Thursday, 18 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

A súbita mudança de “humor” da mídia no pós-7 de setembro

No dia 7 de setembro o chefe do Poder Executivo do alto de um carro de som, na Avenida Paulista (São Paulo) e microfone na mão, anuncia um crime de responsabilidade para uma multidão, chama um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) de “canalha” e faz afirmações incendiárias de que não irá mais cumprir as determinações do STF. Precisamente dois dias após tais declarações, o ex-presidente Michel Temer é chamado às pressas para auxiliar a “pacificar” a situação. Segundo algumas manchetes, o mercado até melhorou o humor depois da nota redigida por Temer e que alguns veículos insistem em chamar de “carta de recuo”.

Para o Valor Econômico, Bolsonaro “recua e o mercado melhora o humor”; no Estadão a manchete enfatiza o “recuo” e faz questão de complementar que Bolsonaro “elogia” o ministro Alexandre de Moraes. O Globo diz que ele está isolado e por isso procura Temer; já a Folha de S.Paulo publica o óbvio: que o presidente está sob pressão.

Manchetes de quatro jornais de grande circulação nacional pós-7 de setembro enfatizam o suposto “recuo” de Bolsonaro. (Crédito: montagem elaborada pela autora)

Ao acreditar na conversão do presidente à moderação, a imprensa contemporiza com o governo do negacionismo e do culto à violência e ódio, se apequena e fica aprisionada às mentiras dos governantes, além disso, mais uma vez chancela as tentativas de golpismo. As manchetes usadas por meios de comunicação amplificam uma retórica estrategicamente pensada e revelam como a imprensa pode fragilizar a democracia, neste caso servindo de “palanque” para a estratégia de um governo de extrema-direita cuja ação é nitidamente antidemocrática.

No livro Antifrágil – Coisas que se beneficiam com o caos, Nassim Nicholas Taleb escreve sobre algumas coisas [e pessoas] que se beneficiam com o caos e prosperam com os impactos quando expostas à volatilidade, à desordem e o estresse, e adoram o risco; significa o oposto exato de frágil — o que ele chama de “antifrágil”. Para o autor, o antifrágil fica cada vez melhor e sente amor pelos erros. “A antifragilidade tem um atributo singular de nos tornar aptos a lidar com o desconhecido, de fazer as coisas sem compreendê-las — e fazê-las bem.” (p. 10). Isso nos leva a considerar a antifragilidade do governo de Bolsonaro, ele é muito mais eficiente agindo do que pensando e demonstra amor por seus erros.

Para Taleb, toda e qualquer coisa que apresenta mais vantagens do que desvantagens a partir de eventos aleatórios que geram impacto e promovem o caos é antifrágil: o inverso é frágil. O governo atual é antifrágil e fragiliza o campo democrático inclusive a imprensa, que compra seu discurso de pacificação.

Apesar da imprensa, independentemente do veículo e graças a autonomia de uns poucos, o bom jornalismo ainda resiste. Nesse caso, Renata Lo Prete apresentadora do Jornal da Globo, não minimiza as atitudes do presidente, aos 09’ 44’ é incisiva: “o presidente Bolsonaro não recuou nem se comprometeu com nenhum tipo de moderação, isso não existe com ele”.

A despeito da organização de notícias na qual estão vinculados, a performance transparente de jornalistas pode salvar (ou não) muitos veículos da indiferença do público às notícias. Posto isso, o argumento central deste texto refere-se a um novo contexto de crise que se avizinha à prática jornalística tornando-a mais desafiante: a indiferença, que contribui ainda mais para o declínio da confiança no jornalismo.

O jornalismo profissional enfrenta, nos últimos anos, uma crise de credibilidade, mas a indiferença dos públicos às notícias pode ser a nova crise que o jornalismo tem a enfrentar. Os dados são do relatório publicado pelo Reuters Institute, na última sexta-feira (9).

Em quatro países analisados (Brasil, Índia, Reino Unido e Estados Unidos) raramente o público interage com o jornalismo, não conhece as terminologias, a maioria não sabe a diferença entre um editorial e uma notícia, ou entre uma notícia e um comunicado à imprensa. Muito dos problemas do jornalismo contemporâneo se deve à sua incapacidade de fazer o público em geral compreender o que está dizendo e por quê. Há uma notável crise de relacionamento do jornalismo com os seus públicos, como indicam pesquisas recentes.

Parte disso é uma questão de adquirir novos hábitos, mas também pode representar os efeitos de uma profissão que transmitiu uma visão arrogante e opaca de suas práticas, insiste nos mesmos erros e transfere culpas: para os ataques do presidente, as redes sociais e até mesmo a polarização política. De acordo com diversos pesquisadores, o jornalismo se fechou ao exterior numa fortaleza de caixa preta chamada “redação” — isso inclui todos os públicos aos quais deveria servir e prestar contas: audiência, assinantes, anunciantes, fontes, stakeholders etc.

A pesquisadora Jane Singer considera que a mídia de notícias está entre as indústrias mais opacas e os jornalistas são pouco interessados em mostrar às pessoas como fazem o seu trabalho. No contexto atual, de desconfiança em massa e ataques às instituições, tratar qualquer campo de atuação como uma caixa fechada intransparente quanto ao seu funcionamento e procedimentos bem como motivações e decisões é desaconselhável — o clamor que se ergue é por transparência para conquistar confiança e reforçar a credibilidade.

Michael Karlsson, pesquisador sueco sobre a transparência no jornalismo, em seu livro recentemente publicado observa uma relação conflitante entre jornalismo e públicos, cada vez mais em declínio sob três aspectos: um consumo precário e reduzido de notícias atingindo em cheio as receitas e a taxa de publicidade; a desconfiança generalizada do público nas instituições acentuam a queda de credibilidade, configurando uma crise de legitimidade inclusive do jornalismo como uma instituição social; e um terceiro aspecto refere-se à norma da objetividade, um pilar que sustenta a prática jornalística há décadas, mas que precisa ser substituída ou complementada por uma opção melhor — e sinaliza para a urgência da transparência.

Para Karlsson (2021), um jornalismo de transparência é conduzido de forma diferente de um jornalismo não transparente, requer desempenhos visíveis que devem ser abertos, não uma mera informação a ser enviada de A para B. Implica mudança no jeito de fazer as coisas, a começar tornando públicas informações e práticas ocultas por muito tempo.

No Brasil, o Projeto Credibilidade opera por meio de um Sistema de Indicadores de Credibilidade para implementar padrões de transparência nas organizações noticiosas comprometidas com suas diretrizes. Atualmente seis veículos adotam, em parte, suas recomendações: Folha de S.Paulo, Poder 360, O Povo, Nexo, Agência Mural e Agência Lupa. Outros veículos ainda estão adequando princípios e práticas às suas diretrizes.

O Credibilidade integra o Trust Project — consórcio internacional com mais de 200 organizações de notícias que colaboram para criar padrões de transparência a fim de tornar a imprensa mais confiável. Dirigido pela jornalista Sally Lehrman, foi sediado no Centro Markkula para Ética Aplicada da Universidade Santa Clara, no Vale do Silício,

Há diferenças importantes para organizações noticiosas que se dedicam à transparência sobretudo a interação com o público. Sob esse aspecto, é preocupante observar na mídia de notícias brasileira a falta de comprometimento com a solidificação da transparência e com os públicos e, nesse sentido, a transparência precisa ultrapassar a abstração para uma conformidade compartilhada para a coletividade.

Assim, culpar Bolsonaro, as redes sociais ou a polarização política pela crise que se instalou no jornalismo chega a ser irresponsável de nossa parte. Na ausência de transparência associada a explicações claras de como o jornalismo acontece, a confiança e o interesse inevitavelmente diminuirá. Se o jornalismo pretende cumprir seu papel como instituição que contribui para a defesa permanente de uma sociedade democrática, precisa se dedicar integralmente à transparência como um instrumento para desempenhos futuros, antes que o próximo 7 de setembro seja pior.

Texto publicado originalmente por objETHOS.

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Denise Becker é mestranda do PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS.