Thursday, 18 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

A cobertura do terremoto do Haiti nas revistas Veja e Época


1 Introdução


Este artigo é resultante do trabalho de conclusão do Curso de Jornalismo da Universidade federal do Rio Grande do Sul, Brasil, apresentado em julho de 2010, sob orientação da professora Rosa Nívea Pedroso.


A escolha das reportagens publicadas nas revistas semanais Veja e Época como objeto de análise, justifica-se pelo gosto que cultivo pela reportagem. É na reportagem que o jornalista desenvolve o seu trabalho de forma mais completa, empenhando todos os seus esforços e demonstrando seu talento. É através da reportagem que o repórter encontra espaço para escrever um texto mais livre, mais solto, retratando os fatos de forma mais completa, expondo a complexidade dos acontecimentos ou escolhendo um ângulo diferenciado para retratar na matéria.


A reportagem é a expressão máxima da narrativa jornalística, é o espaço privilegiado em que aquele leitor que não se contenta com relatos superficiais pode encontrar subsídios para entender determinada situação de forma mais profunda e completa. Esse gênero nobre do jornalismo está cada vez mais raro. Devido à ditadura do imediatismo e da pressa, que atinge jornalista e leitor, as grandes reportagens praticamente deixaram de existir nos jornais diários. As revistas semanais ainda são um dos poucos espaços em que podemos encontrar boas reportagens, no que diz respeito à produção, apuração, abrangência.


Expostos estes argumentos que justificam as escolhas que resultaram no trabalho que aqui se inicia, meu problema de pesquisa é identificar as características da cobertura jornalística realizada pelas revistas Veja e Época no terremoto do Haiti. Quero, ao final deste trabalho, poder responder a seguinte pergunta: partindo da análise das reportagens, que características apresentam as coberturas jornalísticas realizadas pela revista Veja e Época no terremoto do Haiti? Através da análise da narrativa, das fontes, da construção do texto, da presença do repórter e especialmente do trabalho de apuração desejo encontrar as características gerais da cobertura de cada uma das revistas, neste episódio que foi, sem dúvida, o maior desastre natural dos últimos tempos.


Acredito que desta forma, poderei contribuir para o entendimento da essência do trabalho de reportagem, que é a base do jornalismo, e conhecer de forma mais profunda os conceitos que já foram abordados durante a faculdade. Poderemos compreender também como o repórter age em coberturas de catástrofes que são cada vez mais comuns devido às intensas mudanças climáticas que estamos vivenciando. O jornalismo, especialmente nestas ocasiões, assume seu papel de função essencial à sociedade. Nestes casos, mais essencial aos membros sociedade que foi vítima da tragédia do que aos demais. Certamente, a repercussão midiática do terremoto do Haiti foi mais importante para os haitianos do que para o resto do mundo, na medida em que através do relato dos jornalistas o povo haitiano ganhou voz e as doações enviadas pelo mundo inteiro foram motivadas pelos seus pedidos de ajuda destacados principalmente através das matérias jornalísticas produzidas por profissionais de todos os cantos do planeta.


Esta introdução tem a intenção de justificar a escolha do tema e apresentar os objetivos do trabalho. Ressaltamos a importância da reportagem para fornecer aos cidadãos meios de entender a realidade em que vive. E do jornalismo, que exerce a função social básica de informar, que tem compromisso com a verdade e que em situações extremas como, a do Haiti pós terremoto, reafirma todo seu valor.


No capítulo 2 será apresentado todo o referencial teórico deste trabalho. Abordando questões como a importância do jornalismo e sua função dentro da sociedade, a importância da reportagem como um gênero privilegiado dentro do campo jornalístico e suas características, a diferença entre reportagem e notícia, os diferentes tipos de narrativas, o trabalho do repórter, as fontes e os métodos de apuração serão vistos através das contribuições teóricas de diversos autores. Procura-se mostrar como cada elemento acima citado é importante na construção de uma boa reportagem, especialmente os métodos de apuração, que são a matéria-prima de onde o jornalista extrairá o texto, que é a essência de seu trabalho.


No capítulo 3 será apresentado o Haiti, país que servirá de cenário para as reportagens analisadas. Serão relatados de forma resumida alguns aspectos históricos, sociais, geográficos, culturais, políticos e econômicos do país. Em seguida haverá uma apresentação do trabalho brasileiro no país caribenho, desenvolvido através do Exército no comando da Missão de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU), que desde 2004 atua no país. A parte final do capítulo trará uma explanação do grande terremoto que atingiu o Haiti no dia 12 de janeiro de 2010, deixando a capital Porto Príncipe totalmente arruinada e o país inteiro imerso no caos.


No quarto capítulo apresentaremos o método de pesquisa adotado neste trabalho, a análise de conteúdo. Explicaremos a forma como surgiu, suas etapas e características principais e para finalizar indicaremos categorias de análise que serão utilizadas para a apreciação das reportagens no capítulo posterior.


No capítulo 5 será realizada a análise propriamente dita de todas as reportagens publicadas na revista Veja, do dia 20 e 27 de janeiro de 2010, e na revista Época de 18 e 25 de janeiro de 2010, sobre o terremoto que atingiu o Haiti. A análise será baseada no referencial teórico exposto no segundo capítulo e nas categorias de pesquisa apresentadas no capítulo 4. Após o término da análise de cada revista será elaborado um novo tópico com as características gerais da cobertura.


No capítulo de considerações finais, serão expostas as conclusões ou inferências que foram obtidas através do trabalho de pesquisa. Serão apontadas as diferenças entre a cobertura dos dois veículos e os principais pontos positivos e negativos de cada uma. Não pretendo, de forma alguma, apresentar conclusões definitivas, pelo contrário, apenas expor meu posicionamento a respeito do objeto de pesquisa para incentivar a reflexão e o debate a respeito do jornalismo, suas funções e a maneira como são desempenhadas atualmente.


2 O jornalismo como reportagem


Vivemos na era da comunicação de massa, ou seja, consumimos mensagens que são produzidas em escala industrial, são rapidamente absorvidas e atingem todos os tipos de público. A concentração de jornais, revistas, emissoras de TV e rádio e canais de internet como produtos de grandes conglomerados econômicos – as empresas de mídia – faz com que a linha que separa comunicação, tecnologia e entretenimento seja cada vez mais tênue.


Dentro deste universo midiático encontramos vários meios de comunicação, com funções diferenciadas e responsáveis pela divulgação de diversos tipos de mensagens. A propaganda usa os fatos ou inventa acontecimentos para servir ao propósito de persuasão ou manipulação do público. O entretenimento ocupa-se de divertir a audiência. O cinema e a literatura inventam cenários e histórias para difundir valores, impressões, reflexões. Apenas o jornalismo exerce a função de informar, explicar, orientar e ser fiel aos registros dos fatos verídicos.


Tal área da comunicação nasce para suprir uma necessidade humana que se origina nos tempos mais remotos: a de saber o que acontece além de nossa própria existência. É através do trabalho dos jornalistas que a sociedade se informa sobre os principais acontecimentos ocorridos no âmbito mundial. E esta tarefa, de levar para o mundo a informação o mais próxima possível do real, busca ser objetiva e imparcial, mas já demonstra em seu início um valor subjetivo. Entre a avalanche de fatos do dia a dia a escolha do que será ou não informado ao público é uma escolha subjetiva dos jornalistas. Embora este exercício de seleção siga regras como o interesse público, a relevância, a novidade, é também em grande parte regido por uma carga de subjetividade, de impressões e de valores daquele que é responsável por essa escolha. Podemos dizer que o jornalismo busca retratar a realidade. Isabel Travancas traz uma explicação completa sobre o tema:


Não existe objetividade em jornalismo. Ao escolher um assunto, redigir um texto e editá-lo, o jornalista toma decisões em larga medida subjetivas influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções. Isso não o exime, porém, de ser o mais objetivo possível. Para relatar um fato com fidelidade, reproduzir a forma, as circunstâncias e as repercussões, o jornalista precisa encarar o fato com distanciamento e frieza (TRAVANCAS, 2002, p.28).


Nas escolhas do que é ou não notícia os jornalistas decidem o que será revelado ou omitido do público, o que será esquecido e o que será lembrado. E a partir daí condicionam ou limitam a nossa visão de mundo ao que é mostrado pela imprensa. Isto nos leva às funções não aparentes do jornalismo que são muitas: ideológica, econômica, social. Fazendo uso dele, as empresas jornalísticas podem assumir diversos papéis, reforçar estereótipos ou preconceitos. E a lógica de mercado que rege o mundo e as empresas de mídia que, muitas vezes, vicia o conteúdo produzido pela imprensa. Para Lima:


O excesso de sensacionalismo, desvirtuando um fato por chamar atenção para um elemento folclórico apenas, pitoresco, de um tema importante, é um desses efeitos da tentativa de conquista, a qualquer preço, do leitor (LIMA, 1993,p.59).


Os veículos que o jornalismo utiliza para cumprir sua função de orientar e informar o público, em sua versão impressa ou gráfica, são os periódicos. Otto Groth, teórico alemão (apud LIMA 1993, p. 20-21), relaciona as principais características destes meios de comunicação: a atualidade – os fatos precisam apresentar uma relação com o momento presente –, a periodicidade – os periódicos apresentam um repetição regular no tempo entre as edições (pode ser diário, semanal, mensal) -, a universalidade – os periódicos buscam abordar os mais diferentes campos do conhecimento, os mais diversos assuntos – e, finalmente, a difusão coletiva – os periódicos circulam por diversas camadas sociais com características culturais, econômicas e geográficas diferentes. Edvaldo Pereira Lima apresenta uma síntese do jornalismo baseada nestas características:


O jornalismo serve ao propósito de informar e orientar sobre os fatos da atualidade, mantendo um vínculo de contato periódico com a audiência, que é dispersa geográfica e socialmente, tratando de temas que dizem respeito aos mais variados campos do saber humano (LIMA, 1993, p.21).


O jornalismo só consegue cumprir suas funções, sejam elas explícitas ou ocultas, porque desenvolveu uma linguagem para suas mensagens. Para relatar os acontecimentos sociais através de mídias gráficas ou eletrônicas este campo da comunicação desenvolveu uma maneira própria de se expressar. Conforme Nilson Lage (2001) é através do jornalismo que a informação circula, transposta para uma língua comum e simplificada, menos precisa, mas com potencial suficiente para permitir julgamentos e indicar caminhos a quem estiver interessado. As coberturas jornalísticas devem buscar dar ao leitor o máximo de informação para que ele próprio tire suas conclusões. As mensagens articuladas jornalisticamente permitem a universalização do conhecimento, proporcionando a uma audiência heterogênea e ramificada um entendimento simples e acessível dos fatos que são trazidos ao seu conhecimento.


Em virtude desta necessidade, de adaptar a linguagem e a forma das mensagens ao entendimento de todos os tipos de público, o jornalismo atual que se caracteriza pela produção padronizada e em larga escala encontrou no elemento notícia sua forma básica e fundamental de transmissão de informações. A notícia deve corresponder a um acontecimento real que seja de interesse do público ou de parte do público ao qual o periódico se dirige. A base do texto jornalístico é, portanto, a notícia e esta costuma seguir fórmulas de construção que simplificam o relato em torno das respostas das tradicionais perguntas: o que, quem, quando, onde e como ou por quê. Este procedimento atende aos preceitos do jornalismo moderno que é informar de forma rápida, clara e objetiva. Entretanto, alguns fatos ou ocorrências são complexos demais para serem explicados através de fórmulas predeterminadas. Com isto, algumas notícias acabam por ser consideradas superficiais ou incompletas. E é da ampliação do relato da notícia que surge a reportagem, buscando ampliar e contextualizar o que já foi anunciado pelo simples relato noticioso. As diferenças entre os dois gêneros serão tratadas com mais detalhes na sequência deste trabalho.


A qualidade do jornalismo que temos influencia a nossa qualidade de vida, os nossos pensamentos e a nossa cultura. A imprensa é, sem dúvida, uma das ferramentas mais poderosas de nossa sociedade. Com informações confiáveis, independentes, compreensíveis e concisas teremos um bom jornalismo. E com um jornalismo de qualidade teremos cidadãos bem informados, conscientes, com ferramentas para transpor as barreiras sociais. O jornalismo é capaz de unir comunidades, fortalecer as identidades coletivas, além de auxiliar a população na definição de seus objetivos, seus líderes, seus modelos. Multiplicando os pontos de vista, as visões de mundo, as informações de qualidade e o conhecimento, o jornalismo contribui para a formação dos cidadãos e para afirmação de uma sociedade justa e democrática. A prova disso é que quando uma sociedade quer acabar com a liberdade, ela começa atingindo a imprensa, pois vedando o acesso dos cidadãos às informações independentes, ela dá um golpe certeiro na força do povo.


Seja através de notícias, de artigos, de colunas de opinião ou de reportagens, precisamos de jornalismo de qualidade. Para que isso seja possível, os autores Kovach e Rosenstiel enumeraram nove pontos fundamentais (frutos de pesquisa com jornalistas) para o exercício do bom jornalismo: a primeira obrigação do jornalismo é com a verdade; sua primeira lealdade é com os cidadãos; sua essência é a disciplina da verificação; seus praticantes devem manter independência daqueles a quem cobrem; o jornalismo deve ser um monitor independente do poder; o jornalismo deve abrir espaço para a crítica e o compromisso público; o jornalismo deve empenhar-se para apresentar o que é significativo de forma interessante e relevante; o jornalismo deve apresentar as notícias de forma compreensível e proporcional; os jornalistas devem ser livres para trabalhar de acordo com sua consciência (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 22-23).


A informação deixou de ser fator de acréscimo cultural ou divertimento e tornou-se essencial à vida das pessoas. Sua importância cresceu na vida individual e na construção da sociedade com um todo:


O jornal – a informação jornalística em geral, em impressos, no rádio, na televisão ou na internet – é atualmente produto de primeira necessidade, sem o qual o homem moderno não consegue gerir sua vida produtiva, programar seu lazer, orientar-se no mundo e, finalmente, formular opiniões. É uma forma de conhecimento e um serviço público essencial (LAGE, 2001, p.174).


Como escreveu Walter Lippman em 1920 (apud KOVACH; ROSENSTIEL, p. 114): ‘Não pode haver liberdade numa comunidade que não conta com a informação por meio da qual se detectam as mentiras’.


2.1 A reportagem


A reportagem é um gênero nobre dentro do jornalismo. Seu valor é, frequentemente, ressaltado pelos profissionais da área que a colocam como a obra-prima do fazer jornalístico. Segundo Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari, é na reportagem mais do que na notícia, no editorial ou no artigo que o jornalista cumpre o papel de colocar-se entre o leitor e a veracidade dos fatos. E enfatizam: ‘Por isso, é a reportagem – onde se contam, se narram as peripécias da atualidade – um gênero jornalístico privilegiado. Seja no jornal nosso de cada dia, na imprensa não-cotidiana ou na televisão, ela se afirma como o lugar por excelência da narração jornalística’ (SODRÉ; FERRARI, 1986, p. 9).


A reportagem começa a ocupar um papel de destaque e definitivo dentro do jornalismo no início do século XX. Segundo Edvaldo Pereira Lima, havia um desejo dos leitores por uma informação mais profunda e detalhada, principalmente em função das grandes mudanças oriundas da modernidade e de grandes acontecimentos, como a Primeira Guerra Mundial, que surpreendiam o mundo naquela época. Essa demanda resultou no surgimento, nos anos 20, das revistas semanais de informação, sendo a norte-americana Time a pioneira neste segmento, que buscavam dar aos fatos uma contextualização, buscando conexões entre os acontecimentos, garantindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada da realidade. É para preencher esta lacuna que surge a reportagem como o gênero da investigação e da interpretação jornalística, para atender ao leitor insatisfeito com a superficialidade das simples notícias. A reportagem estende a função informativa e orientativa do jornalismo cotidiano, já que cobre vazios deixados pela cobertura superficial e amplia, para o leitor, a compreensão da realidade. Nas etapas de produção de uma reportagem (pauta, captação, redação e edição) o jornalista pode escapar das formas convencionais que, muitas vezes, limitam o trabalho do repórter na imprensa diária.


Com o passar do tempo, a prática da grande reportagem se fortaleceu e, segundo Edvaldo Pereira Lima, passou a se caracterizar pela busca para não deixar a audiência desprovida de meios para compreender seu tempo, as causas e origens dos fenômenos que presencia, suas consequências no futuro (LIMA, 1993, p.25).


A literatura europeia das primeiras décadas do século XX, também já refletia a preocupação dos autores com a busca do entendimento da realidade. O realismo social, surgido na Europa nesta época, é um movimento literário que se aproxima muito da reportagem. A descrição da realidade, de personagens e ambientes do cotidiano, a busca pelos detalhes, os temas sociais, o distanciamento do narrador, são algumas das características do realismo que podemos facilmente identificar em uma reportagem. Conforme Edvaldo Pereira Lima, o jornalismo absorve elementos do fazer literário e transforma-os, direcionando-os para outro fim. Os maiores autores do realismo social como Baudelaire, Tolstói, Dostoiévski e Balzac, são considerados além de grandes escritores grandes jornalistas. A partir de 1870 este movimento perde força na Europa e ressurge após a Primeira Guerra Mundial na América do Norte, alcançando seu ápice na década de 1930.


Portanto, seja através das revistas ou através de livros a reportagem passa a despertar o interesse de um número cada vez maior de profissionais da imprensa, conquista a admiração dos leitores, vai diferenciando-se, ganhando forma, variações, características que resultam na reportagem tal como a conhecemos hoje. Vejamos, a seguir, alguns de seus aspectos mais importantes.


A reportagem diferencia-se da notícia por vários motivos. Os mais fáceis de serem percebidos são a extensão e a abrangência. A notícia expõe um fato ou uma sequência de fatos de forma objetiva, sucinta, rápida e procura responder as tradicionais perguntas: o que, quem, quando, onde e como e por quê. Contém elementos de ineditismo, proximidade, atualidade e identificação. Já a reportagem é, conforme Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari, uma extensão da notícia e tem como característica principal a narrativa, a humanização do relato. É na reportagem que encontraremos as causas e as consequências de um determinado fato, o contexto, a reflexão para se chegar à compreensão completa de um determinado acontecimento. Portanto, as reportagens são mais longas, abrangentes e possuem textos mais elaborados que as notícias. Nilson Lage traz um exemplo que esclarece bem a diferença de enfoque entre estes dois gêneros:


Caiu um avião na mata, é notícia, resgatam-se passageiros e tripulantes dias depois, outra notícia; divulga-se o relatório técnico sobre o desastre, uma terceira notícia apoiada na recapitulação das duas anteriores. Já o relato detalhado, com base em testemunhos, do sofrimento daqueles dias passados na selva, entre feridos, mortos, medo, incerteza e crises de desespero – isso daria uma excelente reportagem (LAGE, 2005, p.139).


Conforme Cremilda Medina (MEDINA apud COIMBRA, 1993, p.9) o que distingue a notícia da grande reportagem é o tratamento do fato jornalístico, no tempo de ação e no processo de narrar. Para a autora, a reportagem amplia, aprofunda o fato no espaço e no tempo, e esse aprofundamento do conteúdo se faz numa abordagem estilística.


As linhas do tempo e espaço se enriquecem: enquanto a notícia fixa o aqui, o já, o acontecer, a grande reportagem abre o aqui num círculo mais amplo, reconstitui o já no antes e depois, deixa os limites do acontecer para um estar acontecendo atemporal ou menos presente. Através da contemplação dos fatos que situam ou exemplificam o fato nuclear, através da pesquisa histórica de antecedentes, ou através da busca do humano permanente no acontecimento imediato a reportagem leva a um quadro interpretativo do fato (MEDINA apud COIMBRA, 1993, p. 9).


Outro ponto discordante entre notícias e reportagens é o tempo. A notícia tem por regra básica ser atual. A natureza da notícia é o imediatismo, a atualidade. Normalmente são noticiados fatos que acabaram de acontecer ou que ainda sequer ocorreram. O passado remoto não é alvo para as notícias. Já para a reportagem o valor do tempo é outro. Conforme Nilson Lage: ‘Algumas das mais famosas reportagens foram escritas – ou produzidas – muito tempo depois dos fatos a que se reportam’ (LAGE, 2005, p.139). A obsessão pela atualidade transforma-se numa prisão para o jornalista e muitas vezes o impede de revelar e compreender a realidade, já que seguidamente é impossível fazer isso de forma imediata. É preciso dar tempo aos acontecimentos. Para Lima (1993), a reportagem é o instrumento do jornalismo para escapar à ditadura draconiana da atualidade. A busca incessante por fatos atuais, muitas vezes, transforma o trabalho do jornalista em um incessante colher depoimentos e recolher informações, tentando recuperar o máximo de fatos e analisá-los, no entanto, perde-se os testemunhos extensos, importantes e atemporais. Edvaldo Pereira Lima afirma que quando se trata de reportagem, cujo objetivo é o aprofundamento, a definição da pauta pelo critério de atualidade pode revelar-se inócua, na medida em que muitos fenômenos que nos afetam escapam de uma conformação atual, tendo muito mais a ver com uma concepção mais dilatada do tempo (LIMA, 1993, p.57). Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari também refletem sobre o assunto:


Embora a reportagem não prescinda de atualidade, esta não terá o mesmo caráter imediato que determina a notícia, na medida em que a função do texto é diversa: a reportagem oferece detalhamento e contextualização àquilo que já foi anunciado, mesmo que seu teor seja predominantemente informativo (SODRÉ; FERRARI, 1986, p.18).


Os temas que podem ser assuntos de reportagem são inúmeros e compreendem desde fatos e realidades contemporâneas até retrospectivas históricas, pode-se fazer uma grande reportagem sobre a ditadura militar brasileira, por exemplo.


O planejamento editorial também se manifesta de forma diferente na reportagem e na notícia. As pautas, introduzidas definitivamente no jornalismo brasileiro na década de 1970, são de naturezas distintas. As pautas de notícias, conforme Lage propõe, geralmente enfocam desdobramentos dos acontecimentos do dia anterior, fatos de interesse público, repetição de notícias produzidas em outros locais como a divulgação de pesquisas de satisfação, coberturas sazonais (verão, inverno, natal, carnaval) e, ainda, eventos inesperados.


As reportagens, ao contrário, apresentam pautas mais elaboradas. É a pauta quem vai definir rumos, estabelecer diretrizes a serem seguidas durante toda a etapa de produção. Por isso, quando a elaboração da pauta é mal feita, temos como resultado uma matéria insuficiente. O leque de assuntos é extenso, há um levantamento prévio do tempo e dos custos de produção, além de sugestões de abordagens. A construção da pauta deve localizar o fato ou conflito e identificar suas causas, efeitos, características determinantes e a indicação de objetivos que a matéria procura atingir, deve direcionar a condução do processo de elaboração. Notícias sobre o mesmo acontecimento tendem a ter conteúdo e texto semelhantes. Já reportagens sobre temas iguais podem, e geralmente produzem, textos e resultados bem diferentes. Isso acontece por que a natureza da notícia é informar, já a reportagem vai além da informação. Na absoluta maioria das vezes, a notícia independe das intenções dos jornalistas, a reportagem procede de intenção, de uma ‘visão jornalística’ dos fatos. A reportagem comporta espaço para a interpretação, o que produz diferentes enfoques, conexões e compreensões mesmo que acerca do mesmo assunto. Conforme Lima:


Na medida em que a reportagem de profundidade exige um bom trabalho de documentação, isto é, de estabelecimento de relações entre fatos isolados e situações globais, de interpretação dos significados da contemporaneidade para o leitor, esse só pode chegar a um bom termo se existe pauta preparada com alcance e visão integral (LIMA, 1993, p.73).


Embora o planejamento de pautas tenha benefícios aparentes, como uma maior organização e aproveitamento do tempo, é preciso deixar espaço para o improviso. Sobre isso, Nilson Lage afirma:


Acontecimentos ocorrem inesperadamente, prognósticos mudam diante dos fatos; por isso, repórteres – e, obviamente, as chefias de reportagem e da redação – devem ter, em determinadas circunstâncias, autonomia editorial (LAGE, 2001, p.43).


O sucesso de uma pauta depende, em grande parte, de quem a executa. O trabalho de reportagem não é apenas seguir um roteiro pré-determinado e construir um texto correto. O diferencial, no trabalho do repórter, está na imaginação, ou no chamado felling ou insight. A partir dos dados e indicações contidos na pauta, a busca do ângulo, do tom que permita revelar uma realidade da forma mais original e verdadeira possível, buscando aspectos que poderiam passar despercebidos, é a amostra do talento do jornalista.


Os meios de informação de onde os jornalistas extraem conteúdo para a criação das pautas são geralmente os mesmos: notícias publicadas em rádio, jornal, revista, televisão ou internet, releases recebidos das assessorias de imprensa, ou ainda, sugestões enviadas pelo público à redação. As notícias costumam ser pautadas com assuntos mais repetitivos e comuns. Já as reportagens podem trazer temas mais criativos e inovadores. Muitas reportagens interessantes surgem da observação dos repórteres que atentam para fatos que geralmente passam indiferentes ao público e aos outros colegas de redação.


A estrutura do lide, forma criada pela imprensa americana para que o leitor obtenha o maior número de informações em menos tempo, também é distinta nos dois gêneros jornalísticos. As perguntas do lide (quem, o quê, como, quando, onde, por quê) são respondidas de maneira diferente. Nas notícias as respostas são diretas, uma informação por frase e todas estas frases no primeiro parágrafo. Na reportagem o lide é desenvolvido ao longo do texto, constituindo uma narrativa. Mas uma narrativa de fatos reais, devidamente verificados e não inventados pelos repórteres. De acordo com Nilson Lage: ‘Jornalistas não inventam ou criam a informação que publicam, eles partem de relatos e da observação e traduzem para uma linguagem padrão o conjunto do que perceberam’ (LAGE, 2001, p.177).


Uma forma extremada de reportagem é chamada investigativa que abarca normalmente temas sociais. O jornalismo investigativo precisa que o repórter dedique tempo e esforço ao levantamento de um assunto. Alguns autores entendem este tipo de reportagem como um esforço para evidenciar as misérias passadas ou presentes da sociedade ou um modo de denunciar injustiças. Geralmente este trabalho, que demanda muito tempo e dinheiro, resulta em textos extensos e não se encaixam no tamanho dos periódicos convencionais. Costumam ser publicados na forma de livros ou documentários. Assuntos para reportagens deste tipo podem surgir de várias maneiras: através do aparecimento de fatos inexplicáveis ou curiosos, escândalos, informações sigilosas de fontes ou observação direta de uma realidade e vontade de denunciá-la.


Antes de o repórter partir para uma investigação, é necessário que faça um levantamento das reais possibilidades, se existem fontes ou documentos disponíveis, se há tempo e recursos suficientes. Depois disso o jornalista deve familiarizar-se com o tema e desenvolver um plano de ação, que são as etapas detalhadas de investigação com custos, métodos a serem utilizados. Depois de acabado o trabalho é necessário ainda verificar todo o material apurado, fazer a checagem das informações, para só então iniciar a redação do texto.


Outra categoria de reportagem é o jornalismo interpretativo. Este tipo de reportagem costuma apresentar dados e evidenciar suas consequências ou implicações. Geralmente é usada para temas econômicos, políticos ou científicos. A interpretação pretende oferecer ao leitor os fatos que permitem estabelecer conclusões, porém sem definir essas conclusões. O risco do repórter, neste tipo de matéria, é deixar que a apuração se contamine por crenças ou teorias próprias e não comprovadas, que acabam transformando informação em opinião.


Na construção do texto de uma reportagem, segundo Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari, o repórter deve produzir um relato humanizado e de natureza impressionista (contendo as impressões do repórter) com riqueza de detalhes, colocando-se como um elo entre o fato ou história e o público. Desta forma garantirá ao seu texto credibilidade e produzirá uma proximidade maior do leitor com o fato ou história que está sendo relatado. A característica narrativa da reportagem também é destacada por Liráucio Girardi Jr. Segundo Girardi Jr., a reportagem tem tudo para se transformar em boa literatura através da descrição dos personagens e do espaço onde se desenrola a ação dramática e da trama que tecem ou acabam envolvidos, mas deve manter-se vinculada à informação objetiva. Edvaldo Pereira Lima traz uma boa definição de narrativa jornalística, onde ressalta o objetivo de auxiliar o leitor na compreensão da realidade:


Narrativa, aqui, entendida como o relato de um conjunto de acontecimentos dotados de sequência, que capta, envolve o leitor, conduzindo-o para um novo patamar de compreensão do mundo que o rodeia, e tanto quanto possível, de si mesmo, através do espelho que encontra nos seus semelhantes retratados pelo relato (LIMA, 1993,p.106).


Quando um assunto foge a rotina, um grande acidente, uma tragédia natural, grandes eventos esportivos, morte de personalidades, a imprensa monta um esquema especial de cobertura que conta com a reportagem como principal ferramenta para levar ao leitor o que aconteceu ou está acontecendo. De acordo com o fato e com as condições do veículo é mobilizada uma equipe ou um enviado especial para o local do acontecimento. Muitas vezes o repórter é pego de surpresa e não tem tempo de se preparar de forma adequada para o fato que terá de cobrir. Entretanto, chegando ao local do ocorrido, começa a produzir sua reportagem da mesma forma das demais, contando tudo que aconteceu, procurando o maior número de informações possíveis, redigindo textos, fotografando, conversando com as pessoas. Tudo isso em um tempo extraordinariamente menor do que no de uma reportagem comum e, muitas vezes, em condições adversas. É neste trabalho de captação, essência do jornalismo, que a reportagem se consagra como gênero e consagra o jornalismo como profissão.


Para estes tipos de reportagem, o jornalista precisa ter resistência física, ser capaz de ficar muito tempo sem comer e sem dormir, ter uma dose de coragem, e encontrar um jeito de vencer o cansaço e a saudade. As condições para transmitir o material produzido também costumam ser problemáticas. Em locais de difícil acesso, que estão arrasados por guerras ou tragédias naturais, por exemplo, transmitir uma reportagem fica quase impossível. Mesmo em tempos de celular, internet e computadores portáteis. Logo que chegar ao local, o repórter deve verificar de que modo aquilo que produzirá chegará à redação do veículo no qual trabalha.


Para coberturas realizadas no exterior, há ainda a dificuldade da língua, da cultura e dos hábitos diversos. Nestes casos, é importante que as matérias contextualizem as informações, com dados históricos, geográficos, sociais, para que o leitor consiga entender o porquê de tais fatos acontecerem em tal país. Essas situações são também um desafio para o jornalista que se encontra isolado, em um universo diferente do seu, com outros códigos, outros hábitos, outra maneira de viver e pensar.


Nas coberturas especiais, por tratarem de fatos muito importantes, é comum que a emoção do jornalista se misture com tudo que está sendo relatado. É difícil manter um distanciamento, quando se está completamente inserido naquele ambiente onde, muitas vezes, se pode testemunhar o sofrimento humano, a fúria da natureza, a superação de limites ou a dor de quem perdeu familiares. Nestas reportagens, a informação e a emoção costumam caminhar juntas e cabe ao repórter dosá-las na medida certa. É importante também que o jornalista conheça os próprios limites e preserve sua vida acima de tudo, intenções heróicas com fins trágicos não valem a pena.


2.2 Tipos de reportagem


Com a especialização cada vez maior do jornalismo, que o subdivide em muitas variações: jornalismo esportivo, científico, econômico, político, por exemplo, a reportagem também ganhou subdivisões e classificações. Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari classificam a reportagem através da natureza do relato. Segundo eles, a reportagem pode ser classificada como reportagem de fatos, reportagem de ação e reportagem documental.


A reportagem de fatos trata-se de um relato objetivo de acontecimentos. Assim como na notícia, os fatos são narrados em sucessão, geralmente por ordem de importância. Já na reportagem de ação o texto adquire um tom movimentado, começando sempre pelo fato que mais chama atenção e seguindo com a exposição dos detalhes. Nestas reportagens o desenrolar dos fatos é feito de forma a aproximar o leitor, que consegue visualizar as cenas e a sequência de ações como em um filme. Em algumas ocasiões estas reportagens trazem o repórter no meio dos acontecimentos. O testemunho do jornalista adquire, nestas reportagens, papel de grande importância, pois garante mais realismo e credibilidade à ação.


A reportagem documental é o relato documentado, costuma apresentar os dados de maneira objetiva, acompanhados de informações ou citações que complementam ou esclarecem o assunto que está sendo tratado. Normalmente, este tipo de reportagem é expositiva e assemelha-se com a pesquisa, pode ainda, adquirir caráter de denúncia. Entretanto, na maioria dos casos, é fundamentada em documentos e dados que lhe conferem um tom pedagógico sobre o tema relatado.


As reportagens também podem ser classificadas com relação à estrutura do texto. Dentro desta classificação temos a reportagem dissertativa, a reportagem narrativa e a reportagem descritiva. Osvaldo Coimbra trata especialmente destas três estruturas.


Conforme Coimbra, a reportagem dissertativa possui a função de expor, explicar, informar e convencer o leitor a aceitar a informação no contexto de um raciocínio que se pretende correto, por isso ela apóia-se na argumentação do repórter. A argumentação deve fundamentar-se em fatos e não em indícios. Fatos são acontecimentos observados e verificados e indícios são suposições, possibilidades não concretas. Outra forma de fundamentação de argumentos é através de testemunhos, que possuem valor de prova, mas tem eficácia relativa já que o mesmo fato pode ser interpretado de formas diferentes pelas pessoas. Da mesma forma que os textos opinativos, como os editoriais, as reportagens dissertativas também expõem afirmações de seus autores. A diferença é que as afirmações dos repórteres são fundamentadas em dados e declarações.


As reportagens dissertativas são, por esse motivo, também chamadas de interpretativas. O que enlaça os dados e as declarações do texto destas reportagens é o raciocínio desenvolvido pelo autor, que a cada afirmação generalizante expõe uma fundamentação (como um dado ou testemunho) com sentido lógico: de exemplificação, enumeração, confirmação, confronto, causa e efeito, entre outros. Afirma Coimbra:


A reportagem dissertativa se apóia num raciocínio explicitado através de informações generalizantes, seguidas de fundamentação, que constitui a análise feita pelo redator de um acontecimento ou de um grupo de acontecimentos (COIMBRA, 1993, p.44).


A reportagem narrativa não se apoia em um raciocínio anunciado. Sua principal característica é a de conter os fatos organizados dentro de uma relação temporal, de anterioridade ou posterioridade, mostrando mudanças progressivas de estado nas pessoas ou coisas. Geralmente este tipo de reportagem segue a estrutura do modelo narrativo: explanação, complicação e resolução e pretende recriar a realidade diante dos olhos dos leitores. Podendo ainda conter uma avaliação ou moral.


A principal diferença da narrativa jornalística para a narrativa literária está na função. O texto jornalístico visa acima de tudo informar, ou ainda, convencer e documentar. Já o texto literário, possui função estética. Na literatura o mais importante além do conteúdo é a forma. A clareza é muitas vezes desnecessária, as palavras podem assumir outros significados. Já nos textos jornalísticos a clareza é um compromisso fundamental. O texto jornalístico não deve dar margem a várias interpretações. Existem muitos elementos a serem analisados dentro de uma reportagem narrativa, os principais são: o foco narrativo, a expressão do tempo e a presença de personagens.


A reportagem descritiva assim como a narrativa abrange coisas e pessoas, mas, ao contrário dela, mostra-as fixadas em um único momento, sem mudanças decorrentes da sequência do tempo, o que não a impede de apresentar ação ou movimento. Neste tipo de texto os verbos indicam ações que ocorrem naquele instante. Os acontecimentos apresentam-se no mesmo plano temporal de modo que se mudarmos a ordem das frases do texto não alteramos a ordem cronológicas dos acontecimentos, pois são simultâneos. Outra característica marcante deste tipo de reportagem é o detalhamento máximo das cenas e personagens. Conforme Sodré e Ferrari, reportagens inteiramente descritivas tornam-se pouco comunicativas, quando não desagradáveis. É o que ocorre em matérias com descrições técnicas de assuntos muito específicos. Portanto, este tipo de reportagem costuma apresentar trechos narrativos.


Tal classificação das reportagens é feita para efeitos didáticos. As reportagens não seguem, obrigatoriamente, esta estrutura. É comum vermos reportagens que misturam elementos das diferentes classificações. Já que cada tipo apresenta características que se complementam. A classificação é feita com base na predominância do texto, nas características que mais aparecem em detrimento de outras. Essa mistura e diversificação dos modelos textuais enriquece o texto da reportagem e os repórteres usam esta ferramenta para tornar o seu relato mais interessante, mais movimentado ou para garantir mais credibilidade às informações.


2.3 O repórter


O repórter é a figura mais emblemática do jornalismo. É ele o mediador entre a realidade do jornal, que pode ser uma guerra do outro lado do mundo ou um acidente de trânsito em uma avenida próxima, e o leitor. Algumas vezes ele assume o papel de porta-voz, outras vezes é investigador, pode ser testemunha ou ainda participante das reportagens que produz. Isabel Travancas caracteriza assim o repórter:


Pelas suas tarefas diárias, que vão desde a apuração dos fatos à redação da notícia, ele pode ser visto como um cidadão do mundo: um profissional que atravessa fronteiras e tem acesso livre a quase todos os lugares, dos meios oficiais aos marginais e perigosos (TRAVANCAS, 2002, p.25).


Na história recente a técnica de redação jornalística sofreu mudanças nos processos de trabalho. Ocorreu uma segmentação de funções, como uma linha de montagem. Neste período, acreditava-se que o repórter deveria apenas apurar, o redator redigir, um outro jornalista para corrigir, o diagramador montar as páginas e o editor gerenciar todo o processo. Conforme Nilson Lage (2001) o papel do repórter moderno mudou: hoje, com os computadores, a responsabilidade do repórter cresce e se diversifica – ele não apenas deve apurar bem, mas formular seu texto como o melhor dos redatores e participar das tarefas de edição.


No centro da construção de uma reportagem está sempre o olhar do repórter. É ele que está onde o leitor, ouvinte ou espectador não pode estar. Ricardo Kotscho afirma: lugar de repórter é na rua, é lá que as coisas acontecem e a vida se transforma em notícia. Clóvis Rossi, no prefácio do livro de Kotscho, A Aventura da Reportagem, acrescenta que a tarefa do repórter é a mais fascinante e a mais difícil entre a de todos os jornalistas. Pois é ele quem persegue a tão sonhada verdade, que é quase sempre inatingível. Por isso, diz Rossi, o repórter deve buscar ‘a melhor versão possível da verdade’, já que é impossível alcançá-la completamente. E para executar essa tarefa acrescenta:


Exige-se muito mais transpiração do que inspiração. Mais esforço físico do que o intelectual. Exige que se gaste a ponta do dedo telefonando para todas as pessoas que possam dar ao menos um fragmento de informação. Exige que se gaste a bunda nos sofás das ante-salas das autoridades, na espera de que elas atendam o repórter e lhe dêem mais um pedacinho de informação. Exige que se gastem as pernas e as solas dos sapatos andando atrás de passeatas, comícios ou fugindo da polícia (KOTSCHO, 1990, p. 10).


Os repórteres têm uma função que os permite ser os ouvidos e os olhos distantes do público, selecionando e transmitindo o que considerarem interessante. E devem ter os olhos bem treinados: muita gente olha e não vê os detalhes que acabam formando fragmentos vitais de uma reportagem. De acordo com Lage:


O processamento mental da informação pelo repórter inclui a percepção do que é dito ou do que acontece, a sua inserção em um contexto (o social e, além desse, toda informação guardada na memória) e a produção de uma nova mensagem que será levada ao público a partir de uma estimativa sobre o tipo de informação de que esse público precisa ou quer receber. Em suma, o repórter, além de traduzir, deve confrontar as diferentes perspectivas e selecionar fatos e versões que permitam ao leitor orientar-se diante da realidade (LAGE, 2001, p.22-23).


No Brasil, encontramos em Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio, o precursor da reportagem. Cronista da cidade do Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Letras, João do Rio era um intelectual e deu uma contribuição enorme no trabalho de aproximação do repórter com os fatos narrados. Nos textos de João do Rio encontramos os tipos sociais que representam a humanização característica da reportagem que se mantém até os dias de hoje, a descrição de costumes e de situações que criam a reportagem de contexto e traços retrospectivos que anunciam a reportagem de reconstituição histórica. Liráucio Girardi Júnior aponta ao se referir a Paulo Barreto:


A grande inovação, no caso, não foi somente fazer da literatura uma espécie de jornalismo, mas, do jornalismo, reportagem. João do Rio teria sido um dos pioneiros da observação direta, saindo da redação para as ruas, valendo-se da entrevista, do inquérito (GIRARDI JR, 2000, p. 202).


Portanto, a capacidade de observação é um princípio fundamental na elaboração da matéria. Segundo Liráucio Girardi Jr. esta observação pode ser simples ou participante. Na observação simples o jornalista não tem qualquer tipo de contato direto com a pessoa ou realidade a ser relatada. Já na observação participante o repórter se insere na realidade que é alvo de sua reportagem, como uma favela ou um grupo hippie. Neste tipo de observação alguns profissionais, enquanto executam seu trabalho, revelam de início sua identidade, outros preferem manter o anonimato, pois acreditam que assim terão um relato mais verdadeiro. Os modos de observação serão detalhados de forma mais completa no seguimento deste trabalho.


Para transmitir informações e interpretar os fatos o repórter costuma se utilizar de dados descritivos das situações ou acontecimentos, da reconstrução de diálogos ou opiniões produzidos através de entrevistas e apuração de outros documentos como fotos, cartas, diários, tudo isso buscando a veracidade das informações. Por isso o compromisso com a objetividade, a relação com as fontes e a verificação de todos os dados são tão importantes no trabalho de reportagem. Para aqueles que consideram o jornalismo um serviço de utilidade pública, estes critérios são imprescindíveis. Nilson Lage comenta sobre este desafio, ainda mais difícil na atualidade:


Aí, o que prevalece é a convicção de que se pretendem realmente servir ao público, observando os fatos da perspectiva que interessa a esse público, repórteres não podem se limitar a reproduzir discursos de poder cada vez mais unilaterais e até mesmo cínicos – mera expressão de interesses. […] O que é necessário é fornecer ao público informação objetiva que consulte suas necessidades e desejos (LAGE, 2001, p. 144-145).


Philip Meyer, em seus livros, defende que o número de habilidades necessárias para a formação de um repórter vem crescendo e que os critérios tradicionais que valorizam o amor à verdade, a disposição física e a habilidade de escrever são insuficientes na era da informação:


O mundo tornou-se tão complicado, tão intenso o incremento da informação disponível, que o jornalista tem que ser alguém que cria e não só transmite, um organizador, e não só um intérprete, alguém que junte os fatos e os torne acessíveis. Além de saber como redigir informações de imprensa ou como contá-las nos meios audiovisuais, deve descobrir como fazê-las chegar a mente de seu público. Em outras palavras, o jornalista tem agora que ser um administrador de dados acumulados, processador e analista desses dados (MEYER apud LAGE, 2001 p.142).


Na era da internet todos os tipos de informação estão à disposição de um número cada vez maior de pessoas. Se as mídias tradicionais omitem algum fato do público, este acontecimento chegará ao conhecimento das pessoas através da rede. Este quadro, ao contrário do que se poderia imaginar, não enfraquece o papel do jornalista ou do repórter como elo de ligação entre a sociedade e as informações. Kovach e Rosenstiel (2004) ressaltam que embora o jornalista não decida mais o que o público deve saber, é ele que o ajuda a por em ordem e dar sentido à avalanche de informações recebidas. Isso não significa somente acrescentar interpretação ou análise a uma reportagem. Para eles, a primeira tarefa de jornalista e ‘explicador’ é checar se a informação é confiável e organizá-la de forma que o leitor possa compreendê-la.


2.4 Fontes


Poucas matérias no jornalismo são construídas baseadas apenas no relato do próprio repórter. A maior parte dos jornalistas recorre às fontes para dar acrescentar informações, explicar o fato e dar mais credibilidade ao que está sendo dito na reportagem. A relação do repórter com as fontes sempre foi alvo de estudo dentro do jornalismo. A crença de que para manter uma fonte é preciso agradá-la, prejudica muito o trabalho jornalístico. Este tratamento pode agredir a verdade ou parte dela. Jornalistas amigos das fontes podem receber informações privilegiadas ou ainda levá-las a defender o seu ponto de vista. Segundo Kovach e Rosenstiel:


Os jornalistas que selecionam as fontes para expressar o que na verdade é o seu próprio ponto de vista, e depois usam a voz neutra para que tudo pareça bem objetivo, estão trapaceando. Isso prejudica a credibilidade da profissão ao fazê-la parecer sem princípios, desonesta e preconceituosa (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p.117).


Conforme tais autores a melhor forma de ser honesto com o público é usando o máximo de transparência. Informando o porquê de tais fontes serem escolhidas para participar da matéria e comunicando caso alguma citação ou algum fato tenha sido reconstituído. É preciso muito jogo de cintura para que não se fique tão distante das fontes a ponto de perder a informação e nem tão próximo que signifique deixar de publicá-la. Para Nilson Lage, a melhor forma de agir em relação à fonte é prestar atenção o máximo do tempo e interferir o mínimo possível nas declarações. A relação repórter-fonte deve ser cordial e correta. É uma relação de troca, mas o que deve ser trocado é apenas informação, nada mais. Este autor classifica as fontes em três grupos, cada um deles com características específicas.


O primeiro deles é formado pelas fontes oficiais, oficiosas e independentes. As oficiais são mantidas pelo Estado, por empresas ou organizações. Este tipo de fonte é tido como o mais confiável e dificilmente seus dados são contestados. Isso representa um alerta para os repórteres já que muitas vezes, estas fontes mentem. Os objetivos que levam as fontes oficiais a distorcer ou inventar fatos são variados: interesses políticos, benefício de grupos dominantes, corporativismo, militância.


Fontes oficiosas são aquelas que, embora sejam reconhecidamente ligadas a uma entidade ou indivíduo, não estão autorizadas a falar em nome dele e podem ser desmentidas. Essas fontes geralmente defendem interesses particulares e são protegidas pelo anonimato. Por isso, merecem atenção já que podem veicular boatos. Fontes independentes são aquelas que não possuem relações de poder ou interesses específicos com o assunto tratado na matéria.


O segundo grupo é composto pelas fontes primárias e secundárias. Fontes primárias são aquelas que fornecem fatos, versões e números, o essencial para a reportagem. As fontes secundárias são procuradas para a construção da pauta, para busca de informações genéricas, de contexto ou enfoque para matéria, fornecem informações acessórias.


E, finalmente, o último grupo composto pelas testemunhas e experts. As testemunhas, como o nome indica, são aquelas fontes que presenciaram fatos ou acontecimentos. Com estas fontes o repórter deve ter o cuidado de perceber de que ‘lado’ do fato as testemunhas estão. Um relato de um conflito é visto de ângulos diferentes pelas pessoas, depende de que lado elas estão. Da mesma forma que a marcação de um juiz esportivo é interpretada de maneiras diferentes pelos torcedores de times adversários. Costuma-se afirmar que o testemunho mais exato é o mais imediato. Segundo Lage (2001), um bom princípio é só confiar em histórias contadas por três fontes que não se conhecem e nem trocaram informações entre si. Já os experts são fontes secundárias com grande conhecimento em uma área específica. São especialistas e é sempre recomendado que se ouça mais de um, já que podem apresentar diferentes versões e interpretações para os mesmos acontecimentos ou fenômenos.


2.5 Métodos de apuração


Que métodos usar na construção de suas reportagens é a questão mais importante enfrentada pelos jornalistas que recolhem a informação, interpretam e a transmitem ao público. Qual a melhor forma de se aproximar da verdade e como revelá-la as pessoas é um desafio perturbador. Kovach e Rosenstiel falam sobre este exercício de busca:


Mesmo não dispondo de nenhum código sobre o assunto, os jornalistas funcionam apoiados em algum tipo de método, altamente pessoal, para testar e fornecer a informação – sua própria disciplina individual de verificação. Essa disciplina consiste, entre outras práticas, em procurar várias testemunhas de um fato, descobrir novas fontes, indagar sobre os vários lados de uma questão (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p.112).


Embora a imprensa seja um campo com uma história antiga, ainda não conseguiu desenvolver um sentido profissionalismo no que se refere à questão dos métodos de investigação. Walter Lippman (apud KOVACH e ROSENSTIEL, 2004) em 1919 já apresentava preocupação a respeito deste caráter amador que os métodos jornalísticos adquirem. ‘Não importa que as notícias não sejam suscetíveis a um princípio matemático. Na verdade, justamente porque as notícias são complexas e escorregadias a boa reportagem exige o exercício das mais altas virtudes científicas’ (LIPPMAN apud KOVACH e ROSENSTIEL, 2004, p.116).


A noção de apuração para uma reportagem é feita de várias maneiras pelos jornalistas. Muitos desenvolvem suas próprias estratégias para verificar fatos e informações, o fazem por conta própria ou pelo que aprenderam com colegas já que em sua formação acadêmica isto não foi desenvolvido. Kovach e Rosenstiel (2004) afirmam que embora a profissão tenha desenvolvido várias técnicas e convenções para determinar os fatos, pouco tem feito para desenvolver um sistema para testar a confiabilidade da interpretação jornalística. Para estes autores o debate da objetividade jornalística deve girar em torno dos métodos e não dos jornalistas. Os métodos é que precisam ser objetivos, como são os métodos científicos. A isenção e o equilíbrio, sob esse ponto de vista, são técnicas para ajudar os jornalistas no desenvolvimento e verificação de seus relatos. A melhoria da qualidade da verificação é o passo mais importante que os jornalistas podem dar para aprimorar a qualidade da informação que disponibilizam ao público. Para Nilson Lage:


Jornalistas não são sacerdotes nem se espera que sejam militantes de causa alguma. Dessa não-militância é que resulta sua competência moral para o desafio. Devem desenvolver uma persona profissional tal que – a despeito de crenças e valores pessoais, compromissos de classe e de cultura – possam registrar os fatos e as ideias do nosso tempo com honestidade, concedendo à fonte o direito de ser como é e ao público o direito de escolher de que lado ficar (LAGE, 2001, p. 170).


Na etapa de captação ou de apuração de dados para a construção de uma matéria os jornalistas, seguidamente, aproximam-se da sociologia. Isabel Travancas (2002) afirma que: ‘jornalistas e antropólogos estão o tempo todo vivenciando em suas práticas profissionais o papel de mediadores […], estes dois profissionais estão intermediando relações entre diversos grupos e categorias sociais’ (p.26). Na apuração das reportagens, são utilizados métodos de pesquisa semelhantes aos utilizados pelos sociólogos. A observação direta, a capacidade de descrição de comportamentos, a reconstrução de acontecimentos e a entrevista são alguns deles. Estes métodos permitem uma tentativa de interpretação de realidades, construção de identidades e experiências culturais. Liráucio Girardi Jr. afirma:


Na grande reportagem, que não deixa de ser um apressado trabalho de campo, o repórter pode transformar-se em um ‘etnógrafo’ de sua própria sociedade ou dos diversos grupos e acontecimentos que ela comporta. Situações e histórias de vida que transformam homens e grupos sociais em outros, aqueles que nos causam espanto, atraem nossa ira ou curiosidade por serem diferentes, imersos em um mundo sobre o qual temos pouca informação […] (GIRARDI JR, 2000, p. ).


A coleta de dados realizada através da descrição do local, das pessoas, das situações e ocorrências cotidianas ou episódicas, a reconstrução de diálogos ou opiniões captados através de entrevistas, e o levantamento de outros tipos de documentos, exigem do repórter um verdadeiro trabalho de campo, no qual ele se vale de métodos etnográficos. Todavia, em suas reportagens, a aventura do repórter pelos campos da etnografia enfrenta alguns obstáculos, que são na verdade limitações inerentes à natureza da profissão. Enquanto a etnografia busca a predominância da descrição, o jornalista busca acima de tudo a narração.


O teor do texto também é distinto, sociólogos geralmente escrevem para outros sociólogos ou técnicos especializados. Já o repórter escreve para a massa de leitores do seu veículo. O texto da reportagem tem por características ser atraente ao maior número possível de leitores, apresentar uma situação ‘dramática’ e ser um relato humanizado, marcado pelas impressões do narrador que é testemunha dos fatos ou participante deles. Já o texto da etnografia tem caráter acadêmico e costuma retratar com distanciamento as realidades, antropólogos não escrevem para o público em geral e sim para seus colegas.


Para Isabel Travancas, as diferenças começam pela escolha do objeto. Segundo ela, o antropólogo em princípio desfruta de uma liberdade de escolha maior que a do repórter. Seu objeto de pesquisa é definido a partir de interesses intelectuais seus. Já o jornalista não tem está liberdade de opção, a decisão da produção da matéria é de responsabilidade do chefe de reportagem ou editor. Por isso, a cobertura feita pelo repórter é, de certa forma, alheia à sua vontade e isso resulta em uma interação com o assunto diferente da desenvolvida pelo antropólogo. E completa:


Tanto os antropólogos como os leitores de jornal querem saber o que pensam e dizem os entrevistados, os informantes, aqueles envolvidos diretamente com o acontecimento. Não é à toa que os manuais de jornalismo enfatizam tanto a questão de que, em toda notícia, é preciso ouvir os dois lados. Para o antropólogo, ele é um desses lados. O outro é o informante, o ‘nativo’ (TRAVANCAS, 2002, p.32).


A observação, alicerce da reportagem, é uma das ferramentas antropológicas de muita importância para os jornalistas, é nas impressões obtidas na etapa de observação que o repórter baseia seu texto. Este método pode se manifestar de diversas maneiras, de acordo com o grau de integração que o pesquisador (no caso, o jornalista) estabelece com o objeto estudado. A observação é considerada participante quando o observador estabelece um grau de participação dentro dos grupos observados de modo a reduzir estranhezas mútuas. Essa forma de captação ganhou força a partir da década de 1960, nos Estados Unidos, através do movimento conhecido como new journalism. Os representantes desta corrente acreditam que para retratar uma realidade é preciso envolver-se totalmente com ela. A observação participante se caracteriza, pois, pelo ato dos jornalistas de mergulhar nos acontecimentos e situações, repórteres tentando viver e sentir na pele as circunstâncias e ambientes, em que se inserem seus personagens. Ou seja, para retratar a vida em uma aldeia indígena, por exemplo, o repórter passa a ser membro da tribo.


Neste tipo de observação o registro dos hábitos cotidianos, costumes, maneiras, os modos de vestir ou de decorar a casa, o comportamento pessoal, a relação com os mais novos, mais velhos, com os superiores ou com os subordinados, enfim, todo o universo de valores simbólicos adquirem muita relevância na interpretação de uma realidade. O objetivo do jornalista é encontrar-se com o universo que tem que cobrir, misturar-se com ele, penetrá-lo até onde for possível, para captar pelos pensamentos, emoções e razões, a vida que o compõe e que só é possível retratar na medida em que se envolva com ela. Pois acredita que apenas a convivência íntima por um período médio de tempo pode permitir que conheça verdadeiramente uma cultura específica e seus significados que muitas vezes não estão de acordo com o seu.


Isabel Travancas alerta para que a observação participante não se transforme em ‘participação observante’. Isso acontece quando um pesquisador ou jornalista se engaja tanto no trabalho que acaba se tornando porta-voz daqueles que está estudando, deixando de lado seu compromisso profissional e ético. Não se pode esquecer, por mais que haja envolvimento emocional, que os fatos e dados são objetivos e soberanos.


Este método poderia ser melhorado na prática da reportagem, entretanto, a pressa e a prisão ao imediatismo geralmente são obstáculos enfrentados nesta etapa demorada do processo de captação. A observação intensa, demorada, torna-se quase impraticável no modelo de jornalismo exercido hoje em dia. Sobre isso Edvaldo Pereira Lima afirma:


[…] grandes profissionais do jornalismo acabam, por intuição, experiência, vivência do dia-a-dia das coberturas, adquirindo habilidade elogiável na prática da observação. Com certeza, essa prática pode ser aperfeiçoada se, ao lado da experiência construída sob suor e a urgência da captação imediata, acontecer uma absorção, pelos profissionais da imprensa dos métodos e dos recursos utilizados pelas ciências sociais (LIMA, 1993, p.78).


Antes de partir para o trabalho de campo, aconselha Girardi Jr., o repórter deve fazer um planejamento do trabalho que vai realizar. Segundo o autor, a observação controlada é fruto de um trabalho planejado, no qual o observador determina com clareza qual o objeto a ser estudado, como será estudado e que meios serão utilizados para alcançar seu objetivo.


A entrevista é o método mais utilizado pelos jornalistas na busca de informações. De acordo com Nilson Lage, a entrevista é o procedimento clássico de apuração de informações em jornalismo. É uma extensão da consulta as fontes, objetivando, geralmente a coleta de interpretações e a constituição de fatos (LAGE, 2001, p.73). Ainda segundo este autor, a entrevista é definida como uma conversa de duração variável com personagem notável ou portador de conhecimentos ou informações de interesse para o público. No momento da entrevista o repórter é o representante do público, seu papel é de criar identificação com o entrevistado, mas, ao mesmo tempo, manter um distanciamento crítico consciente.


Nilson Lage traz uma classificação bem abrangente dos tipos de entrevistas que os jornalistas podem realizar, são elas: ritual, temática, testemunhal e em profundidade. Veremos sucintamente as características de cada uma delas e seus objetivos. A entrevista ritual é breve, o mais importante é o entrevistado e não exatamente o que ele tem a dizer. Entrevistas com atletas após as competições, artistas após ganharem um prêmio, ou celebridades antes do show, têm essas características. Tais entrevistas têm valor simbólico e o que mais interessa é o ambiente, o clima, os trajes, atitudes e podem revelar desvios ou falhas de protocolo.


Já a entrevista temática aborda um tema específico e supõe-se que o entrevistado tenha autoridade para falar sobre ele. É formada por versões ou interpretações de acontecimentos. Serve para munir o jornalista e o público de informações que ajudarão na compreensão de um problema, para expor um ponto de vista ou reafirmar um argumento. A entrevista testemunhal busca o relato do entrevistado sobre algo que ele acabou de ver ou participar. É o ponto de vista do entrevistado sobre o fato, com sua descrição, interpretação e impressões subjetivas a cerca de determinado acontecimento.


Entrevistas em profundidade são aquelas que pretendem entrar no mundo do entrevistado. Tendem a abordar diversos aspectos de sua vida ou sua atividade para construir um perfil ou ensaio do personagem baseado em seus próprios depoimentos. A forma de realização das entrevistas também varia muito conforme a circunstância. Na entrevista de confronto o repórter faz afirmações, baseadas em provas, das quais o entrevistado tem que se defender. O jornalista atua como um promotor de um julgamento. De acordo com a competência do repórter e do entrevistado a entrevista pode se tornar constrangedora ou instigante.


Nas entrevistas coletivas, que geralmente são programadas, o entrevistado responde a perguntas de diversos jornalistas, de diferentes veículos. Geralmente são realizadas com os principais personagens de algum evento importante, antes da estréia de um espetáculo, depois de uma final esportiva, após a apresentação de uma decisão governamental. Este tipo de entrevista limita-se justamente pelo grande número de entrevistadores, não existindo possibilidade de retorno para contestar a resposta de uma pergunta.


A entrevista ocasional é o oposto da coletiva, visto que não é programada. O entrevistado é questionado sobre algum assunto e, por não estar preparado ou ter pensado previamente, tende a dar respostas mais sinceras. A exceção são os políticos ou pessoas muito acostumadas a serem abordadas pela imprensa que já possuem respostas prontas e planejadas para estas ocorrências.


Já a entrevista dialogal é a entrevista em seu ápice. Marcada com antecedência, reúne entrevistado e entrevistador em ambiente preparado. Ambos desenvolvem uma conversa, que evolui a partir de questões formuladas pelo jornalista, mas que não se limitam a elas. É possível um detalhamento e aprofundamento dos assuntos abordados.


Existem também entrevistas não-presenciais, realizadas através de telefone ou e-mail. São limitadas, porque em uma entrevista se concreta vai muito além do que é dito. Nos encontros presenciais temos o retorno imediato do entrevistado, seus gestos, seu tom de voz, sua expressão facial, tudo isso comunica tanto quanto a fala. Essas impressões ajudam a compreender o entrevistado, o grupo ao qual pertence e as lógicas de sua cultura. O fato de o entrevistado não querer responder a uma pergunta, por exemplo, pode dizer muito sobre sua visão de mundo. Através do aparelho telefônico ou da internet estas impressões ficam fortemente comprometidas.


Para realizar uma entrevista tranquila e com resultados satisfatórios, o repórter que é o condutor do diálogo deve ambientar o entrevistado e estabelecer um contato cordial. É necessário também que o jornalista tenha um conhecimento prévio do teor da entrevista, para que saiba perguntar e argumentar com seu interlocutor. Alguns entrevistados, acostumados a palestrar, costumam ter discursos prontos e padronizados. Nestes casos é importante que o repórter conteste ou aprofunde o que esta sendo dito, buscando mais espontaneidade. Outro ponto importante é manter o controle da conversa, impedindo fuga do tema ou perda do foco. O profissional da imprensa deve também adotar uma atitude discreta, com compreensão e respeito, sem demonstrações de impaciência ou descontentamento, já que a estrela da entrevista é o entrevistado.


O repórter também precisa demonstrar segurança para não ser intimidado por entrevistados exaltados. Saber a hora de encerrar a entrevista também é importante, especialmente nas que são transmitidas ao vivo por rádio ou televisão. Nilson Lage traz a ideia de Gordon Pask, teórico moderno da conversação humana, que afirma que quando entrevistador e entrevistado chegam a um consenso quanto ao que o interlocutor está dizendo é hora de parar. Na avaliação de uma entrevista é importante considerar o conteúdo do que foi dito e a personalidade do entrevistado. E para que ela consiga cumprir seu objetivo é preciso editá-la de forma justa, mostrando o que a entrevista de fato foi e não como gostaríamos que tivesse sido.


No jornalismo impresso a entrevista pode ser tratada como notícia. Neste tipo de apresentação a notícia é construída a partir das falas mais importantes do entrevistado, começando daquela mais importante para a menos relevante e intercalando estas frases com dados ambientais, genéricos, de forma a contextualizar a fala do entrevistado. Outra maneira que pode ser utilizada para publicar um entrevista em um impresso é semelhante a empregada em revistas ou cadernos especiais. Nesta prática o repórter faz afirmações que são confirmadas pela fala dos entrevistados, como em um perfil. Este tipo de apresentação exige habilidade no texto e um bom volume de informações complementares.


Mais uma variação na maneira de apresentar a entrevista é através de perguntas e respostas diretas, como um questionário. Segundo Nilson Lage, este método embora pareça mais fácil e fiel ao relato tem suas armadilhas, em função das adaptações que precisam ser feitas ao texto:


Em primeiro lugar, a entrevista deve ser transcrita – de uma fita de áudio, por exemplo, ou, mais raramente (em geral são depoimentos longos), de registros da memória – e isto já é um trabalho maçante. Depois, cuida-se de traduzir a fala pra o texto escrito, o que envolve supressão de redundâncias, repetições e a explicação de pausas do discurso que só tem sentido no contexto, quando se combinam, por exemplo, com expressões faciais (LAGE, 2001, p.85-86).


Este importante método de captação que é a entrevista vem sofrendo algumas críticas que contestam seu processo de execução e seus resultados efetivos na tarefa de auxiliar a compreensão do real. Dulcília Schroeder Buitoni (apud LIMA, 1993, p. 74-75) afirma que se não é aplicável o esquema de perguntas e respostas programadas, o repórter acha que não está diante de um fato jornalístico, pois não acredita que haja perguntas e respostas que ele não conheça. Essa limitação dos repórteres, que trabalham apenas com narrativas fechadas e probabilidades conhecidas, aumenta muito a pobreza de conhecimento do fato e a entrevista perde sua função.


Já Cremilda Medina (apud LIMA, 1993, p.75) aponta como um obstáculo à entrevista o dirigismo e a burocracia com que os profissionais de comunicação cumprem suas tarefas. Segundo ela, na maior parte das vezes, o repórter impõe um ritmo de pauta à entrevista e acaba condicionando as respostas, fazendo com que o entrevistado seja conduzido a declarar isso ou aquilo. O roteiro das entrevistas, que é elaborado e ensaiado pelo jornalista, acaba tirando o espaço do improviso, da espontaneidade e prejudica o entrevistado na expressão de seu pensamento ou comportamento. Alguns repórteres agem de forma desinteressada, preocupando-se em cumprir a pauta e sem prestar atenção no que de fato esta sendo dito ou mostrado pelo seu interlocutor. Agindo desta forma os jornalistas perdem uma ferramenta valiosa que quando bem conduzida contribui muito para elevar o nível do jornalismo que temos.


O jornalista se comunica com o leitor através da fala de personagens e acontecimentos reais, o repórter é, portanto, uma ponte que reproduz o que foi dito ou o que aconteceu, não inventa, não decide e tampouco deve pensar pelo entrevistado. Uma boa forma de verificação é colocar-se no lugar do leitor e imaginar o que pensaria se descobrisse que gastou dinheiro para comprar um jornal ou revista e tempo lendo uma reportagem construída com base em distorções do real.


A captação envolve também a documentação, que abrange a coleta, o exame, a classificação e o uso dos dados registrados disponíveis nos diversos meios de informação. Segundo Pereira Lima (1993) o jornalismo brasileiro alcançou um bom nível na prática da documentação, pois as grandes empresas produtoras de informação conseguem reunir, em seus departamentos de pesquisa, um grande volume de informações sobre os mais diversos assuntos, oriundas de diversas fontes como livros, trabalhos acadêmicos, dado estatísticos, filmes, documentários, documentos oficiais, etc. Este material é uma base de apoio importante do repórter no desenvolvimento de reportagens de profundidade. É necessário, entretanto, o cuidado no momento de interpretar os dados. É preciso juntar fatos isolados a acontecimentos globais, estabelecer correlações e atribuir sentidos, atentando para todos os ângulos do tema.


Para consultar documentos os jornalistas precisam ter algumas noções de arquivamento, já que a pesquisa em grandes acervos pode ser um processo complicado. Compreendendo como as informações estão organizadas, o repórter ganha tempo e mantém o foco de sua pesquisa. Nilson Lage (2001) afirma que complicada ou não a pesquisa é a base do melhor jornalismo, entretanto, as empresas jornalísticas não costumam incentivá-la devido aos custos e ao tempo de produção elevado. As condições operacionais do jornalismo cotidiano não permitem que os repórteres se detenham em pesquisas mais aprofundadas, o que, sem dúvida, prejudica a qualidade do jornalismo.


É aconselhável que na construção de uma reportagem o jornalista avalie quais são os melhores métodos de captação a utilizar e use o maior número possível de variações, para poder confrontar dados, versões, entrevistas e assim chegar mais perto de seu objetivo que é retratar e compreender uma realidade ou situação. A tecnologia tem prejudicado o desenvolvimento de novos métodos de captação e verificação. Com a internet os jornalistas têm acesso a matérias, declarações, entrevistas sem que façam o trabalho de captação. Muitas vezes os fatos relatados por outros veículos são lidos, reescritos e reaproveitados sem que novas informações ou versões sejam descobertas e acrescentadas, o que faz com que dados falsos sejam repassados sem a devida verificação e propagados de tal forma, que não são contestados nem pela imprensa nem pelos cidadãos. Neste caso o jornalismo esta prestando um serviço negativo à sociedade.


Para Kovach e Rosenstiel a transparência deve ser o princípio dos métodos jornalísticos e das ações do repórter. Informar público sobre as fontes e formas de captação utilizados, sobre o que sabemos, o que não sabemos, como estamos tentando descobrir pode ajudar a superar e corrigir problemas de credibilidade do que se diz. Adotar uma atitude transparente também demonstra o respeito da imprensa pelo público, já que dá a ele ferramentas para julgar o trabalho realizado, sinceridade e transparência são as melhores formas de se prevenir contra enganos das fontes:


Na ciência a confiabilidade de um experimento, ou sua objetividade, se define pelo fato de se alguém pode ou não reproduzir o experimento. No jornalismo, só explicando como sabemos o que sabemos é que podemos fazer com que o público possa, queira, reproduzir a informação. É isso que significa objetividade de método na ciência ou no jornalismo (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 128).


É preciso ser rigoroso no momento da captação, exaustivo na busca de provas, exigente na apuração dos detalhes, rígido no confronto de informações. Não se pode trabalhar com fatos isolados, a realidade não funciona assim e se quisermos auxiliar o leitor na tarefa de entendê-la devemos buscar o fio condutor que interliga os acontecimentos. No próximo capítulo trataremos sobre o Haiti, país que serviu de cenário para as reportagens que iremos analisar no decorrer deste trabalho.


3 Haiti: uma nação em construção


O Haiti, nome que significa ‘terra alta’ ou ‘montanhosa’, é um país de contrastes. Ao mesmo tempo em que foi a segunda colônia da América a separar-se de sua metrópole em 1804, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, permanece atrasado do ponto de vista econômico e humano. Localizado na ilha de São Domingos, no arquipélago das Grandes Antilhas, tem seus 27.700 km de extensão fazendo fronteira ao norte com o oceano Atlântico, ao sul e ao leste com o mar do Caribe e ao leste com a República Dominicana. São Domingos foi descoberta em 1492, por Cristóvão Colombo que a chamou na época de La Espanhola, o território da ilha corresponde hoje ao Haiti e a República Dominicana.


A história do Haiti começa com a ocupação dos franceses, que se fixaram na parte ocidental da ilha, ainda no século XV. A colonização propriamente dita iniciou-se no reinado de Luis XIV. Foi este rei francês que, em 1670, autorizou o livre tráfico negreiro da África para as colônias francesas na América, a atividade rapidamente assumiu grandes proporções. Conforme dados da Enciclopédia Mirador Internacional, em seu auge, o tráfico negreiro trazia ao Haiti cerca de 20 a 30 mil escravos por ano, vindos de todo continente africano. Primeiramente sob domínio espanhol, mais tarde cedida a França a região da ilha onde está o Haiti apresentava na época da Revolução Francesa (1789) mais de quinhentos mil escravos, para uma população livre que não alcançava oitenta mil pessoas.


As revoltas promovidas pelos escravos eram comuns desde o século XVII. Buscando fugir da severa repressão e das péssimas condições de vida, os negros refugiavam-se nas montanhas e sobreviviam atacando até mesmo as fazendas de seus antigos senhores. Ficou a cargo de Jean Jacques Dessalines, antigo escravo e analfabeto, mas com visão estratégica e liderança, comandar a guerra que resultou na sonhada independência, conquistada em 1804. Dessalines tornou-se o primeiro imperador do Haiti. Governando de modo tirânico e enfrentando sérias dificuldades econômicas que assolavam o país em razão dos anos de lutas contínuas, Dessalines acabou assassinado em 1806. Depois dele, muitos imperadores e mais tarde presidentes sucederam-se no poder. A maior parte deles foi deposto ou assassinado por movimentos revolucionários. Nenhum deles conseguiu vencer as barreiras quase intransponíveis do subdesenvolvimento e da pobreza da maior parte de sua população. O Haiti vive em crises políticas permanentes e já sofreu intervenções americanas e de outros países. Desde 2004, o Exército brasileiro, nomeado pela Organização das Nações Unidas (ONU), está em território haitiano em missão de paz, como trataremos de forma mais completa no próximo item.


O país apresenta território montanhoso e cerca de dois quintos da área total têm altitude superior a 490m. As serras, que se alternam com planícies férteis, mas excessivamente populosas, cortam o país em regiões. Este país se parece em muito com o Brasil, não só pelos contrastes ou pela alegria de seu povo, mas também porque sua vegetação é composta de árvores como o pinheiro, a palmeira-real, o mogno e o pau-brasil – árvore que dá nome ao nosso país. E as semelhanças vão além, como aqui, o Haiti tem graves problemas com a exportação intensiva de madeira e o desmatamento para o cultivo, que levam a quase total extinção das árvores. A predominância de terrenos montanhosos restringe a navegação fluvial.


O povo haitiano é praticamente todo formado por negros descendentes dos 480 mil escravos que, ainda no início do século XIX, conquistaram a independência. Conforme a Enciclopédia Barsa (2000), os mulatos não chegam a ser cinco por cento da população e os brancos formam uma minoria absoluta. O idioma oficial é o francês, herança da colonização, mas a língua que mais se ouve é o créole, uma mistura de francês com palavras africanas, herança dos escravos.


A maior parte da população é rural (51%), e no campo as condições de vida são mais fáceis, já que as cidades são superpovoadas e com uma infra estrutura muito precária. Os índices de natalidade e mortalidade são altos e a expectativa de vida é baixa, em torno de sessenta anos. A densidade nas cidades chega a 364 hab/km, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. A população urbana em sua imensa maioria vive em assentamentos precários e bairros degradados. A maioria dos haitianos sobrevive da agricultura ou da pesca. Mas o desmatamento crescente prejudica as lavouras em função da erosão do solo.


A agricultura de subsistência, bem menos desenvolvida do que a comercial, é formada principalmente por milho, arroz e batata-doce. O principal produto cultivado é o café, seguido da cana-de-açúcar, outra similaridade com o Brasil. As principais indústrias são a de transformação de alimentos e de fabricação de cimento e calçados. Assim como a economia brasileira, a economia haitiana está concentrada na mão de uma pequena minoria, que controla os meios de produção e as exportações. Este país, que já foi considerado a mais rica colônia francesa, apresenta atualmente a balança comercial altamente deficitária e índices de inflação elevados. E, como boa parte do mundo, depende economicamente dos Estados Unidos.


A população haitiana se declara, em sua maior parte, católica. Na prática a crença mais praticada é o vodu, mistura de culto católico com rituais africanos. Ainda na época da escravidão este culto foi perseguido e manteve-se na clandestinidade. A verba destina a educação é insignificante e o número de analfabetos é muito alto. Existe apenas uma universidade, que fica na capital – Porto Príncipe. Mais de 80% dos universitários deixam o país e partem para exercer a profissão em outro lugar – não há mão-de-obra qualificada.


Como todo país de raízes africanas, por força de sua origem, a cultura haitiana conserva traços do patrimônio cultural negro – expressos através da música, culinária, religião, tradições. Entretanto, a influência francesa, devido à colonização é também muito presente nas demonstrações culturais e artísticas dos haitianos.


Apenas 62% dos mais de dez milhões de haitianos são alfabetizados e mais de 58% estão na faixa de subnutrição. Em 2001, 53% das pessoas ganhava menos de um dólar por dia. O número de computadores é de 0,19 para cada 100 habitantes. Para se ter uma ideia no Brasil o número de computadores é de 16 para cada 100 e nos Estados Unidos é de 76 para cada 100 habitantes. A mortalidade infantil é de sessenta para cada mil nascimentos. Viver no Haiti nunca foi uma tarefa muito fácil e como veremos adiante, pode ficar ainda pior.


3.1 O trabalho brasileiro no Haiti


Nos últimos 20 anos o povo do Haiti, que já sofre com graves dificuldades econômicas e sociais, vem sendo vítima de problemas políticos como ditadura, golpe militar, violência, repressão, denúncias de corrupção. Para tentar pacificar o país e auxiliar no seu desenvolvimento, a ONU nomeou o Brasil como chefe de missão de paz – A Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). É a primeira vez que o Exército brasileiro chefia uma missão da ONU.


Desde 2004, ano do início da missão, mais de sete mil militares brasileiros já passaram pelo país. Neste ano o então presidente, Jean Bertrand Aristide, que foi o primeiro presidente eleito democraticamente na história do país (em 1990) sofreu um golpe quatro anos após ter retornado ao governo pela segunda vez. Em 2004, Aristide, que é ex-padre da igreja católica, foi retirado do Haiti contra a sua vontade por tropas dos Estados Unidos e exilado na África do Sul, após uma tentativa de golpe. O país que já sofria com graves problemas virou um caos, em estado de guerra civil, com a ação de diversos grupos armados. Para tentar restabelecer a ordem e auxiliar o desenvolvimento do país a ONU instaurou uma missão no território haitiano com o objetivo de pacificar o Haiti. O Exército brasileiro foi declarado chefe das tropas das Nações Unidas que contam com militares de mais de vinte países.


O Brasil, além de militares levou a seleção brasileira de futebol para realizar um jogo da paz na capital, Porto Príncipe. A missão não é apenas de caráter militar, os brasileiros ajudam na construção de escolas e obras de infra estrutura, levam água a locais onde ela não chega, retiram o lixo que bloqueia as estradas. O objetivo dos mais de mil e trezentos militares, que o Brasil mantém desde o início da missão no Haiti, é colaborar na reconstrução física e institucional do país, contribuindo nas áreas de segurança, engenharia e saúde. Estabelecer o respeito aos direitos humanos e organizar um processo eleitoral democrático também são atribuições dos militares. Combater gangues, rebeldes e grupos armados que mantêm conflitos permanentes e atormentam a população é um dos maiores desafios da missão.


Em 2006, o presidente René Garcia Préval foi eleito, com auxílio da missão das Nações Unidas garantindo a segurança do processo. Além de militares de diversos países a missão conta com voluntários e policiais. Os brasileiros conquistaram a simpatia e o carinho do povo local. Através de reportagens e depoimentos de quem integrou a missão percebe-se que os brasileiros representavam a esperança de dias melhores para os haitianos. Até o ano de 2010 tropas internacionais permaneciam trabalhando no Haiti, o país alcançava a estabilização política, a incerteza e sensação de insegurança da população diminuíram muito. A luta pela justiça social permanecia difícil, a maior parte do povo haitiano está desempregada ou trabalha em subempregos. Entretanto, os problemas sociais estavam sendo, ainda que muito lentamente, amenizados. Até que no dia doze de janeiro de 2010, a natureza resolveu colocar mais obstáculos nesta história.


3.2 O terremoto de 12 de janeiro de 2010


O dia 12 de janeiro de 2010 ficará marcado para sempre na história do Haiti. Foi neste dia que o país, já paupérrimo, foi devastado por um terremoto de 7.3 graus na escala Richter. O tremor de terra deixou à deriva as esperanças de um país e um povo que, aos poucos, tentava se levantar de décadas de sofrimento e atraso. A capital Porto Príncipe, maior cidade do país, foi a área mais atingida. O Palácio Nacional, sede do governo, e prédios de ministérios, escolas, hospitais e as residências da população subitamente transformaram-se em escombros e pó. Com a força de trinta bombas atômicas o tremor não podia acontecer em lugar pior: atingiu o centro de uma nação que ainda aprendia a se desenvolver.


O terremoto também foi sentido na República Dominicana, país vizinho ao Haiti. O tremor foi o maior desastre natural ocorrido em duzentos anos de história do país. O Haiti já estava acostumado a sofrer com os furacões, mas nunca havia presenciado tamanha destruição. A catástrofe deixou os haitianos totalmente isolados, sem comunicação nenhuma – nenhum telefone, nem internet ou outro meio de comunicação funcionaram após o terremoto. Com estradas inacessíveis e sem sinalização o já caótico trânsito haitiano parou por completo, o único meio de vencer os destroços é caminhar. Apenas no dia após a tragédia alguns serviços de telefonia começaram a operar precariamente. O mundo rapidamente tomou conhecimento do desastre ocorrido no país caribenho e muitos planos de ajuda humanitária começaram a ser organizados por diversos países. Demonstrações de solidariedade as incontáveis vítimas e ao país, totalmente arrasado, brotaram em todas as partes do mundo.


O terremoto de 10 segundos foi suficiente para matar milhares de pessoas. Estimativas lançadas logo após o abalo anunciavam de 30 a 50 mil mortos, com o passar do tempo esse número não parou de aumentar. Militares brasileiros, que serviam à missão de paz da ONU, também foram vítimas fatais da tragédia. O Brasil chorou ainda a perda de Zilda Arns, de 75 anos, médica fundadora da Pastoral da Criança, que no momento do terremoto estava no Haiti para levar o seu nobre trabalho ao país – combater a mortalidade e a subnutrição infantil. O trabalho de Zilda incluía apoio às gestantes, controle de doenças e prevenção, remédios caseiros, projetos de geração de renda e alfabetização de adultos – muito do que o povo haitiano precisava para vencer suas dificuldades. Zilda foi, por três vezes seguidas, indicada ao prêmio Nobel da Paz e morreu como uma mártir. Dentre os militares brasileiros vitimados no Haiti, alguns já preparavam o retorno para o Brasil que seria feito na semana posterior ao acontecimento do abalo.


Logo após o primeiro tremor de terra, foram sentidos mais duas oscilações com intensidade de cinco pontos na escala Richter. Em função da posição geográfica, os terremotos são frequentes no Haiti, mas a grande maioria dos tremores não é sequer percebida por seus habitantes, devido à baixa intensidade.


Aviões com alimentos, água potável e medicamentos chegaram ao Haiti durante os dias que se sucederam ao terremoto, vindos de diversos países. O Brasil, que já realizava trabalho de auxílio ao país, foi uma das nações que mais contribuiu na ajuda às vítimas. Mas a estabilização e a pacificação que as tropas da ONU conseguiram, após um trabalho de seis anos, estabelecer na região foram totalmente esquecidas. A luta pela sobrevivência e a total falta de qualquer recurso, levou o país de volta ao caos. Saques ao raro comércio que restou, luta por um pouco de alimento, água, por atendimento médico transformaram o país em uma terra sem lei.


A maior parte da população vivia em favelas, habitando residências de estrutura frágil. Por isso, a imensa maioria delas perdeu sua moradia. Relatos da imprensa enviada à capital Porto Príncipe, foco da tragédia, informaram que multidões de haitianos vagavam nas ruas, em meio aos escombros, sem ter o que fazer ou para onde ir. Nem ao menos se tinha um local para enterrar os mortos que também permaneciam soterrados ou expostos nas ruas fazendo com que o cheiro carne em decomposição tomasse conta do local. Cenas de barbárie como saques e tiroteios eram frequentes, na tragédia sobrevivem os mais fortes. O presídio central de Porto Príncipe desmoronou, resultando na fuga de diversos presos.


Equipes de emergência, médicos, bombeiros especialistas em resgates, aparelho de emergência, policiais e muito dinheiro para auxiliar na reconstrução além de alimento e água chegaram ao Haiti, vindos das mais diversas nações. Voluntários do mundo inteiro se solidarizaram e seguiram de forma independente para o país para ajudar no trabalho de ajuda as vítimas. A solidariedade do mundo foi proporcional ao tamanho da tragédia.


A imprensa de todos os continentes esteve presente através de jornalistas e enviados especiais que contaram à população mundial o drama haitiano. Segundo eles, nada parecia amenizar o sofrimento do povo local. Os jornalistas, totalmente envolvidos pela situação, muitas vezes, ajudaram no resgate das vítimas. A imprensa local foi dizimada junto com o resto das instituições do país. As notícias sobre o terremoto foram todas originadas de jornalistas estrangeiros.


Relatos da jornalista Lilia Telles, enviada ao Haiti, em entrevista ao Jornal da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) demonstram o drama vivido pelos jornalistas na cobertura do terremoto: em dado momento Lilia Telles teve que escolher entre acompanhar o resgate de uma vítima que ela tinha encontrado sob os escombros ou seguir para o local onde eram feitas as gerações para a televisão que segundo a repórter era muito longe e de difícil acesso. Na mesma entrevista, Lilia Teles compara a cobertura do desastre que abateu o Haiti a uma cobertura de guerra (TELLES, 2010).


Totalizando 250 mil mortos e mais de 1.5 milhão de pessoas afetadas, o governo haitiano afirma que 15% da população do país foi vítima da tragédia. Cerca de 500 mil pessoas ficaram desabrigadas apenas na capital, e passaram a viver em acampamentos improvisados em meio a corpos em decomposição, sem comida, água ou medicamentos. A violência que tomou conta das ruas e a situação caótica de Porto Príncipe provocou o êxodo de milhares de sobreviventes para o interior do país ou países estrangeiros. Ir embora foi a solução encontrada por muitos daqueles que perderam o pouco que tinham. Estima-se que os danos totais tenham alcançado US$7,8 bilhões, R$13 bilhões, valor correspondente a mais de 120% do PIB do país em 2009. Dados comparáveis, senão piores, aos de uma guerra.


Quase três meses após o início da campanha de apoio financeiro às vítimas do terremoto do Haiti, a Caixa Econômica Federal (CEF) já recebeu cerca de R$ 3,6 milhões em doações de brasileiros. O governo brasileiro e os cidadãos brasileiros nunca ajudaram tanto um país como ajudaram e, ainda ajudam, o Haiti. A cobertura da imprensa tem grande papel nesse resultado, pela visibilidade que concedeu aos haitianos.


Hoje, alguns meses depois do terremoto, a ONU afirma que o Haiti retrocedeu dez anos em sua luta contra a pobreza. A porcentagem de haitianos que vive em estado de extrema pobreza e miséria após o tremor de terra, alcançou 71%. Taxa similar a registrada há quase uma década. O trabalho de reconstrução é lento, a situação do povo ainda é precária. A grande maioria vive em alojamentos nas praças da cidade. O Haiti foi esquecido pela imprensa, que pouco ou nada fala sobre o assunto após alguns meses passados da tragédia. A construção e consolidação do Haiti como uma nação beiravam os duzentos anos e ainda não estavam concluídas. Abatido por tal tragédia, o país tenta lentamente se reconstruir com e se recuperar das perdas. A tarefa é longa e difícil: reconstruir um país desde os alicerces. Em silêncio e sem figurar nas primeiras páginas dos jornais, o trabalho dos haitianos continua.


4 Metodologia


4.1 Análise de conteúdo


A análise de conteúdo é um método das ciências humanas e sociais destinado à investigação dos fenômenos simbólicos por meio de várias técnicas de pesquisa. Neste trabalho adotaremos a concepção de Wilson Correa da Fonseca Júnior sobre o tema. Esse método tem demonstrado grande capacidade de adaptação aos desafios da comunicação atual. Os primeiros registros de uso da análise de conteúdo datam do século XVIII, quando a corte suíça analisou uma coleção de noventa hinos religiosos anônimos, com o objetivo de encontrar ideias nocivas.


Entretanto, a adoção deste método em pesquisas só veio ocorrer de forma usual no início do século XX, sendo utilizado em diversas áreas de conhecimento. Aplicado às ciências políticas, a análise de conteúdo das propagandas nazistas permitiu que armas secretas alemãs fossem descobertas. Na literatura, permitiu definir os traços característicos do estilo de cada autor. No campo dos fenômenos comunicacionais, o método permitiu a comparação das posturas adotadas por diferentes jornais em período eleitoral (KIENTZ,1973).


Conforme Fonseca Jr., embora a análise de conteúdo possa ser aplicada a diversos segmentos do conhecimento, seu valor como método de pesquisa já oscilou entre período de grande reconhecimento – como na Segunda Guerra Mundial – e desqualificação, principalmente na década de 1970, entre pesquisadores marxistas. Para estes pesquisadores, a origem positivista do método não permite o estabelecimento de uma aproximação crítica e ideológica suficiente dos meios de comunicação de massa. Com o surgimento e a popularização da internet, nos anos 1990, o acesso aos arquivos de jornais, rádio e televisão ficou muito mais acessível, fazendo com que o interesse pelas técnicas de análise de conteúdo, principalmente as elaboradas através do computador, despertasse novamente o empenho dos pesquisadores.


A origem positivista pode ser facilmente constatada na definição clássica do método análise de conteúdo, de Bernard Berelson, que institui como : ‘uma técnica de pesquisa para a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação.’ (BERESOL apud FONSECA JUNIOR, 2006, p.282). Tal descrição vai ao encontro dos ideais positivistas, formulados por Augusto Comte, de valorização das ciências exatas. Segundo o positivismo até mesmo a vida social deve ser analisada de forma rígida, linear e metódica, baseada em dados verificáveis. Esse método se consolidou nos Estados Unidos, na primeira metade do século XX, como uma oposição a análise de texto, método vigente, mas considerado excessivamente subjetivo. Em 1950, o número de estudos que utilizavam análise de conteúdo já ultrapassava os cem por ano.


Os trabalhos iniciais em análise de conteúdo surgiram impulsionados pelo crescimento do jornalismo sensacionalista americano. Este fenômeno foi o alvo de análise das escolas de jornalismo daquele país que adotaram o exame quantitativo dos periódicos como critério de objetividade científica. Através da medida do tamanho dos títulos, dos artigos, do posicionamento das matérias na página, tais escolas apontavam o grau de sensacionalismo dos textos produzidos pela imprensa. O método foi adotado também em trabalhos europeus, principalmente na França, e latino-americanos. Na América Latina a difusão ampla da análise de conteúdo é atribuída ao Centro Internacional de Estudos Superiores de Jornalismo para América Latina (Ciespal), através da introdução dos estudos de jornalismo comparado.


Segundo Fonseca Jr, inspirados pelos trabalhos de análise de conteúdo aplicados a comunicação de massa, diversos outros tipos de conhecimento passaram a incluir este método em suas técnicas de pesquisa. Na comunicação, até a década de 1950, a atenção dos pesquisadores permaneceu voltada para a opinião pública e à propaganda política, tendo o método análise de conteúdo alcançado seu ápice durante a Segunda Guerra Mundial, com pesquisas patrocinadas pelo governo americano para revelar propaganda subversiva nazista. Passado este período o método entrou em crise, mas apesar da descrença, a análise de conteúdo já havia conquistado vantagens se comprada à análise quantitativa dos jornais, como cita Fonseca Jr: incorporação de marcos teóricos e adesão de cientistas sociais importantes; definição de conceitos específicos como estereótipo, estilo, valor, propaganda; aplicação de ferramentas estatísticas precisas e a incorporação de dados oriundos da análise de conteúdo em trabalhos de maior envergadura.


A crise serviu para que o método incorporasse novas contribuições. O aspecto excessivamente quantitativo que levava apenas descrição foi substituído pela inferência que pode ser baseada ou não em indicadores quantitativos. Para a análise de conteúdo a inferência é, como relata Fonseca Jr, considerada uma operação lógica que tem por objetivo extrair conhecimentos sobre aspectos ocultos ou subentendidos da mensagem analisada. Através da análise o pesquisador pode deduzir de maneira lógica, ou seja, inferir informações sobre o emissor ou o destinatário da mensagem. Ao voltar-se para os aspectos indiretos ou subjacentes das mensagens, o uso da inferência contribui para diminuir a influência do positivismo na análise de conteúdo. Temos então uma nova definição do método análise de conteúdo elaborada por Krippendorff: ‘a análise de conteúdo é uma técnica de investigação destinada a formular, a partir de certos dados, inferências reproduzíveis e válidas que podem se aplicar a seu contexto’ (KRIPPENDORFF apud FONSECA JUNIOR, 2006, p.284).


Atualmente, a análise de conteúdo é uma técnica que oscila entre a análise voltada para a parte quantitativa e a análise qualitativa, de acordo com os objetivos e os interesses do pesquisador. Mesmo que a inferência e seu caráter qualitativo tenham adquirido a adesão dos pesquisadores, a importância dos números não diminuiu. A introdução do computador na análise de conteúdo, com programas de informática específicos, é um dos fatores que indicam o interesse que a análise quantitativa segue despertando. Ocorre também a junção da análise de conteúdo com outras técnicas de investigação, de acordo com os objetivos do trabalho.


O primeiro manual sobre análise de conteúdo foi elaborado por Berelson e Lazarsfeld em 1948. Esta publicação, que traz os fundamentos conceituais do método já passou por diversas revisões. Apesar da diversidade de abordagens, Fonseca Jr. (2006) afirma que é possível construir um referencial básico sobre os principais fundamentos da análise de conteúdo. A seguir vamos expor estes conceitos.


Com relação ao perfil, o método da análise de conteúdo trata da análise de mensagens, assim como a análise de discurso e a análise semiológica. Entretanto a análise de conteúdo diferencia-se das demais porque cumpre os requisitos de sistematicidade e confiabilidade. O primeiro requisito, sistematicidade, se traduz em um conjunto de procedimentos que podem ser aplicáveis a todo o conteúdo da análise. O segundo, confiabilidade, significa que o método permite que pesquisadores diferentes, aplicando separadamente categorias iguais às mesmas mensagens, possam chegar às mesmas conclusões.


Na visão de Krippendorf (apud FONSECA JUNIOR., 2006, p. 286) a análise de conteúdo atual possui três características fundamentais: orientação fundamentalmente empírica, exploratória, vinculada a fenômenos reais e de finalidade preditiva; transcendência das noções normais de conteúdo, envolvendo as ideias de mensagem, canal, comunicação e sistema; metodologia própria, que permite ao investigador programar, comunicar e avaliar criticamente um projeto de pesquisa com independência de resultados. A análise de conteúdo é mais aplicada a mensagens escritas ou impressas. As pesquisas com mensagens sonoras ou audiovisuais ainda são pouco expressivas.


Ainda segundo Krippendorf (apud FONSECA JUNIOR., 2006, p. 287-288) a análise de conteúdo deve considerar alguns referenciais. O primeiro deles são os dados. Os dados são os elementos básicos, primários da análise de conteúdo e formam a superfície que o pesquisador deve penetrar. Portanto, é preciso deixar claro que dados estão sendo analisados, como eles foram definidos e de qual população foram extraídos. O segundo ponto a ser considerado é o contexto dos dados. Os discursos são construídos dentro de um contexto, por isso os dados não podem ser analisados isoladamente. É importante deixar claro o contexto dos dados, que precisa ser definido de acordo com convenções e problemas práticos de cada área do conhecimento. Uma mensagem pode ser interpretada de formas diferentes sob o enfoque da psicologia, sociologia ou política, por exemplo.


O conhecimento do pesquisador também influencia seu texto, construindo um contexto dentro do qual serão realizadas suas inferências. Deste modo, é relevante que o pesquisador mencione os pressupostos formulados por ele sobre a relação dos dados e seu contexto. Quanto ao objetivo, toda análise de conteúdo deve enunciar claramente a sua finalidade ou o objetivos de suas inferências. O objetivo do trabalho deve ser definido antes da pesquisa ser iniciada para que se possa fazer a escolha adequada do material a ser analisado.


A tarefa primordial de toda análise de conteúdo é relacionar os dados obtidos com aspectos de seu contexto, produzindo inferências sobre determinada realidade estudada. Embora a análise de conteúdo exista em função da falta de provas diretas sobre os fatos analisados, que são objeto de inferências do pesquisador, é necessário que se estabeleça critérios para a validação e confiabilidade dos resultados, para que outras pessoas possam comprovar se os resultados são realmente exatos.


4.2 As etapas de pesquisa


O método análise de conteúdo é resultante do apoio de diversos autores. A pesquisadora Laurence Bardin (apud FONSECA JUNIOR, 2006, p. 288-303) definiu cinco etapas para a aplicação do método: organização da análise, codificação, categorização, inferência e tratamento informático.


Na fase de organização da análise, temos definidas as três etapas cronológicas do trabalho. Na pré-análise acontece o planejamento geral da pesquisa, relacionando as ideias iniciais com o desenvolvimento das demais operações de análise. Na fase de posterior, exploração do material, temos a análise propriamente dita, com processos de codificação baseados em regras anteriormente definidas. Na última etapa cronológica temos o tratamento dos resultados obtidos e interpretação, que nada mais é do que interpretar os resultados brutos da análise fazendo com que se tornem significativos e válidos.


Das três fases a etapa de pré-análise é considerada a mais importante, pois é a que serve de base para as etapas seguintes. Uma pesquisa mal formulada no início, na etapa de organização e pré-analise, pode se tornar impraticável. A pré-analise engloba a escolha de documentos a serem analisados, a formulação de hipóteses e objetivos e a elaboração de indicadores que fundamentem os argumentos utilizados na etapa de interpretação.


É na etapa de pré-análise que o pesquisador deve definir seu objetivo de pesquisa, que é o ponto de partida do trabalho. Toda pesquisa nasce do desejo de compreensão do pesquisador de algum aspecto da realidade de acordo com algum método científico que pode ser análise de conteúdo ou outro. Conforme o objetivo da pesquisa será escolhido o método de análise, que são instrumentos de que se valem os pesquisadores para obter os resultados de seu trabalho. Na prática muitos autores fazem o caminho inverso, iniciam com os dados disponíveis para depois definir o objetivo de suas pesquisas.


Segundo Bardin (apud FONSECA JUNIOR, 2006, p. 290) o primeiro procedimento da análise deve ser a leitura flutuante. A leitura flutuante permitirá que o analista entre em contato com os documentos a serem analisados, conhecendo o texto e atentando para as suas impressões e orientações. Este processo permitirá a formulação do problema de pesquisa, a definição de objetivos do trabalho e a escolha do referencial teórico. Definições equivocadas nesta etapa podem comprometer o andamento do trabalho inteiro ou obrigar o pesquisador a efetuar reformulações.


O próximo passo, após a leitura flutuante, é a constituição do corpus. O corpus é a definição do conjunto de documentos a serem submetidos à análise. Para demarcação do corpus do trabalho, o analista deve seguir algumas regras. A regra da exaustividade estabelece que todos os documentos relativos ao assunto pesquisado, no período escolhido, devem ser considerados. A regra da representatividade, tem relação com a primeira e é utilizada quando o número de elementos ou documentos de interesse da pesquisa é tão grande que é necessário definir uma amostra. Nestes casos a questão central gira em torno da definição do tamanho da amostra. Para uma amostragem rigorosa é preciso que a amostra contenha uma parte representativa do todo. De acordo com os recursos financeiros, humanos e a disponibilidade de tempo o pesquisador poderá definir uma amostra maior ou menor.


É importante ressaltar que as decisões sobre a constituição do corpus também condicionam a ênfase da pesquisa (análise qualitativa ou quantitativa). Se o analista optar por analisar uma quantidade de material muito grande, terá que adotar procedimentos estatísticos para obter uma visão de conjunto, optando pela análise quantitativa. Neste caso ganha-se em abrangência, mas perde-se em profundidade. Para amostras menores, pode adotar a análise qualitativa que aprofunda o conteúdo, mas perde em abrangência.


A regra da homogeneidade define que os documentos obtidos devem ser de mesma natureza, mesmo gênero ou se reportarem ao mesmo assunto. O corpus não pode incluir, ao mesmo tempo, filmes, anúncios e notícias, por exemplo. Além disso, deve-se respeitar as subdivisões que documento de mesma natureza abarcam. Dentro do gênero jornalístico encontramos notícia, reportagem, artigos, editorias, ente outros, portanto devem existir também estes critérios de definição dentro do trabalho de pesquisa.


A última regra a se observar, a regra da pertinência, propõe que os documentos devem ser adequados aos objetivos da pesquisa: objeto de estudo, período de análise e procedimentos. De outra forma não produzirão resultados confiáveis e válidos.


Outra etapa de grande importância no trabalho de pesquisa é a codificação. A codificação é o processo de transformação dos dados brutos de forma sistemática e ordenada, segundo regras de enumeração, agregação e classificação, visando esclarecer o analista sobre as características do material selecionado. A codificação deve servir de elo entre o material pesquisado e a teoria do pesquisador. Para efetuar com êxito esta etapa é necessário que o autor tenha desenvolvido uma boa pré análise, com a definição do tema a ser pesquisado, e escolha de um referencial teórico, a formulação de hipóteses e objetivos e a escolha do corpus. A codificação compreende três fases: o recorte – onde é realizada a escolha das unidades de registro e de contexto; a enumeração – onde são definidas as regras de enumeração; e a classificação e agregação – escolha de categorias.


As unidades de registro são partes de uma unidade de amostragem que deve ser definida na etapa anterior – constituição do corpus. As unidades de registro podem apresentar diversas formas de acordo com a natureza dos documentos da pesquisa: podem ser palavras-chave de um discurso, personagens de um filme, reportagens de um jornal ou revista, anúncios de determinado meio de comunicação e etc. Já as unidades de contexto servem para que as unidades de registro possam ser compreendidas corretamente. Não se pode analisar as unidades de registro separadamente, isoladas de um contexto. O contexto influencia na compreensão de seu verdadeiro sentido.


Na fase seguinte, são definidas as regras de enumeração. Estas regras referem-se ao modo de quantificação das unidades de registro a ser adotado no trabalho, esta quantificação levará ao estabelecimento de índices.


O processo de codificação propriamente dito pode ser feito com papel e lápis ou através do uso do computador. Com papel e lápis o codificador registra os dados em folhas de codificação que depois de prontas são juntadas. Os registros são lançados no computador visando à análise de dados.


Terminada a codificação o trabalho segue para a categorização. A categorização é a classificação e reagrupamento das unidades de registro em um número reduzido de categorias, objetivando tornar compreensível a massa de dados. Os critérios de categorização podem ser semânticos (categorias temáticas), sintáticos (verbos, adjetivos), léxicos (classificação das palavras segundo seu sentido) e expressivos (categorias que classificam as diversas perturbações da linguagem). A categorização ainda envolve duas fases: o inventário e a classificação. O inventário consiste em isolar os elementos, já a classificação consiste em dividir os elementos, reunindo-os em grupos afins, de forma a impor organização às mensagens. A categorização também obedece a certos conceitos como: cada elemento só pode ser incluído em uma categoria, a categoria deve ser formada por elementos da mesma natureza, os procedimentos de classificação devem ser objetivos e um conjunto de categorias deve ser capaz de fornecer resultados, sejam eles inferências ou novas hipóteses.


Finalmente, depois de todo o processo descrito, a pesquisa chega à etapa da inferência. Este é o momento mais produtivo da análise de conteúdo, pois está centrado nos aspectos ocultos da mensagem analisada. É onde o analista revela o que sua análise foi capaz de evidenciar. Na comunicação este método é utilizado para demonstrar ‘[…] as variáveis psicológicas do indivíduo emissor, variáveis sociológicas e culturais, variáveis relativas à situação da comunicação ou do contexto de produção da mensagem’ (BARDIN apud FONSECA JUNIOR, 2006, p. 299). Desta forma, a análise de conteúdo fará a articulação entre o texto no sentido amplo e os fatores que determinam suas características.


Existem diversos processos e variáveis de inferências que podem ser agrupados em duas modalidades: específicas e gerais. Inferências específicas estão vinculadas à situação específica do problema investigado. Inferências gerais extrapolam a situação específica do problema analisado.


Desde 1950, a análise de conteúdo ganhou uma ferramenta importante: o computador. O desenvolvimento de programas (softwares) específicos para processamento de dados deu ao método um impulso muito grande. Sua utilização divide-se em três áreas: análises estatísticas – em que os dados são classificados, organizados, transformados e descritos por índices numéricos; auxílio nos estudos e descobertas – estabelece um panorama geral sobre o conteúdo de uma grande quantidade de material textual; análise de conteúdo por computador – com objetivo de representar algum aspecto do contexto social dos dados, ou seja, realizar inferências.


4.3 Apropriação do método


Ao longo deste trabalho, realizamos a conceituação de vários elementos do jornalismo, enfatizando a reportagem. Acreditamos ser a reportagem gênero do jornalismo que mais supre as funções a que um jornalista se propõe: informar com qualidade, realizar uma apuração rigorosa e contribuir para esclarecer o leitor acerca de diversos aspectos da realidade. Para entender como o jornalismo está lidando com estas atribuições iremos analisar a cobertura jornalística dada ao terremoto do Haiti pelas revistas Veja e Época.


Escolhemos o terremoto por ser um fato de proporções mundiais que ganhou muita visibilidade especialmente aqui, no Brasil. E por acreditar que é em momentos assim, de tragédia, que o jornalismo deve mostrar o seu valor. É neste momento que os jornalistas devem cumprir suas funções mais nobres e mais simples: prestar um testemunho dos fatos. Desvendar a forma como isso foi feito e se foi, de fato, bem feito, que aspectos foram mais valorizados em detrimento de outros é o nosso desafio neste trabalho.


A escolha das revistas foi motivada pelo destaque que deram ao fato, realizando uma cobertura no local do acontecimento. São duas revistas semanais de grande circulação em todo o país e que atuam há bastante tempo no mercado de imprensa brasileiro. Optamos por revistas por acreditar que elas trazem reportagens de mais qualidade do que as realizadas na cobertura feita pelos jornais diários, que tende a ser mais noticiosa e superficial.


Portanto, utilizaremos a análise de conteúdo como método de trabalho. Elencaremos categorias temáticas e teremos como corpus de análise todas as matérias publicadas sobre o Haiti nas edições da revista Veja de 20 e 27 de janeiro de 2010, e as publicadas na revista Época de 18 e 25 de janeiro de 2010. Nossa análise será qualitativa. As categorias escolhidas se dividirão em dois segmentos: categorias referentes às técnicas de reportagem e categorias referentes ao texto. As categorias que dizem respeito às técnicas de reportagem serão: narrativa (como aparece a figura do narrador, relato, perfil, descrição, explicação, argumentação, detalhamento, dramaticidade), as fontes (oficiais, testemunhas, experts), os métodos de apuração (observação, entrevista, pesquisa), o papel do repórter (suas impressões, seu posicionamento, seu trabalho mais distanciado ou participativo).


As categorias que dizem respeito ao texto foram eleitas através da leitura flutuante e representam os elementos mais importantes nas reportagens que, em nossa opinião, merecem destaque porque ilustram de maneira clara o que foi a cobertura da tragédia, são elas: o país e o povo, as vítimas brasileiras, a ajuda humanitária e o trabalho de reconstrução. Através do referencial teórico construído no capítulo 2, procuraremos inferências sobre como o jornalismo impresso agiu na cobertura desta tragédia, a maior de todas, de que forma a cobertura foi realizada. Enfatizar o drama humano ou os aspectos econômicos, políticos, sociais, culturais. Incentivar a solidariedade ou fazer sensacionalismo com a tragédia, informar com distanciamento ou elaborar um relato mais pessoal da situação, como realizar o trabalho de reportagem em condições tão adversas, são sobre estes aspectos que procuraremos nos debruçar através da análise das reportagens relacionadas a tragédia das revistas Veja e Época.


5 Análise


Retomando o que foi dito na introdução, identificar a forma como foi realizada a cobertura do terremoto do Haiti pelas revistas Veja e Época é o problema de pesquisa deste trabalho. O objetivo é descobrir que características de cobertura têm sido apresentadas pelas coberturas de momentos trágicos, justamente quando o jornalismo é tão necessário. Através da análise do trabalho do repórter, dos métodos de apuração utilizados na produção das reportagens, do tipo de narrativa, das fontes e da análise das categorias de texto queremos chegar às características da cobertura. Portanto, após o término da análise das reportagens da revista Veja, apresentaremos as características gerais de cobertura com a retomada dos pontos principais de cada matéria analisada e a análise da cobertura de uma forma total. A mesma coisa será feita com relação à cobertura da revista Época.


As matérias serão analisadas de forma conjunta e não através de tópicos, por acreditarmos que assim visualizamos melhor a análise da matéria como um todo, com todos os elementos que a compõem se complementando e não sendo vistos isoladamente. As categorias temáticas suas subdivisões serão marcadas em negrito para facilitar a visualização.


5.1 Revista Veja


A partir de agora seguiremos para a análise das reportagens publicadas pela Veja, atentando para as técnicas jornalísticas de produção das matérias e para as características do texto. Serão analisadas todas as matérias publicadas nas edições 2148 e 2149 a respeito do terremoto do Haiti . Será considerado para efeitos de análise apenas o texto principal de cada reportagem, caixas especiais de texto e outros elementos não serão objetos de análise.


5.1.1 O dia em que o mundo acabou (Veja, ed.2148, jan. 2010)


O texto da reportagem começa com a narrativa do repórter que descreve o momento do terremoto como a hora em que o mundo acabou no Haiti e ressalta que o pior é que por algum tempo os mortos viveram.


Quando o mundo acabou no Haiti, às 4 e 53 da tarde de terça-feira, o mais terrível foi que, por algum tempo, os mortos viveram. Com a força infernal de trinta bombas atômicas, o terremoto aconteceu no pior lugar possível. Seu coração de terrível poder, o epicentro, praticamente coincidiu com as ruas e encostas esquálidas de Porto Príncipe, a capital. Pouca coisa resistiu. Os casebres, os prediozinhos precários, os escassos edifícios imponentes. O topo da catedral, com suas duas torres, desapareceu. O arcebispo morreu. O congresso ruiu, com o presidente do Senado lá dentro. Hospitais, escolas, hotéis. Uma universidade inteira tragou 1000 viventes (p.65).


Neste trecho podemos notar que algumas comparações são usadas. Quando o repórter afirma que o terremoto teve a força de trinta bombas atômicas, ele usa a comparação para nos dar uma dimensão da tragédia. Quando diz que o terremoto aconteceu no pior lugar possível, já dá indiretamente ao leitor uma apresentação do país como um local sem infra estrutura, sem preparo técnico, sem recursos humanos e econômicos para arcar com tantos prejuízos. A descrição do local reforça essa visão através dos termos: ruas e encostas esquálidas, casebres, prediozinhos precários, escassos edifícios imponentes. As sentenças curtas, com uma ideia por frase dão a impressão de que os acontecimentos ocorreram em sequência e dão ritmo ao texto.


O texto segue passando ao leitor uma descrição que tenta abarcar um pouco de tudo que resultou da tragédia que abateu o Haiti, configurando um panorama geral, onde são citados vários acontecimentos, mas nenhum é tratado de forma mais detalhada.


No palácio presidencial, em pomposo estilo francês, foi como se uma foice gigante tivesse ceifado o prédio na horizontal, e ele se acomodasse alguns metros mais abaixo. ‘Estou andando sobre corpos’, disse Elizabeth Préval, a mulher do presidente, depois de escapar do choque mortífero que tudo engolfou. Zilda Arns, uma campeã da humanidade na luta para salvar crianças da desnutrição, não conseguiu escapar, da mesma forma que quase duas dezenas de militares brasileiros da força da ONU no Haiti. O prédio de cinco andares ocupados pelos funcionários da ONU também veio abaixo, com mais de 200 pessoas dentro, entre as quais o segundo no comando, o carioca Luiz Carlos da Costa (p.65).


Neste trecho a descrição prossegue, tentando contabilizar os prejuízos e a destruição. Aparece a primeira fonte utilizada pela matéria: a primeira-dama haitiana. As vítimas brasileiras são citadas, com destaque para a criadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns. As comparações continuam como quando o repórter compara o abalo sofrido pelo palácio presidencial a uma foice gigante e quando usa a expressão ‘choque mortífero’ para se referir ao terremoto.


No seguimento da matéria o repórter tenta estimar um número de mortos, mas em seguida diz que é um risco calcular. E usa a informação de uma fonte como resposta para confirmar seu discurso.


Quantos morreram? Talvez 50 000. Ou 100 000. Quem se arriscaria a calcular? ‘Inimaginavel’, definiu René Preval, o presidente sem teto – perdeu o palácio e a residência particular –, abrindo os braços, no meio da rua, perplexo (p.65-69).


Neste trecho notamos que as frases em forma de perguntas, transmitem a ideia de que são pensamentos do repórter. Como se ele estivesse se perguntando e tentando descobrir o número de vítimas de tal tragédia. O uso de outra fonte oficial, o presidente do Haiti, René Preval, responde as indagações que o repórter faz: ‘Inimaginável’. Ou seja, não há como afirmar, dado o tamanho do desastre. A caracterização do presidente como sem teto contribui para aproximá-lo da população que passa pelo mesmo problema e mais uma vez reforça a ênfase em demonstrar a dimensão da destruição causada pelo terremoto. Permite ao leitor pensar que nem as autoridades foram poupadas pelo tremor de terra, prova é que o presidente perdeu o palácio presidencial e sua residência particular. O exercício de observação do repórter pode ser percebido quando ele fornece detalhes da postura do presidente, no trecho ‘abrindo os braços, no meio da rua, perplexo’ – isto contribui para humanizar o relato e ilustrar o desespero de toda a população.


No seguimento da reportagem o repórter descreve cenas que presenciou e através da observação participante fornece ao leitor um relato bastante impressionista da situação.


Os vivos vagavam como almas penadas, sem ter casa pra onde voltar ou, tendo, sem coragem para entrar nela. Os que iam morrer pediam um socorro que não vinha. Na primeira noite os gritos eram muitos, constantes, lancinantes. Aos poucos foram diminuindo. ‘Hoje, quinta-feira, não escuto mais ninguém’, disse a Veja o coordenador de uma entidade assistencial, Jean Claude Fignole. ‘Os escombros ficaram em silêncio. Os que continuam vivos estão muito fracos para gritar. Alguns ainda estão com os celulares acesos’ (p.69).


O texto contendo as impressões do repórter transmite ao leitor o estado em que o país estava, a descrição das situações permite que possamos imaginar claramente as cenas e desperta um sentimento de piedade ou solidariedade com o drama vivido pelos haitianos. O uso de mais uma fonte, desta vez o coordenador de uma entidade assistencial é usado para é usado para ratificar o que afirmou o repórter. Sua última declaração, sobre os celulares é usada de gancho pelo repórter para mudar um pouco o enfoque da matéria.


Prosseguindo seu texto, o repórter fala sobre a total falta de comunicação que o terremoto causou, apenas alguns celulares continuaram funcionando. E de como alguns sobreviventes conseguiram transmitir pela internet, através do site Twitter, relatos sobre o caos que tomava conta do Haiti após o terremoto. O repórter descreve os relatos como doses dramáticas de concisão. Embora não seja explicado na matéria, o twitter permite que o usuário escreva frases com no máximo 140 caracteres por isso a expressão doses dramáticas de concisão. O repórter exemplifica o drama dos haitianos contado por eles mesmos com algumas frases que foram mandadas através do twitter.


Após isso a reportagem passa para outro eixo: a luta para salvar os que ficaram sob os escombros. Através, mais uma vez, da observação participante o repórter constrói sua narrativa, como um narrador em terceira pessoa.


Os sobreviventes só tinham as mãos nuas para tentar ajudar os soterrados. Se conseguiam arrancá-los aos escombros, não tinham como transportá-los – as ruas estavam obstruídas por destroços e carros abandonados na hora do pânico. Se os transportassem não tinham como socorrê-los: os hospitais estavam em ruínas. Se obtivessem, enfim algum socorro, faltava tudo. Feridos se alternavam com os que já haviam chegado mortos às poucas e precárias clínicas ainda abertas. Em frente ao necrotério, em total colapso, a mais dantesca das cenas: sobreviventes caminhavam na ponta dos pés, equilibrando-se sobre um tapete de mortos, tentando reconhecer parentes (p.69).


Neste trecho o repórter usa a narrativa para desenvolver seu raciocínio. Os fatos são descritos e organizados dentro de uma relação de tempo e de circunstância que mostram o tamanho das dificuldades que o povo enfrentava ao tentar socorrer as vítimas. Desta forma o repórter recria a realidade diante dos leitores. As palavras são claras, a ordem das frases permite uma facilidade de entendimento que atende aos preceitos do jornalismo. O uso de palavras com significados fortes com ‘dantesca, colapso, tapete de mortos’ auxilia na tarefa do repórter de relatar o que está vendo, conferindo à situação a dramaticidade que ela exige.


Na sequência a reportagem passa a informar aos leitores alguns dados da tragédia, oriundos de entidades como a Cruz Vermelha. E afirma que a situação do país é pior do que a guerra.


Nenhum país estaria preparado para enfrentar uma catástrofe do tamanho da que devastou o Haiti – pelas primeiras avaliações da Cruz Vermelha, cerca de 300 000 pessoas precisavam de absolutamente tudo, de abrigo a água e comida. Somando-se todos os afetados pelo desaparecimento do pouquíssimo que tinham, chegava-se a um número dez vezes maior. No total, um terço da população haitiana, uma proporção inconcebível até em tempos de guerra (p. 69-70).


O repórter, através da pesquisa, fornece dados e características sobre o país e o povo, contextualizando a tragédia dentro da realidade já trágica que o Haiti apresentava. O contexto, em situações como essa, é muito importante para que os leitores possam compreender de maneira abrangente e completa aquela realidade. Através da apresentação de características sociais e econômicas do Haiti, o repórter permite que as pessoas entendam de forma muito mais clara o porquê da condição do país após o tremor de terra ser tão terrível.


Habitualmente, o Haiti já vive em estado de emergência. A miséria é endêmica, a agricultura é de subsistência e a principal atividade econômica para as massas parece ser o microcomércio de rua. Descrever o Haiti como o país mais pobre das Américas – e o marco zero da AIDS também – não dá ideia aproximada da realidade. As peculiaridades da história haitiana descortinavam um futuro glorioso mas redundaram em promessas terrivelmente frustradas (p.71).


A partir deste ponto o repórter inicia a narração de uma retrospectiva que conta os principais fatos históricos do Haiti. A rebelião de escravos bem-sucedida que levou a independência, as crises governamentais, os golpes políticos. Ao fim deste trecho, o repórter completa com o panorama atual onde os jovens enxergam a fuga para o exterior como a única saída para buscar uma vida melhor.


[…]empurraram mais haitianos para a única saída, a fuga para o exterior, onde conseguem fazer o básico que seu país lhes nega: estudar e trabalhar, seja nos museus de Nova York, onde parecem formar uma sorridente corporação de guardas, seja nos hospitais do Canadá – há mais médicos haitianos em Montreal do que em Porto Príncipe (p. 71-72).


A partir disto a matéria entra em seu desfecho. O repórter conclui dizendo que a falência geral do Haiti resultou em uma intervenção estrangeira da ONU, liderada pelo Brasil. A narrativa final do repórter é como o desfecho de uma história trágica e o texto do jornalista lembra em certos aspectos o texto literário.


A missão (organizada pela ONU), honrosa em sua essência, com participação majoritária do Brasil, traduzida no número de baixas sofridas pelo Exército nacional, conseguiu certa estabilização. No Haiti, isso significava um estado ruim, mas menos desastroso do que seria se nada tivesse sido feito. Até que a maior de todas as catástrofes, produzida nas entranhas da terra, aconteceu. Das superstições criadas à sombra do vodu, a mais conhecida é sobre os vivos que trazem os mortos de volta para escravizá-los. São os zumbis. No dia em que o fim do mundo despencou sobre o Haiti, as fronteiras entre a vida e a morte, como na lenda, se afinaram. Como tudo o mais, o cemitério principal de Porto Príncipe entrou em colapso. Os corpos insepultos se acumulavam, famílias chegavam a pé carregando seus mortos e não tinham onde deixá-los. Estranhamente, o portão estava intacto. Sobre ele, a inscrição em francês : ‘Souvennons-nous que tout est poussière’. Tudo era mesmo poeira no Haiti (p. 73).


Podemos notar que o repórter acaba a matéria como começou. No início de seu relato ele conta que o mais impressionante no terremoto era que por algum tempo os mortos viveram. E no decorrer do texto não explica esta afirmação. Já no final da matéria ele retoma este caso, ao falar da crença do vodu, sobre vivos que trazem de volta os mortos. Vodu é uma mistura de culto católico e africano e é a religião predominante no Haiti. Isto não é dito na matéria. Supõe, o repórter, que o leitor já conheça este conceito. O jornalista fala em superstição e ressalta o fato de que apenas o portão do cemitério permaneceu intacto em meio aos escombros.


A inscrição em francês não é traduzida, o que prejudica a clareza já que nem todos os leitores conseguem compreender o francês. Mas sua última afirmação ratifica a inscrição em francês, o que faz com que mesmo aquele que não entenda a frase literal, possa ter uma ideia de seu significado.


Analisando as características que encontramos nesta reportagem, notamos que predomina é o relato informativo do repórter. Quanto às formas de captação notamos que a observação é o principal meio usado pelo jornalista. Durante todo o texto percebemos o olhar atento do repórter, o que torna o relato impressionista. A descrição das situações permite que as cenas consigam ser visualizadas pelo leitor. O uso da pesquisa histórica foi muito importante, pois contribuiu para a contextualização e para auxiliar na compreensão dos acontecimentos.


A narrativa é conduzida de forma dinâmica, mesclando diferentes aspectos como descrição de cenas, apresentação de dados, intervenções de fontes e comentários sutis do narrador. As fontes foram em sua maioria oficiais e aparecem de forma secundária no texto, o que leva a crer que a captação mais importante foi a observação direta. O texto é todo narrado em terceira pessoa, é objetivo e privilegia a informação, mas contém doses de inovação que é justamente o ponto de vista do repórter ao contar a história. O jornalista escolheu um ângulo criativo e pessoal para enxergar os fatos (ressaltando o aspecto do sofrimento humano onde os mortos agonizam) que prende o leitor ao texto.


A reportagem apresenta o vocabulário rico e um texto fluente que também contribuem para uma leitura mais prazerosa. O desfecho, como já falamos, assemelha-se a linguagem literária. Como se o jornalista estivesse terminando de relatar um conto de terror com a retomada da questão inicial dos mortos vivos, permitindo ao texto um fechamento original que dá a ideia de ciclo: uma ideia inicial é lançada sobre o acontecimento, o texto percorre vários aspectos do mesmo assunto dando um panorama geral e pertinente do ocorrido, e encerra explicando aquela primeira ideia, como o fechamento de um círculo.


5.1.2 Diário do Desastre (Veja, ed.2148, jan. 2010)


Esta matéria como o próprio título sugere é um relato pessoal do repórter Diego Escosteguy, enviado pela Veja a Porto Príncipe.


Escrevo este relato no chão de Porto Príncipe, a cidade que acabou e agora recende a morte e o sofrimento. À minha frente está o outrora Hotel Villa Créole – na verdade, metade dele. A parte que resta está servindo como ambulatório para tratar feridos do terremoto. O cheiro pútrido dos corpos que se estendem pelas ruas e jazem nos escombros obriga-me a usar máscara cirúrgica. Não adianta muito: a náusea é inevitável. A cada cinco ou dez minutos, ouço o barulho dos helicópteros que chegam e se vão – espera-se, aqui em baixo, que carreguem comida e água, tudo o que os haitianos mais precisam neste momento. Esse é um doce som. Há um bem pior, que ressoa desde que cheguei aqui, no começo da manhã: são os gritos agudos de dor que partem do ambulatório e da calçada, onde feridos padecem, sem anestésicos nem esperança, ao lado de voluntários abatidos pela impossibilidade de fazer mais e pela certeza de que nada além da morte aguarda esses infelizes abandonados à própria sorte (p. 74).


A narrativa desta reportagem é toda construída em primeira pessoa. É o repórter, enviado para o local da matéria, contando o que está presenciando. O principal método de captação é a observação participante. Através de seu relato o repórter vai transmitindo aos leitores detalhes da realidade, impressões, sentimentos e descrições detalhadas das cenas. O repórter cita através dos helicópteros e dos voluntários a ajuda humanitária que foi enviada de todas as partes do mundo para socorrer os haitianos. Sobre esta ajuda o jornalista fornece um relato mais completo no trecho a seguir:


Eu e o fotógrafo Gilberto Tadday pousamos de helicóptero num aeroporto inteiramente ocupado pela solidariedade do mundo: havia aviões americanos, franceses, espanhóis, mexicanos. Do lado de fora, o caos. Haitianos gritavam por ajuda, por notícias dos familiares. Em alguns já se notava raiva – e não mais desespero (p.74).


Seguindo o relato descritivo da destruição que presenciou logo na chegada a Porto Príncipe, Diego comenta um fato que lhe chamou atenção e que até então não tinha sido mencionado na cobertura que a revista Veja apresenta do fato: a violência. O repórter descreve as cenas que viu andando pelas ruas da capital arrasada. Pode-se notar que o jornalista assume o papel de testemunha dos fatos.


Não é difícil compreender por que já começam a se perceber tumultos nas ruas. No que costumava ser um posto, vimos uma briga por galões de gasolina. A frustração está dando lugar à fúria. Chega-se rápido à violência. ‘Ninguém vem nos ajudar. Precisamos de tudo para sobreviver’, diz, revoltado, Adolph Fanfan, de 25 anos. Ele perdeu um irmão, um tio e uma prima (p.74).


Neste trecho aparece a primeira fonte, que é testemunha e vítima do terremoto. Seu discurso revoltoso mostra uma faceta nova do acontecimento, a visão daqueles que não aceitam o que aconteceu, aqueles que castigados pela dor recorrem à violência. O relato do repórter segue com ele contando sua chegada à perigosa região onde Zilda Arns, a mais comentada das vítimas brasileiras, estava no momento do tremor. Ele descreve a situação em que encontrou a igreja onde Zilda dava uma palestra e ressalta o fato de terem sobrado apenas alguns bancos e uma solitária imagem de Jesus Cristo no altar. Após a descrição, o jornalista narra seu encontro com voluntários que estavam no local.


Encontrei quatro voluntários tentando levantar os grossos pedaços de concreto, sem nenhuma ferramenta – e sem sucesso. Perguntei o que procuravam. ‘Cerca de 20 pessoas’, respondeu um deles. A força terrível do cheiro de corpos decompostos paira sobre tudo. Estava lá o seminarista Bourgouin Meltone, um articulado jovem de 28 anos. Ele conhecia Zilda Arns. ‘Eu conversava com ela aqui’, diz Meltone, olhando para a torre de tijolos. ‘Ela era uma pessoa iluminada.’ O seminarista estava em outra paróquia quando o terremoto começou. O arcebispo Joseph Serge Miot morreu ao lado dele. Conta o haitiano: ‘Corri para cá e ajudei a retirar alguns sobreviventes. Era tarde para ela’ (p.75).


Neste trecho, a entrevista com testemunhas é utilizada como fonte de informações sobre o que aconteceu antes de Zilda Arns morrer e o modo como ela morreu. Com o seu trabalho na Pastoral da Criança reconhecido mundialmente, Zilda foi uma grande perda para o Brasil e sua história foi muito comentada pela mídia. Na sequência deste trabalho ainda analisaremos uma reportagem específica sobre ela. Seu nome aparece em praticamente todas as matérias publicadas no Brasil sobre o terremoto no Haiti.


No desfecho da matéria o jornalista ainda relata seu encontro com outro haitiano que buscava por sobreviventes em uma escola, na mesma rua em que Zilda Arns morreu.


O que era possível fazer com as mãos, os haitianos já fizeram. ‘Sem equipamentos, não temos como fazer mais nada, mais nada’, diz Tol Polyte Wolking, um estudante de 23 anos. Ele teve sorte. Seu casebre resistiu à força dos tremores. Mas ele ainda procura vítimas na rua onde Zilda Arns morreu. Além da igreja, havia uma moradia para seminaristas e uma escola infantil. Ao nos aproximarmos da escola, Polyte retirou sua camiseta vermelha, molhada de suor, cobriu o nariz com ela e apontou para a pilha cinza de tijolos. ‘Lá’, murmurou o haitiano, falando para si mesmo, ‘eles ainda estão lá dentro’. Pouco antes de terminar este relato, a terra tremeu mais uma vez. Um haitiano me disse: ‘O senhor tem que sair daqui. O resto do hotel pode desabar’. Levantei-me e fui embora, tentando não olhar pra trás (p.75).


Analisando esta matéria, o que salta aos olhos é que ela é um relato pessoal do repórter. É um texto construído em primeira pessoa, com o narrador protagonista. O repórter mescla descrição com diálogos que ele estabeleceu com os nativos do Haiti. O relato é detalhista e privilegia o ambiental do local da tragédia. As fontes são todas testemunhas do fato, estavam em Porto Príncipe no momento do terremoto, e falam do que aconteceu e de suas dificuldades. O testemunho delas contribui para a humanização do relato. A brasileira Zilda Arns, também recebe destaque e o local onde ela estava antes de morrer é descrito pelo repórter. Um haitiano fala sobre sua relação com a vítima brasileira.


Nesta reportagem evidenciamos o repórter totalmente imerso na realidade de Porto Príncipe, dialogando com os haitianos, fazendo da observação participante e da entrevista seus principais meios de construção da matéria. As sensações autorais, experimentadas pelo repórter, são relatadas no texto, como a náusea que o cheiro dos corpos em decomposição provoca. As condições precárias de produção e o risco a que o jornalista está exposto são percebidos no início do relato quando ele afirma estar sentado no chão em frente ao que sobrou de um hotel e no final quando é alertado por um nativo a sair dali porque o que restou do hotel está prestes a desabar. A informação quantitativa e os dados numéricos estão ausentes nesta matéria que privilegia o subjetivo, as percepções do repórter aliada ao testemunho das fontes. Suas impressões retratadas no texto certamente sensibilizam o leitor de forma mais competente do que as estatísticas.


5.1.3 A tragédia dos heróis brasileiros (Veja, ed.2148, jan. 2010)


As vítimas brasileiras mereceram uma reportagem especial na cobertura da revista Veja. Até a data da publicação da matéria haviam sido contabilizados dezesseis brasileiros mortos no terremoto, quatorze deles do Exército, restavam ainda quatro militares desaparecidos. No olho da reportagem é ressaltado o fato de que este é o maior número de baixas em operações internacionais do Exército brasileiro desde a Segunda Guerra Mundial.


A matéria inicia contabilizando os brasileiros mortos. E esclarece que nas próximas páginas apresentará um perfil de cada um deles.


São histórias de homens idealistas, apaixonados pela carreira das armas e cheios de planos para proporcionar, com o saldo reforçado que receberam durante a missão, melhores condições de vida a suas famílias (p.77).


De início já existe um apelo dramático, que coloca os militares brasileiros como mártires. Homens que estavam longe de casa, buscando dar uma condição de vida melhor às suas famílias e que acabaram vítimas de uma tragédia. A história é, de fato, triste, entretanto nestas ocasiões tende a haver uma supervalorização da dramaticidade pela mídia. Em outros momentos, as famílias das vítimas de fatos trágicos como o 11 de setembro ou como o acidente com avião da TAM, para citar dois exemplos, se veem super expostas a um assédio da mídia que nunca obteriam caso isto não acontecesse em suas vidas.


Antes de apresentar o perfil das vítimas a matéria prossegue, contabilizando os brasileiros feridos e desaparecidos. Há uma descrição do momento do terremoto na sede das Nações Unidas, local onde se concentravam muitos brasileiros que trabalhavam na missão de paz. O nome de uma série de militares brasileiros que ocupavam o prédio da ONU é citado juntamente com o caso de dois sobreviventes que se salvaram por ter descido ao primeiro andar do prédio um minuto antes da estrutura ruir. Em seguida é relacionado o número de militares e a que batalhão pertenciam.


‘O trabalho das forças brasileiras foi essencial para reduzir a criminalidade em Cité Soleil e em toda a capital’, diz o porta-voz da ONU no Brasil, Giancarlo Summa. Os brasileiros lideram a parte militar da Minustah desde o seu início, em 2004, depois que o presidente Jean- Bertrand Aristide foi derrubado por forças rebeldes. O Brasil mantém 1 266 militares no Haiti, mais do que qualquer outro país que participa da missão, e já gastou 703 milhões de reais na empreitada. Antes da tragédia, a ONU considerava o país caribenho pacificado. Isso havia sido alcançado sem que tombasse em combate um único brasileiro sequer. Até a terça-feira do pesadelo, as únicas quatro mortes nas fileiras brasileiras ocorreram por acidente, doença ou suicídio. A elas se somam, agora, as dos heróis vitimados pelo maior terremoto ocorrido no Haiti em 200 anos (p.78).


Este trecho final da matéria, antes da apresentação dos perfis das vítimas, apresenta uma fonte oficial: o porta-voz da ONU no Brasil. Sua fala reforça a importância do trabalho dos militares brasileiros no país caribenho. Em seguida, apresenta-se uma série de dados que revelam a utilização da pesquisa para a captação de dados que permitam ao leitor entender o que o Brasil estava fazendo no Haiti e por que estava fazendo. Em uma matéria que fala dos militares, é imprescindível contextualizar as características e resultados que a missão de paz brasileira, por eles integrada, apresentou no Haiti. O uso da palavra heróis ressalta o lado emocional que a matéria pretende passar.


A parte seguinte da matéria apresenta breves perfis de quinze vítimas brasileiras. Por se assemelharem muito vamos analisar um dos perfis aqui. Todos eles têm como título o nome da vítima, seguido de dados como idade, cargo no Exército, cidade e Estado. Todos possuem imagens, que são basicamente de três tipos: vítima trabalhando no Haiti, com a família ou com a farda do Exército.


Em todos os perfis podemos notar características como uma valorização do lado familiar (saudade da família, contato com os familiares), uma projeção de planos para o futuro (casar, fazer faculdade, comprar uma casa, etc). A maioria também destaca a proximidade da volta para o Brasil quando o terremoto aconteceu, grande parte dos militares já estavam a poucos dias do retorno ao Brasil quando o tremor interrompeu suas vidas. Além disso, o orgulho em servir ao país e contribuir para a melhoria de vida do povo do Haiti mereceu destaque nos perfis. A solidariedade e luta pela paz foram ressaltados nos textos.

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Jornalista e assessora de imprensa