
(Efeito talos: imagem gerada pelo Gemini AI)
Não é de hoje que a imprensa é tida como sendo, nos países republicanos e democráticos, o 4º Poder, uma vez que somente por meio da liberdade de informação é que se pode evitar abusos e desmandos, pois a opinião pública, formada pelos veículos de comunicação de massa, tem impacto direto no resultado das urnas.
Mas o jornalismo investigativo dos órgãos de imprensa profissionais tem sofrido nos últimos anos com o avanço das redes sociais, por meio das quais representantes de todos os Poderes da República se sentem livres para criar suas próprias versões de fatos – as ditas narrativas – e disseminá-las sem nenhuma ou muito pouca consequência e, por vezes, refutando matérias jornalísticas sedimentadas em sérios trabalhos investigativos.
Eis que surge o conceito de 5º Poder, concentrado nas mãos das chamadas Big Techs, grupos transnacionais que agem praticamente sem controle de governos, mas que se valem deles para estender seus tentáculos sobre sociedades inteiras para alavancar agendas privadas.
Neste trabalho veremos os mecanismos e interesses que se ocultam por trás desse fenômeno, valendo-nos de célebres pensadores e de literaturas universais de peso para iluminar e balizar o caminho.
A sentinela digital
Todo sistema maligno ou regime autoritário que se preze – ainda que ostente a máscara da democracia e brade pela liberdade – precisa se apoiar em um exército ou força capaz de impor sua vontade sobre os demais. Mas, nos tempos em que vivemos, esse exército não porta armas e nem age com violência contra as pessoas; ele não precisa disso. Tal como um habilidoso espião, ganha nossa confiança e simpatia, além de parecer nos prestar favores sem os quais os confortos de que gozamos, graças às tecnologias digitais, seriam impossíveis.
Essa Sentinela que nos vigia sem que nos sintamos vigiados reside em cada dispositivo conectado à internet de que fazemos uso em nossas vidas diárias, ocultando-se em aplicativos, muitos deles recreativos e de aparência inocente, mas que detêm a capacidade de capturar mais do que nossa atenção, pois entregamos a eles – e de bom grado – nossos dados pessoais e até biométricos.
Mas se enganam aqueles que acreditam que a ideia de governos de utilizar vigilância automatizada seja nova. O que acontecia antes, é que os meios para tornar isso realidade apenas não existiam ou eram ineficientes, mas a intenção ou o desejo de manter vigilância permanente sobre os cidadãos é, certamente, muito mais antiga, remontando à Grécia antiga, senão, vejamos:
Talo é, essencialmente, o guardião de Creta. Vigilante infatigável, tinha sido escolhido por Minos para esta missão, ou, então, por Zeus, para proteger a filha da sua querida Europa. Todos os dias, armado, dava três voltas a Creta. Impedia os estrangeiros de penetrar na ilha, mas também impedia os habitantes de sair dela sem permissão de Minos (GRIMAL, pág. 426, 2005).
Pois bem, talvez explicar a lenda ajude a entender o nosso raciocínio. Talo ou Talos, na mitologia grega, refere-se a um autômato – que hoje chamaríamos de robô – que teria sido construído por Hefesto (deus da metalurgia, ferreiro dos deuses e mestre de armas) para guardar a ilha de Creta, que era governada pelo rei Minos, a quem a lenda atribui um caráter bastante ambicioso, tendo, após a morte de seu pai, tomado apenas para si o trono, negando-se a governar em conjunto com os seus irmãos, sob o pretexto de que era desejo dos deuses que reinasse sozinho sobre os cretenses.
Mas os fragmentos acima nos mostram que Minos não era preocupado apenas com a defesa de sua ilha, mas que também nutria um forte desejo de controle sobre os seus súditos, tendo incumbido Talos não apenas de proteger Creta de invasores externos, mas também de impedir que os cretenses deixassem a ilha, de modo que podemos depreender que a vida sob seu governo não fosse das mais agradáveis, ou então, qual seria o motivo das pessoas tentarem escapar e também de terem um robô gigante – cerca de trinta metros de altura, segundo a lenda – os vigiando o tempo todo?
Bem, parece que os perfis dos governantes não sofreram grandes avanços e tampouco melhorias desde a Grécia antiga até os dias de hoje. O mesmo, contudo, não pode ser dito dos métodos. Atualmente, não somos guardados, vigiados ou coagidos por mitológicos robôs gigantes, entretanto, o objetivo de controle massivo ainda é o mesmo, e mais facilmente atingido.
O Talos mitológico, além de ter encolhido de tamanho a ponto de caber nos nossos bolsos, também trocou o pesado e amedrontador corpo de bronze por carinhas felizes e muitas comodidades, de modo que o convidamos a entrar e se instalar confortavelmente em nossos lares, sem notarmos que estamos, na verdade, convidando o leão para jantar conosco e sem nos dar conta de que, para ele, o jantar somos nós mesmos.
Para melhor ilustrar essa capacidade de penetração sutil – ou, como se costuma dizer em geopolítica, soft power (poder brando) –, dessas tecnologias, bem como o quão longe poderão chegar, iremos nos socorrer de uma grande obra da ficção científica – ou pelo menos era quando foi escrita – que bem retrata o cenário atual:
Toda a sua “mentalidade” foi construída com esse propósito. Para ele, é impossível não ser fiel, dedicado e gentil. Ele é uma máquina, uma máquina construída assim. É mais do que se pode dizer dos humanos (ASIMOV, pág. 28, 2014).
E como dito:
Agora as Máquinas as entendem, e ninguém pode impedi-las, já que as Máquinas vão lidar com essas forças como estão lidando com a Sociedade… tendo, como de fato têm, a maior das armas à sua disposição: o controle absoluto da nossa economia (ASIMOV, pág. 302, 2014).
Os fragmentos acima foram extraídos da obra intitulada Eu, Robô, publicada em 1950. No primeiro deles, o pai da pequena personagem Glória, tenta convencer a mãe da menina de que o robô-babá, de nome Robbie, que ele adquire para cuidar e entreter a filha do casal, oferecia mais vantagens e segurança do que qualquer humano, já que havia sido construído e instruído para isso, de modo que não poderia se desviar de seus objetivos. Essa passagem é descrita nos momentos iniciais da trama e qualquer semelhança com os dias atuais, nos quais as crianças passam os dias com suas carinhas inocentes enfiadas em telas e interagindo com inteligências artificiais, certamente, não é mera coincidência.
No segundo, por seu turno, já no final da obra, é explicado que, na verdade, a sociedade havia sido enganada, – ou se deixado enganar – pois havia sido levada a acreditar que as máquinas – os Robôs – estavam ao seu serviço com o único propósito de tonar as tarefas diárias menos penosas às pessoas, quando, na verdade, a sociedade nunca havia estado, de fato, no comando dessas tecnologias, que agora, tendo aprendido tudo a nosso respeito e nos menores detalhes, podiam, enfim, revelar seu verdadeiro objetivo: o de nos controlar. E aqui, também, a semelhança com as fortunas acumuladas pelas chamadas Big Techs, com o poder que seus líderes concentraram, chegando a rivalizar com Estados, graças ao uso massivo e irracional que fazemos das tecnologias que elas colocam à nossa disposição. Não existem coincidências, mas agendas privadas sendo cuidadosamente postas em prática em detrimento das sociedades.
Neste ponto convém trazermos à baila uma obra ímpar da literatura ocidental. Trata-se de uma distopia do mais alto nível, escrita de maneira envolvente, conduzindo o leitor a uma reflexão profunda sobre a constituição da sociedade e dos poderes que se ocultam das vistas de todos:
Um estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que o executivo todo-poderoso de chefes políticos e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão (HUXLEY, pág. 6, 1979).
O fragmento acima foi extraído da obra intitulada, com irônica justeza, Admirável Mundo Novo, publicada em 1932 e de autoria do escritor inglês Aldous Huxley (1894 – 1963). O autor, com muita habilidade e afiado raciocínio, apresenta-nos o conceito de servidão voluntária, ou amor à servidão, sentimento comum em uma sociedade composta por indivíduos em perpétuo torpor induzido por sentimentos de satisfação e felicidade artificialmente causados e premeditados por um regime ou governo que assim os mantém, para que jamais se rebelem contra seus desmandos.
Dito isso, apesar de não ser o foco deste modesto trabalho, convém esclarecer que toda essa tecnologia digital que facilita nossas vidas, ao mesmo tempo em que nos mantém pobremente entorpecidos por nossas próprias vaidades, constitui apenas a face pública do que é, de fato, a internet. E não, ela não nasceu de mentes geniais que abandonaram as faculdades para empreender nas garagens de suas casas, retirando de suas mágicas cartolas os primeiros computadores pessoais como se fosse mágica. Não foi assim que aconteceu. A internet – rede mundial – e os equipamentos – computadores – nasceram da necessidade de manter comando e controle de tropas em tempos de guerra e, logicamente, apenas se tornaram tecnologias funcionais e acessíveis depois de muitas tentativas e erros custeados por pesados investimentos governamentais.
Passados os tempos sombrios, como é praxe no mundo dos negócios, essa tecnologia bélica, já testada e funcional, acabou sendo transferida para a iniciativa privada, mas, agora, repaginada para o uso civil e com fins comerciais. Mas não nos enganemos: essas tecnologias nunca perdem suas características originais, ou seja, elas sempre conservarão suas capacidades de vigilância e controle. Afinal de contas, foi para esses fins que elas foram criadas e aprimoradas. Tamanho potencial jamais passaria sem ser notado pelos Minos modernos do mundo todo: os governos.
A besta Hobbesiana 4.0
Somos todos, minúsculas partes de um ente imaginário que, ao mesmo tempo em que nos guarda, também, e principalmente, controla-nos: o Estado ou, melhor dizendo, o Leviatã, imaginado por Thomas Hobbes (1588 – 1679) e explicado em sua famosa obra de mesmo nome:
Porque pela arte é criado aquele grande LEVIATÃ a que se chama REPÚBLICA, ou ESTADO (em latim CIVITAS), que não é senão um homem artificial, embora de maior estatura e força do que o homem natural, para cuja proteção e defesa foi projetado (HOBBES, pág.61, 2003).
Hobbes definiu tão bem o Estado na figura do mítico Leviatã, que ainda hoje não podemos aboli-lo, mas apenas atualizá-lo para a versão digital, visto que a tecnologia se fundiu com o Estado a tal ponto e penetrou tão fundo em suas instituições que este já não consegue exercer seu poder sem essas modernas ferramentas. Isso representa tanto uma benção quanto uma maldição, já que governos se tonaram tão dependentes das Big Techs que seus líderes, aos poucos e cada vez mais, estão se tornado os verdadeiros mandatários, reduzindo governantes a meros bonecos de fantoches, senão vejamos:
Os governos – e os reguladores governamentais – têm lutado para acompanhar o ritmo das mudanças tecnológicas que as big techs têm impulsionado, e as ferramentas à sua disposição, geralmente, não são suficientes para manter as empresas na linha (FITZGERALD, pág. 241, 2021).
O fragmento acima foi extraído do brilhante trabalho intitulado, com muita precisão, de Estado Profundo, publicado em 2021 e de autoria de Ian Fitzgerald. A obra aborda e dá diversos exemplos históricos ao redor do globo de como grupos econômicos, oligarquias e até máfias se infiltram nos governos, tornando-se os reais detentores do poder político, fazendo desses atores – os políticos – apenas meios convenientemente disponíveis para colocarem em prática suas agendas privadas, mantendo-se, dessa forma, ocultos dos olhos das sociedades.
Conclusão
Esperamos ter demonstrado com suficiente clareza o tamanho do problema no qual estamos nos metendo enquanto sociedade ao aceitarmos, passivamente, que empresas de tecnologia de porte mundial se infiltrem nas instituições públicas e se apoderem, silenciosamente, do poder político nos países onde atuam, tornando-se detentores dos dados, inclusive biométricos, dos seus cidadãos.
Que tenhamos feito acender um alerta para que não nos tornemos tão dependentes de recursos como as inteligências artificiais, pois que constituem um sedutor chamado ao suicídio da humanidade, uma vez que, ao delegarmos o pensamento a uma máquina ou a um algoritmo, estamos abdicando daquilo que nos torna o que somos enquanto espécie, além de estarmos, inadvertidamente, colocando Talos no trono de um Leviatã 4.0 e global.
As redes sociais – viabilizadas pelo 5º Poder ou Big Techs – das quais integrantes dos Poderes da República se valem para expor suas narrativas, contrapõem-se ao que deveria significar informar, que constitui múnus público, logo, a manutenção e o fortalecimento dos órgãos profissionais de imprensa são fundamentais em qualquer regime republicano e democrático, visto que apenas por meio da imparcialidade jornalística a verdade pode emergir, mas se quem controla a informação a teme, ela permanecerá submersa ou será descontruída.
REFERÊNCIAS
ASIMOV, Isaac. Eu, Robô, ISBN: 978-85-7657-200-8;
FITZGERALD, Ian. Estado Profundo – Uma história de agendas secretas e de governos sombra, ISBN: 978-65-5888-122-3;
GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana, ISBN: 85-286-0148-X;
HOBBES, Thomas. Leviatã, ISBN: 85-336-1930-8;
HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo, 5ª edição, Editora Globo Porto Alegre 1979.
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Roanderson Rodrigues Coró é Subtenente da Polícia Militar do Estado de São Paulo; Bacharel em Direito pela União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo (UNIESP); Pós-Graduado em Direito Penal pela Faculdade Venda Nova do Imigrante (FAVENI); Pós-Graduando em Filosofia, Educação e Cultura pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB); Curso de Extensão Filosofia: Principais Pensadores e Fundamentos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Lucas Rafael Cicone Coró tem Licenciatura em Letras – Português e Inglês pela Unesp – Faculdade de Ciências e Letras – Câmpus de Assis (Março de 2022 – Dezembro de 2025); Francês básico – Unesp – Faculdade de Ciências e Letras – Assis (2022); Estágio – PIBID Unesp – Elaboração de aulas de Língua Portuguesa para turma intermediária, preparação e aplicação de atividades escritas, responsável por relatórios de análise (Outubro de 2022 – maio de 2024).
