Sunday, 03 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

O novo lugar do repórter na cobertura jornalística da covid-19

(Foto: Pixabay)

Crises, quaisquer que sejam, independentemente de sua gênese ou de sua natureza, trazem prejuízos e oportunidades. Pretendo discorrer a respeito destas em detrimento daqueles. Os prejuízos, nós conhecemos. Ainda que você, meu estimado leitor, seja do grupo desacreditado da ciência, as evidências e fatos são inegociáveis: mortes de pessoas acima dos 40 anos, principalmente, mas não apenas. Os jovens, mais resistentes, integram as estatísticas de internação e óbitos durante a atual pandemia da covid-19, em menor proporção, é verdade, mas isso não pode deixar de ser levado em consideração em um momento em que a irresponsabilidade estatal abusa da verborragia e desafia a população a sair de casa, priorizando as relações econômicas.

A discussão parece terminar ao mirarmos o exemplo italiano de incentivo à continuação das atividades profissionais no país, minimizando riscos à saúde pública, o que culminou em um aumento vertiginoso de mortes em decorrência do vírus. Diferentemente da dêitica patronal agonizante, ávida em evitar o esvaziamento de seus bolsos, e que encontra eco no proletariado temeroso por seu futuro e em não poder honrar seus compromissos financeiros, o prejuízo não é maior com o confinamento. Há outras saídas econômicas, como o amparo estatal financiado, por exemplo, pela sobretaxação de fortunas que cresceram exponencialmente com os sucessivos incentivos fiscais. É o momento de retribuir a generosidade.

Em função de dados empíricos e científicos resolverem ligeira e racionalmente a dicotomia pendente à hipótese neoliberal do prejuízo econômico generalizado, apesar de verdades subjetivas e pós-verdades marcarem nossa era, acredito ser mais fértil, neste momento, o debate sobre as oportunidades, como já lhes adiantei. Não me refiro, contudo, ao conceito mais corrente e cristalizado, ligado a uma ideia de autodeterminação liberal como fonte de liberdades individuais. Não se trata de fórmulas de sucesso empreendedoras, nem de ideias de mais assuntos para lives em redes sociais, tão abundantes em tempos de confinamento. O que me interessa é a oportunidade de aprendizado e discussão a respeito de modelos desgastados e contaminados de se fazer jornalismo.

Se, por um lado, há uma emocionante sinergia entre os jornalistas de alguns veículos que pareciam acomodados com um esquema fabril, automatizado e pouco vívido no que tange ao critério noticioso, reativando admiração entre os seus pares de almas mais nobres e críticas, essências do bom jornalismo, por outro há algo neste fazer que não parece ter despertado, ainda motivado por estereótipos. O principal deles: lugar de repórter é na rua. A máxima que rondou gerações em qualquer redação pelo país ainda tem o mesmo peso? As mudanças tecnológicas trouxeram uma nova interface com o mundo. Hoje, é totalmente possível conversar por aplicativos de vídeo ou mensagens com entrevistados, fontes, colegas de redação. As notícias estão nas versões eletrônicas dos jornais, instituições etc. Obviamente, há uma necessidade de manutenção de pessoas estratégicas presencialmente; contudo, produtores, pauteiros, editores e repórteres podem perfeitamente realizar seus trabalhos na maioria das vezes de suas casas, tendo ao seu alcance um telefone, um computador e acesso à internet de boa qualidade. Não se defende, aqui, a interrupção das coberturas, mas, sejamos francos, a maior parte delas hoje em dia se pauta pela internet e raríssimas vezes a esgota ou traz algo novo. Fica, então, a pergunta: por que os meios de comunicação insistem em manter os profissionais na linha de frente, colocando-os em risco de serem contaminados ou transmissores da doença? Reitero: há situações em que isso se faz necessário. Uma coletiva com o presidente da República, ainda que, mesmo essa, pudesse se dar virtualmente com possibilidade de perguntas de forma remota. Para o trabalho rotineiro, contudo, não parece razoável. É o famoso “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. “Não saia de casa…” apesar de nós, jornalistas, sairmos. É irresponsável, por mais cuidados que sejam tomados. A quantidade de equipes presenciais poderia ser muito menor. Dessa maneira, colaboraríamos com a informação (os trabalhos permaneceriam a distância) e daríamos o exemplo para ajudar a achatar a curva de transmissão, que se encontra em estágio comunitário. Todos os esforços deveriam ser válidos até que se encontrasse um remédio, uma vacina, um tratamento ou mesmo informações mais coesas sobre o comportamento do vírus em indivíduos de diversas faixas etárias e em condições distintas de saúde.

Há meios de se fazer um ótimo trabalho remotamente, seja em TV, rádio, jornal ou portais. Não há, contudo, cultura corporativa para tanto. Trabalhar em casa ainda pode parecer um “benefício” ao empregado. Em um momento como esse, deveria ser regra geral. É constrangedor ver repórteres entrevistando pessoas com sintomas. Mesmo as assintomáticas, pois nem todos os indivíduos desenvolvem sinais da doença, apesar de portarem o vírus. O que está em jogo são limites e limiares e a razoabilidade de se manter uma ideia cristalizada de que repórteres sempre devem se arriscar. Em uma situação como essa, estão se arriscando e colocando em risco a saúde de outras pessoas também. É dever das redações discutir alternativas, revezamentos, um jornalismo com menos qualidade técnica, talvez, mas recheado de informações em um formato remoto.

Em seu livro mais recente, A guerra contra o Brasil: como os EUA se uniram a uma organização criminosa para destruir o sonho brasileiro, lançado em março de 2020, Jessé Souza faz uma discussão interessante que pode ser adaptada aqui como forma de incentivo à reflexão. Jessé elenca a distribuição do trabalho em três níveis, a saber: 1) produtores: aqueles que geram conhecimento. Nesta categoria está a ciência; 2) operadores: especialmente os que usam esse conhecimento para fins práticos, como no caso do Direito e da Economia; 3) divulgadores: nós, jornalistas. Apesar de não ser a mais prestigiosa das instâncias, ao não gerar conhecimento ou fatos, a imprensa é a mais visada, por ter a maior capilaridade e servir de porta-voz a interesses que divergem entre si (mesmo se considerarmos aqueles veículos que tentam equilibrar essas forças tensivas). Daí a imensa relevância da mídia e o não menos imenso interesse de aspirantes ao poder em dominá-la. Tomemos mais um ponto relevante discutido pelo autor em outro trecho do livro. Jessé Souza faz um mergulho epistemológico em raízes sociológicas brasileiras e aponta motivos para classes menos favorecidas reproduzirem interesses hegemônicos contrários aos dessas próprias parcelas menos abastadas, numa “adesão popular de setores que não têm nada a ganhar com a mercantilização”. Isso é feito a partir de uma engenhosa observação a respeito de uma construção abstrata, que se origina em uma parcela da ciência comprometida com interesses liberais, o que acabou tendo como pilar a separação, em termos simbólicos, entre Estado e povo, apesar de aquele ser a expressão deste. Impessoal, então, o Estado (e a política) se torna alvo de fúria daqueles que escolhem seus representantes. É a máxima de que todo político é corrupto. Assim, não nos reconhecendo nas nossas próprias escolhas, optamos por uma aproximação afetiva com o mercado, que seria idealizado como a semente de valores democráticos, de autodeterminação e de liberdade. Passamos a odiar a política e os políticos, sem lembrar que foram eleitos por nós, mas não fazemos o mesmo com o mercado, que é o responsável pelo sucesso de uns e o colapso de outros. Passamos a acreditar que a economia é sempre boa para todos, é a máxima cruel de dominação capitalista pela fabricação de consenso. Nesse processo, há gradações – entre elas, o hermetismo econômico, que faz com que as pessoas não entendam o funcionamento da economia, mas sejam favoráveis aos seus processos injustos e de manutenção de posições sociais. “A economia não pode parar.” Todos se beneficiam com uma economia forte? Sem dúvida, mas não na mesma proporção. Uns, muitíssimo mais que outros. Ainda assim, tomamos como nosso o discurso do mercado. Com o jornalismo não é diferente: impera a ideia de que jornalistas não podem se afastar dos seus postos presenciais nem mesmo em situações de pandemia mundial por ser um mercado que não dorme, que não se desconecta.

Sem proselitismo ou uso de camada pátina que ensejem efeitos de sentido discursivo por parte dos veículos de comunicação, à exceção de profissionais acima de 60 anos – afastados por iniciativa das corporações, é verdade, que sejam registrados tais atos louváveis ,- entre os jornalistas com menos de 45 anos, os poucos de que tenho notícia que estão trabalhando remotamente o fazem a pedido próprio, não sem enfrentar dificuldades diante de seus superiores para manter tal condição. Em face disso, deixo-lhes uma reflexão: algum, entre os integrantes de nossa categoria, faria um trabalho pior ou menos dedicado, com menos rigor apurativo, por estar laborando a distância? O jornalismo de dados, por exemplo, que se baseia em consulta de redes de informações e cruzamento de variáveis que podem apontar tendências, mostrar incidências, constatar irregularidades contábeis, dentre várias outras possibilidades, feito majoritariamente por meio de pesquisas online (pelo menos para a construção da coluna vertebral da pauta), seria menos nobre do que uma entrevista presencial sobre tema qualquer? Realmente acreditamos nisso ou assumimos para nós uma narrativa que não devia nos pertencer? O melhor jornalismo é sempre aquele feito no front, mesmo acarretando riscos ao profissional e ao restante da população, ou a atividade responsável, que pensa não apenas nas breaking news, mas na coletividade? É o momento de refletir sobre nossas práticas e responsabilidades, que estão além da notícia.

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Fernando Moreira é jornalista. Trabalhou por quase vinte anos como repórter e apresentador nas principais emissoras de TV do país. Pós-graduado em Relações Internacionais, possui MBA em Finanças e atualmente é mestrando em Semiótica e Linguística Geral na Universidade de São Paulo (USP).