Monday, 15 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

O jornalismo na era da colaboração cruzada

(Foto: stevepb/ Pixabay)

A colaboração cruzada é uma prática já usada, há algum tempo, por jornalistas autônomos, mas que agora ganhou um novo status ao ser reconhecida por empresas jornalísticas, pesquisadores universitários e por financiadores de projetos de comunicação como um recurso para promover projetos e causas sociais. 

A colaboração cruzada envolve organizações jornalísticas e não governamentais (ONGs, fundações ou cooperativas) no desenvolvimento de projetos de utilidade pública, onde a comunicação e a informação desempenham um papel essencial para atingir as metas estabelecidas.

Este tipo de ação jornalística é particularmente frequente nos projetos ambientais. As iniciativas de preservação do meio ambiente, na maioria dos casos, dependem da participação das comunidades, o que implica um trabalho de comunicação dos objetivos a serem alcançados. O melhor meio para envolver pessoas em ações sociais é a informação, área onde o jornalismo tem uma expertise específica.

A era digital levou o jornalismo a ter que explorar outras estratégias de ação, uma das quais é o estabelecimento de uma nova relação com o público, ao focar em temas e problemas de interesse direto das pessoas.  Trata-se de uma área onde as ONGs vêm atuando há tempos, com resultados que poderiam ser mais amplos caso adotassem políticas adequadas de comunicação pública. 

Até agora, a colaboração cruzada era praticada de forma empírica e localizada. As experiências não eram sistematizadas e, com isto, os conhecimentos acumulados pelas iniciativas não eram compartilhados por jornalistas e tampouco por ativistas de ONGs. Apesar disto, o recurso passou a ser usado com frequência crescente porque aumenta a visibilidade do trabalho das ONGs e facilita a aproximação entre jornalistas e o público.

Mas agora, um estudo do Centro de Mídias Colaborativas (Center for Cooperative Media), da Universidade Montclair, dos Estados Unidos, identificou e pesquisou 155 projetos de colaboração cruzada em 125 países, inclusive o Brasil, no primeiro trabalho acadêmico sobre a colaboração cruzada [1]. Nas conclusões do trabalho, a pesquisadora Sarah Stonbely, afirma que a ação integrada entre jornalistas e organizações não governamentais pode produzir excelentes resultados apesar dos enormes e complexos desafios para harmonizar o trabalho de profissionais da comunicação e ativistas.

Pedras no caminho

Stonbely, a mais experiente pesquisadora no campo da colaboração cruzada, não tem dúvidas de que o jornalismo terá que se envolver em causas comunitárias para reconquistar sua relevância social. É claro que isto implica mudanças consideráveis tanto na cultura jornalística como na das organizações não governamentais. O jornalismo terá que relativizar sua obsessão com a isenção enquanto as ONGs precisam se acostumar com a transparência total nas questões internas, especialmente as financeiras. Estas são apenas as mudanças mais complexas, pois existem inúmeras outras como mostrou o estudo do Centro de Jornalismo Colaborativo. 

Entre os desafios identificados pela pesquisa do Centro de Mídias Colaborativas é possível destacar:

  1. Determinação do percentual do orçamento do projeto que será usado para as ações contempladas pela estratégia de comunicação. 
  2. Harmonização dos procedimentos, regras e valores adotados por jornalistas e ativistas. Os jornalistas estão acostumados a trabalhar rapidamente e mudam de projeto com frequência, enquanto as ONGs atuam mais a longo prazo e quase sempre se limitam a um só projeto. 
  3. Os jornalistas estão fortemente condicionados pela preocupação com a objetividade e isenção quando produzem material informativo. Já os membros de organizações não governamentais, em geral, têm pouca intimidade com a transparência de planos e finanças, priorizam a militância, a segurança pessoal e o predomínio de parentescos e amizades na formação de equipes. 

Uma experiência concreta

Meu primeiro contato com a prática da colaboração cruzada aconteceu em 2003, na Costa Rica, quando era diretor de uma ONG (ICODE – Iniciativas de Comunicação para o Desenvolvimento – hoje extinta) e que foi contratada pela delegação da União Europeia na América Central para identificar porque os projetos sociais patrocinados pela UE eram pouco conhecidos pela opinião pública. O que acontecia, na maioria absoluta dos casos, é que as ONGs gastavam todo o orçamento para atingir as metas fixadas e quando o projeto era concluído, não havia mais dinheiro para ações de visibilidade pública.

Nossa proposta foi então que a União Europeia estabelecesse um percentual no orçamento de cada projeto para ações de comunicação e engajamento social. Este percentual, em geral de 5%, seria administrado por alguma organização especializada na promoção (advocacy) de causas sociais transformadoras.  A sugestão foi aprovada entusiasticamente por financiadores e financiados, mas logo em seguida os problemas começaram a aparecer. 

O ICODE propôs que as ações de visibilidade começassem já no início da execução do projeto, o que implicou uma discussão financeira, que por sua vez gerou algumas resistências sobre intromissão nos assuntos internos das ONGs financiadas pela UE. O esclarecimento das desconfianças consumiu a maior parte do tempo inicial dedicado à Colaboração Cruzada. Vencidas as resistências, a cooperação funcionou e os resultados foram celebrados pelos financiadores dos projetos, mas apesar disto a iniciativa acabou desativada com a transferência do encarregado chefe da União Europeia na América Central.  

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[1] O Centro de Mídias Colaborativas montou um banco de dados sobre as organizações pesquisadas e que pode ser acessado em português clicando em https://collaborativejournalism.org/database-search-sort-learn-collaborative-projects-around-world/portuguese/ 

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.