Thursday, 07 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

Demissão para o pastor-ministro é o mínimo

(Foto: Pixabay)

A criação pelo ministro Milton Ribeiro de um gabinete paralelo ou de um lobby constituído por dois pastores, dentro do Ministério da Educação, para facilitar a certos prefeitos o recebimento de verbas para obras públicas, escolas, mas também construção de igrejas, é um tipo de corrupção que tem o objetivo de reforçar o peso político das igrejas evangélicas, favorecer seus candidatos e influir nas próximas eleições nesses municípios.

Enquanto se aguarda o pronunciamento de Augusto Aras, do Ministério Público, a reação atônita da mídia, desde a revelação dessa licitação de recursos públicos controlada pelos evangélicos feita pela Folha de S.Paulo, vai no sentido de terem sido cometidos diversos crimes, como o de responsabilidade, improbidade administrativa e do tráfico de influência, razão pela qual o ministro da Educação Milton Ribeiro deveria ser demitido sem delongas ou se demitir, sujeitando-se depois aos devidos processos.

A questão vai mais longe porque envolve também o presidente Jair Bolsonaro; segundo a gravação da reunião do ministro Milton Ribeiro com prefeitos e com seus dois indevidos auxiliares, a criação desse gabinete paralelo, com os pastores Gilmar Silva Santos e Arilton Moura, da denominação evangélica Assembleia de Deus, foi feita a pedido do presidente. 

Os dois pastores, usados por Milton Ribeiro para distribuir verbas públicas a “irmãos” (no jargão evangélico) ou amigos, não têm nenhum cargo por eleição ou por nomeação. Mesmo assim, gozam de livre acesso dentro do Ministério, viajam grátis em aviões da FAB, reúnem-se em nome do Ministério com prefeitos e empresários e já participaram de 22 reuniões oficiais do Ministério da Educação. 

Evangélicos querem converter o Brasil

Existe um plano paralelo dos evangélicos para “converter” o Brasil, considerado por eles país pagão e católico idolatra, acabar com o Estado laico e instalar um regime teocrático religioso fundamentalista, baseado na Bíblia? Pode parecer absurdo, um contrassenso cultural e mesmo político, mas existe. Porém, não é tão simples: existem os fiéis seguidores convencidos de ser preciso salvar sua alma e o povo do pecado, mas existem os aproveitadores interessados em se beneficiar, em tirar proveito próprio da crença ou do fanatismo. 

Houve um retrocesso no protestantismo brasileiro. A falha básica original viria da má formação acadêmica e teológica dos chamados pastores das denominações tradicionais, como presbiterianos, metodistas e batistas. Em consequência, ocorreu um distanciamento do protestantismo europeu, mais intelectualizado e crítico das chamadas Sagradas Escrituras, e uma aproximação do protestantismo norte americano, cujo pragmatismo leva à aceitação literal dos textos bíblicos. 

Não se pode perder de vista a importância da Reforma ao defender a livre interpretação da Bíblia, a ruptura com o monopólio católico do cristianismo, no desenvolvimento do livre pensamento, da liberdade e da democracia. Porém, nem todo cristianismo permaneceu fiel ao espírito original da Reforma. Ao se distanciar da Reforma, o protestantismo brasileiro se tornou conservador, reacionário e intolerante. 

O marco dessa transformação foram os anos das agitações sociais, levando as principais denominações por medo do socialismo e comunismo a se unirem aos militares no golpe militar de 64. Essa situação não mudou até hoje, ao contrário, se agravou.

Paralelamente, dentro da evolução do protestantismo praticado nos EUA, mais a falta de uma boa formação básica leiga, de uma cultura geral, de um conhecimento atualizado do mundo fora das igrejas, incluindo informações e comunicações, os chamados pastores das denominações evangélicas mais populares, incluindo-se assembleias de Deus e pentecostais derivaram para o espiritualismo e fanatismo. 

Ao mesmo tempo, cresceu o número de pessoas crédulas em busca da proteção divina, presas fáceis de pastores sem nenhuma formação teológica, vendedores ambulantes da palavra de Deus, uns sinceros, chamados de fanáticos, e outros mercadores da fé.

Foi nesse quadro que o protestantismo, nas suas duas versões, original e popular, viu no candidato Messias Bolsonaro a oportunidade de unir o fervor religioso ao fervor político. Aproveitando a onda do combate à corrupção veiculada pela direita, as lideranças protestantes unidas com as lideranças conservadoras evangélicas firmaram acordos, usaram seus templos e suas tendas para impedir o retorno do petismo e da esquerda ao poder. 

No petismo e na esquerda há também cristãos, mas cristãos preocupados com o Evangelho social, defesa do meio-ambiente, defesa das terras indígenas, contra a homofobia, contra o racismo, pela liberdade sexual das mulheres e pelo aborto. 

A fidelidade do evangelismo protestante ao candidato, cujo programa e campanha do ódio baseada em fake news nada tinha de cristão evangélico, não foi apenas nas eleições. Em retribuição aos cargos e mesmo ministérios dados aos evangélicos, coisa nunca antes ocorrida, seus líderes têm apoiado todos os absurdos ditos e feitos pelo presidente, ao qual designam como escolhido por Deus, nos cultos nas igrejas, que se transformam em usinas de cabos eleitorais. 

Sete desses pastores estiveram nas manifestações do 7 de Setembro, participando de maneira nada evangélica das ameaças ao Supremo Tribunal Federal e ao ministro Alexandre de Moraes. Os pastores Silas Malafaia e Cláudio Duarte apoiavam ostensivamente um golpe. Faltou apenas lembrar que o poder corrompe, mas isso fica para um outro artigo.

Milton Ribeiro e suas declarações

Logo depois da posse do pastor Milton Ribeiro como ministro da Educação, publicamos um longo texto aqui no Observatório – “Não, Milton Ribeiro, você não é Dietrich Bonhoeffer” – mostrando que, apesar da semelhança física, Milton Ribeiro nada tinha de parecido com o herói alemão assassinado pelos nazistas. A principal prova era ter apoiado e ajudado a eleger um presidente de extrema-direita.

“O culto às armas, as declarações de que bastariam serem mortos uns 30 mil, a linguagem violenta e suja, as referências à uma política indígena contrária às reservas, a destruição da Amazônia, os gracejos racistas contra os negros, a posição agressiva contra os homossexuais, além das denúncias veiculadas na imprensa sobre as tendências nazifascistas do candidato não foram obstáculos ao apoio do pastor Milton Ribeiro a Jair Bolsonaro”.

Foi um texto premonitório porque o ministro tem um plano de reforma do ensino que, sem dúvida, irá alterar para pior o existente. Uma de suas últimas declarações foi a de que universidade não é para todos, mas para poucos, e todo mundo sabe que seu modelo é a universidade paga e privatizada. Homofóbico, responsabilizou famílias desajustadas pela criação de gays. 

Milton Ribeiro tem consciência da importância dos 30% de evangélicos para o presidente se reeleger e, no atual escândalo, se prestou a criar um lobby para favorecer o voto evangélico pela concessão de verbas públicas. Uma influência ilegal junto aos eleitores para ajudar a reeleger Bolsonaro; ao mesmo tempo, as verbas são um poderoso argumento para obter mais conversões de pessoas pobres e influenciáveis aos evangélicos. 

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.