das eleições, essa reformulação das PMs poderá levar a um golpe. Se aprovada depois da reeleição de Bolsonaro, ela poderá ser desvirtuada e levada a agir como a Gestapo ou SS do governo alemão nazista, para silenciar a oposição.

Diante desse quadro nada animador, a melhor hipótese seria a das conclusões da CPI levarem a um pedido de impeachment? Sem dúvida, porém, ninguém pode garantir um afastamento sem agitação social como ocorreu no caso de Dilma. A derrota de Trump levou muitos de seus seguidores a invadir o Capitólio, na tentativa frustrada de iniciar um levante social. Ora, Trump foi o modelo para Bolsonaro, cujos fanáticos seguidores, poderão ir mais longe. Não se pode esquecer ter sido facilitada a aquisição de armas, talvez com esse objetivo.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.