Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Caminhoneiros tentam poupar diesel usando a inútil e perigosa banguela

(Foto: Quintin Gellar/Pexels)

Antigas práticas estão sendo ressuscitadas nas estradas para sobreviver com o diesel custando mais caro que a gasolina.

Alguns dias depois do último aumento de 14,26% no preço do diesel pela Petrobras liguei para um amigo dos tempos de infância que é caminhoneiro autônomo e perguntei como estava economizando o combustível. Ele respondeu: “Andando muito na banguela”. Para esclarecer. A “banguela” é um recurso em que, ao iniciar a descida de uma ladeira íngreme, o motorista coloca o câmbio em “ponto morto”, ou neutro, e deixa o veículo correr solto. O meu amigo tem um caminhão truck – aquele com dois eixos atrás – e transporta carga pelos estados do Sul do Brasil. Na conversa que tive com ele lembrei-me de um conselho que recebi logo que comecei a trabalhar em redação, em 1979, de um dos motoristas do jornal. “Numa descida, nunca ultrapasse um caminhão na banguela, ele não tem como parar”, aconselhou. Não tem mesmo.

Não existe sistema de freios que pare um truck (carga e caminhão são 25 mil quilos) ou uma carreta (carga e veículo somam 70 mil quilos) correndo livre morro abaixo. Por ter focado a minha carreira de repórter em conflitos agrários, migrações e crime organizado na fronteira passei uma parte dos 30 e poucos anos que trabalhei em redação viajando pelas estradas do interior do Brasil. E sempre que um motorista do jornal ultrapassava um caminhão na descida, eu dava um discurso. Reforcei a minha crença de não ultrapassar caminhão na banguela em 2008, quando fiz para Zero Hora uma série de reportagens chamada Camicases do Asfalto. Durante 10 dias viajei com o caminhoneiro de um truck que a cada quatro horas tomava um rebite (anfetamina) para conseguir dirigir 24 horas sem dormir.

Dos tempos que trabalhei em redação (1979 a 2014) fiz muitas fontes pelas estradas do Brasil e de alguns países da América do Sul. Depois da conversa com o meu amigo liguei para eles para saber a história da banguela. Disseram que realmente estava sendo usada. A bem da verdade, nunca deixou de ser usada. Mas agora há um exagero, porque existe a crença entre os caminhoneiros, principalmente os mais velhos, de que deixar o caminhão correr livremente ladeira abaixo poupa diesel. É ilusão. Lembro que na crise do petróleo que aconteceu nos anos 70 o governo federal fez uma campanha demonstrando para os caminhoneiros que a banguela na verdade aumentava o gasto de combustível. Além de aumentar o gasto é perigoso para a segurança do trânsito, tanto é considerada uma infração média que dá quatro pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

E a legislação brasileira exige o uso de tacógrafo – equipamento que registra a velocidade – em veículos que transportam mais 4.536 quilos de carga. Os registros do tacógrafo são extremamente úteis quando o veículo se envolve em acidente. Nos caminhões fabricados nos últimos 30 anos, a banguela danifica partes importantes do motor e equipamentos digitais do veículo. Tenho acompanhado tudo que temos publicado – site, vídeo e áudio – sobre o problema do preço do diesel, que pela primeira vez na história recente do Brasil é mais caro que a gasolina. Salta aos olhos a carência de entrevistas com os caminhoneiros nas estradas. Tratei do assunto no post “Jornalistas notaram que os caminhoneiros estão apanhando quietos?”

Por acaso tropecei na história da banguela. Certamente que outras estão acontecendo pelas estradas e nós não sabemos. E sempre que o jornalista não sabe o que está rolando acaba tendo problemas para redigir a matéria. O que acaba prejudicando o leitor. Essa história do preço do diesel está muito longe de ser resolvida. E ninguém sabe como irá terminar. A cada dia acontece uma surpresa. Lembro que quase 82% do transporte de mercadorias no país é feita por caminhões. Há mais um fato para o qual devemos ficar atentos. Não é só o uso da banguela pelos caminhoneiros que coloca em risco a segurança do trânsito nas estradas. Há também o fato de que houve um enorme acréscimo no custo de manutenção dos veículos.

O que isso significa? Que há caminhões transitando com pneus gastos e outros itens de segurança sem manutenção. A questão da falta de manutenção não é exclusividade dos caminhoneiros autônomos. Ela também atinge os veículos das empresas de transporte. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) não tem estrutura para fiscalizar a maioria dos veículos de cargas que transitam pelas rodovias. Já não tinha antes do aumento dos custos. Muito menos agora. As estradas brasileiras sempre foram perigosas, principalmente pela falta de estrutura e o grande volume de veículos. Nos dias atuais a situação piorou muito devido à crise econômica.

Para arrematar a nossa conversa. Ainda não se fez uma reportagem mostrando os efeitos da crise econômica na segurança das estradas. Não me refiro à falta de manutenção do asfalto e de outras estruturas. Me refiro à falta de manutenção nos veículos de carga, passeio e transporte de passageiros. Entendo que os grandes meios de comunicação têm dificuldades econômicas para pagar uma equipe de repórteres para percorrer as estradas levantando os problemas e ouvindo os motoristas.

Mas há outros meios de se fazer essa matéria. Não é exagero afirmar que atualmente a maioria dos caminhoneiros e outros personagens das estradas têm um celular ao alcance de mão. Isso facilita a vida do repórter. Aprendi uma coisa na lida da reportagem. O profissional cresce quando sabe operar em qualquer ambiente e fazer uma matéria recheada de boas informações usando os instrumentos que estão à disposição. Não é fácil. Mas dá para fazer.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.