
(Foto: shutter Rwanda/Pexels)
Celebramos nesta semana, em 28 de setembro, o Dia Mundial do Jornalismo (World News Day). A data oferece uma boa oportunidade para olhar com atenção para como podemos garantir a sustentabilidade do jornalismo em tempos de mudanças radicais no ecossistema da comunicação. E, sobretudo, para a obrigação de explicar melhor às pessoas como funciona nossa atividade, quais são seus métodos profissionais, seus compromissos éticos e por que ela nunca foi tão importante para o aperfeiçoamento da democracia, a garantia de direitos, a justiça social, o diálogo, a necessária coesão social e o desenvolvimento sustentável.
A Associação Nacional de Jornais (ANJ) organiza no Brasil a campanha anual, iniciada em 2018, e desde então trabalha para tornar a data uma mobilização cada vez mais ampla. A proposta reúne empresas e entidades que têm como missão chegar o mais próximo possível da verdade e relatar, investigar, analisar e contextualizar os fatos com objetividade, independência, pluralidade, diversidade de vozes e responsabilidade.
Esse esforço ganha importância em tempos de hiperinformação digital, desinformação, manipulação em massa e polarização política, quando o adversário no campo das ideias deixa de ser alguém com quem se debate e passa a ser tratado como inimigo.
Neste ano, temos quase 150 inscritos no Brasil, crescimento superior a 60% em relação ao ano passado. Mais importantes do que os números são a amplitude e a diversidade dessas adesões. Há jornais nascidos no impresso e hoje presentes em várias plataformas, iniciativas criadas no ambiente digital, veículos de nicho e projetos de jornalismo territorial, hiperlocal, local, regional e nacional. Há emissoras de rádio e televisão, universidades, cooperativas, sindicatos, instituições e organizações com papel relevante para a atividade jornalística e para a participação democrática.
Pode parecer utópico, mas acredito que este seja um dos raros momentos em que vemos, de forma concreta, algo defendido por tantos de nós na busca pela sustentabilidade do jornalismo: uma iniciativa na qual deixamos de lado divergências, diferenças editoriais e modelos para fortalecer algo situado na essência de todos nós, o jornalismo feito com método.
Estamos nos aproximando da terceira década do século XXI diante de desafios que se cruzam. A tecnologia avança numa velocidade difícil de acompanhar. O atual estágio da inteligência artificial, uma tecnologia de quase 70 anos, abre possibilidades extraordinárias e provoca perguntas ainda sem respostas. A democracia enfrenta processos de erosão. Guerras, perseguições, desigualdades, preconceitos e desinformação continuam produzindo vítimas e ameaçando direitos.
A crise ambiental acrescenta urgência a esse cenário. O desenvolvimento sustentável precisa incorporar a preservação e a recuperação dos ecossistemas, a revisão dos padrões de produção e consumo e a transformação do sistema energético.
A humanidade carrega ainda consequências de crimes atravessados por séculos. Durante mais de 400 anos, milhões de africanos foram capturados, escravizados e submetidos a um sistema sustentado pela exploração, violência e desumanização racial. O século XX produziu outros horrores. O Holocausto, com o genocídio de seis milhões de judeus pelo regime nazista e seus colaboradores, permanece como demonstração brutal de onde podem chegar o ódio e a desumanização. O antissemitismo continua existindo e exige enfrentamento.
A mesma defesa da dignidade humana alcança todas as populações. Na Faixa de Gaza, há o massacre de palestinos. No Sudão e em outras regiões da África e da Ásia, guerras, perseguições e violações de direitos seguem produzindo mortes e deslocamentos.
Racismo, misoginia, homofobia, transfobia, LGBTfobia, antissemitismo, islamofobia, intolerância religiosa, machismo, sexismo e outras formas de discriminação continuam produzindo vítimas. O objetivo é retirar do outro a sua humanidade, atribuir a uma população inteira a responsabilidade por problemas complexos, produzir medo e transformar pessoas em inimigos.
Direitos precisam ser conquistados, preservados e ampliados. As próximas gerações provavelmente reconhecerão outros com uma clareza que ainda estamos construindo.
Uma criação humana extraordinária
Vivemos uma transformação profunda do ambiente de informação. O acesso ao conhecimento ganhou velocidade e escala inéditas, assim como a capacidade de produzir e distribuir desinformação. Manipular informações, explorar medos e preconceitos, desqualificar quem pensa diferente e transformar adversários em inimigos passaram a integrar estratégias de disputa por poder. Há avanço de autocracias, enquanto a liberdade de expressão é um dos aspectos mais atingidos pela deterioração democrática.
É nesse ambiente que discutimos inteligência artificial. Há décadas a ficção científica imagina máquinas capazes de substituir pessoas ou se voltar contra seus criadores. A realidade apresenta uma questão mais imediata: a IA é uma criação humana extraordinária, resultado da nossa capacidade de acumular conhecimento, imaginar aquilo que ainda não existe e construir ferramentas capazes de ampliar possibilidades.
Seu potencial exige uma discussão igualmente séria sobre os usos feitos por pessoas, empresas, governos e organizações. A mesma tecnologia pode ampliar conhecimento ou vigiar populações, produzir falsificações, reproduzir preconceitos, manipular o debate público e concentrar riqueza e poder.
Transparência, responsabilidade, proteção de dados, integridade da informação e autoria passam a fazer parte dessa agenda. Reportagem, fotografia, música, livro, filme ou ilustração existem porque alguém trabalhou para produzi-los. A tecnologia pode mudar profundamente a circulação e o uso dessas obras, mas autoria, criatividade e direitos continuam fazendo parte da expressão humana.
Todos esses desafios exigem sociedades capazes de conversar. A democracia vive da possibilidade de discordarmos, convivermos e construirmos consensos mínimos. Para isso, precisa de instituições sólidas, pesos e contrapesos, regras conhecidas, respeito às diferenças, aplicação igualitária das leis, pluralismo e liberdade de expressão.
E o jornalismo no meio disso tudo?
Essa pergunta atravessa os mais de 20 artigos reunidos na campanha do Dia Mundial do Jornalismo de 2026, que podem ser lidos no site da ANJ. São autores, países e experiências diferentes tratando de ameaças à imprensa, direito à compreensão, realidade compartilhada, sustentabilidade das redações, crise climática, liberdade, fatos, contexto, método, resistência à censura, investigação, jornalismo local, educação e integridade da informação.
No Brasil, os textos ampliam a conversa para o jornalismo aprofundado das revistas, a proximidade do rádio e da televisão, a educação midiática e os efeitos da inteligência artificial sobre autoria, criatividade e trabalho jornalístico. Mostram o jornalismo como um bem público. Destacam que informação confiável e baseada em fatos ajuda a fiscalizar o poder e sustenta a participação das pessoas na vida pública. Detalham ainda que a perda de fontes locais de informação produz consequências negativas para as comunidades.
O jornalismo que fui aprendendo
Talvez eu acredite tanto nisso porque comecei a aprender jornalismo muito antes de saber que seria jornalista. Quando ainda aprendia a ler, conversava com meu pai sobre as primeiras páginas de jornais e por que uma notícia estava ali e outra não. Era pequeno e já corria por redações, observava profissionais trabalhando e ouvia conversas que certamente não compreendia por inteiro.
Antes das redações, em um trabalho de faculdade sobre jornalismo popular, estudei como esses veículos conversavam com pessoas afetadas por deficiências de educação, saúde, segurança, emprego, oportunidades e presença do Estado. A pesquisa mostrou uma relação de mão dupla: o jornalismo ajuda o público a compreender a realidade, e um público mais informado passa a exigir mais do jornalismo.
Já exercendo a profissão, um experiente jornalista me ensinou que investigar é procurar, desconfiar, conferir e ir além da versão pronta. Aprendi a não permitir que o medo nos afaste da busca pela verdade. Outro mestre me ensinou algo elementar: o mais importante vai para cima, o menos importante para baixo. Vieram mais lições: uma boa reportagem começa na qualidade das perguntas; a credibilidade é construída todos os dias; cada palavra pede precisão e respeito por quem lê; boa liderança é exercida com generosidade.
Adotei a prática de buscar versões diferentes de forma obstinada e desconfiar das minhas certezas. Aprendi também que a assessoria de imprensa, exercida com ética e rigor, é jornalismo.
Com o tempo, concluí que uma geração transmite à seguinte técnicas, dúvidas, princípios, histórias e erros, cabendo aos mais novos testá-los diante de seu tempo. Coragem e alegria tornaram-se formas de resistência e continuidade no ofício.
Perguntar exige responsabilidade.
Antes de entrevistar um cientista, médico, economista ou qualquer especialista, o repórter precisa estudar. Vai à entrevista para compreender, perguntar e testar aquilo que ouviu, com humildade suficiente para admitir quando não entendeu. Perguntas simples podem abrir caminhos fechados pela certeza. Quanto mais experiência acumulamos, mais evidente fica a dimensão do que ainda precisamos aprender.
Uma reportagem pode revelar corrupção, impedir uma injustiça ou ajudar alguém a conhecer um direito. Também pode destruir uma reputação. Pessoas, redações e máquinas erram. A resposta ao erro faz parte do método do jornalismo: voltar à apuração, reconhecer, corrigir, explicar, aprender e tentar reparar. Sempre com uma luz de emergência acesa: há erros irreparáveis, daí o cuidado obstinado para evitá-los.
Quando defendemos o jornalismo, grandes investigações, guerras, corrupção e fiscalização dos governos costumam ocupar a primeira lembrança. Mas a vida cotidiana também depende de informação: saber se vai chover, por que faltou água, quando o ônibus passa, por que o posto de saúde está sem medicamento, onde há vaga na escola, por que a rua alaga ou o que decidiu a Câmara Municipal.
Aqui reside a importância do jornalismo regional, local, hiperlocal, comunitário e territorial. Ele conhece as comunidades, está na rua, acompanha o poder mais próximo e percebe problemas que dificilmente chegariam a uma redação nacional. Quando uma localidade perde suas fontes de informação, perde também parte da capacidade de conhecer a si própria.
Público crítico
A confiança do público precisa ser conquistada continuamente. Qualidade, independência, correção, diversidade de fontes, transparência e capacidade de reconhecer erros fazem parte dessa relação. Por isso, a educação midiática precisa alcançar escolas, universidades e diferentes áreas de formação. Um futuro médico enfrentará a desinformação sobre vacinas. Um advogado trabalhará com regras que protegem direitos e liberdades. Um profissional de tecnologia tomará decisões sobre dados, algoritmos e inteligência artificial.
Todos ganham quando aprendem a perguntar quem está dizendo algo, de onde veio o dado, qual é a evidência, quais versões foram ouvidas e o que ficou de fora. Um público mais crítico também exige um jornalismo melhor.
Outro ponto preocupante: a tentativa de silenciar a imprensa confirma o incômodo provocado por perguntas e fatos em quem exerce poder. A censura contemporânea aparece em processos e intimações, campanhas coordenadas nas redes, perseguição digital, exposição de familiares e ameaças.
Contra mulheres jornalistas, assume muitas vezes a forma de misoginia e violência sexualizada. Quando alguém é impedido de investigar um tema de interesse público, a sociedade perde uma pergunta feita em seu nome. Os ataques às mulheres jornalistas também procuram limitar a igualdade de gênero e a diversidade necessária ao desenvolvimento social.
Muitos “jornalismos”
A transformação digital mudou o mercado e colocou plataformas e algoritmos entre quem produz informação e quem a recebe. Também atingiu receitas que historicamente financiaram as redações. O futuro comporta muitos modelos: empresas tradicionais, novos empreendimentos, organizações independentes, cooperativas, iniciativas digitais e veículos nacionais, regionais, locais e hiperlocais.
A pluralidade comporta linhas editoriais diferentes. O compromisso profissional comum está na apuração, independência, acesso às diferentes versões, proteção das fontes, correção de erros e responsabilidade sobre o que é informado. Fontes são indispensáveis e têm seus próprios interesses, conhecimentos e limites. Cabe ao profissional ouvir, conferir, buscar documentos, dados e outras versões e manter a independência necessária para chegar às próprias conclusões. Há espaço para muitos jornalismos, desde que se pratique jornalismo com ética e método.
É por tudo isso que a ANJ se envolveu tanto na mobilização deste Dia Mundial do Jornalismo. Preservar a democracia exige que a sociedade consiga compartilhar ao menos uma base factual a partir da qual possa discordar.
Estamos convidados a discutir que sociedade queremos construir, que informação teremos para fazer nossas escolhas e como vamos continuar convivendo apesar das diferenças. O jornalismo pode começar com uma pergunta feita por alguém, numa redação, numa rua ou diante de uma fonte, mas a conversa que ele provoca é muito maior. Ela é de todos nós.
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Hélio Gama Neto é jornalista com quase 40 anos de atuação em imprensa, comunicação institucional e consultoria. Passou por redações como Agência Estado, O Estado de S. Paulo e Gazeta Mercantil, atuou como consultor da Organização Internacional do Trabalho (OIT), coordenador de comunicação da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) do Rio Grande do Sul e coordenador de comunicação e educação ambiental do Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre (DMAE). Liderou projetos editoriais como o jornal OI — em versões impressa, digital e televisiva — e a revista ANÁLI$E, com coberturas voltadas a desenvolvimento sustentável e responsabilidade social da Grande Porto Alegre e do RS. Desde 2015, responde pela comunicação da Associação Nacional de Jornais (ANJ).
