Sunday, 03 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Encarando a tempestade perfeita do jornalismo

(Foto: Vanilla Bear Films/Unsplash)

A metáfora da “tempestade perfeita”, que não surpreenderia se fosse chamada de clichê, poderia descrever para alguns, com certo grau de eficiência, o que está passando o jornalismo. O termo refere-se à “convergência de circunstâncias que levam a uma catástrofe”, conforme descrito por Daniel Fernandes, em um artigo publicado no Estadão, em 2015, ao lembrar que o uso se popularizou a partir do livro “The perfect storm”, de Sebastian Junger, também roteirizado para filme (traduzido no Brasil como “Mar em fúria”).

No Brasil, o discurso se associa a ideia de crise do jornalismo, reforçada por setores internos e externos ao campo jornalístico. Baseado em algumas leituras, eu diria que quatro aspectos poderiam nos levar a concordar com isso.

Em primeiro lugar, o jornalismo vive hoje um período pós perda daquilo que os teóricos mais críticos chamaram de “monopólio da fala”, ainda que este conceito esteja carregado de problemas. Mas o fato é que as possibilidades de comunicação abertas com os meios digitais afrouxaram o gargalo dos canais de circulação da informação, impondo uma hiperconcorrência aos grandes players do mercado jornalístico, como apontam os canadenses Jean Charron e Jean Bonville (Natureza e transformação do jornalismo, livro organizado pelos pesquisadores brasileiros Zélia Adghirni e Fábio Pereira).

Esta nova realidade, tem feito avançar um segundo aspecto da crise, que diz respeito às finanças dos veículos, desnudando a natureza capitalista do jornalismo. Além da pulverização da audiência, que passa a consumir informação (ou desinformação) em outros ambientes, reduzindo o valor do espaço e tempo publicitário dos jornais, o movimento de fuga de recursos de anunciantes soma-se às novas possibilidades de comunicação entre organizações e público, já que o ambiente digital também permite o desenvolvimento de canais de comunicação eficientes como as redes sociais e uso de ferramentas tecnológicas. Estes são aspectos descritos no famoso e controverso dossiê do jornalismo pós-industrial de C.W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky, publicado no Brasil pela Revista de Jornalismo ESPM.

Como consequência, temos o avanço do terceiro aspecto; a redução dos investimentos empresariais no jornalismo, de modo geral, expresso pela redução e precarização de postos de trabalho jornalísticos em grande parte das redações, como definem os holandeses Mark Deuze e Tamara Witschge, no artigo “O que o jornalismo está se tornando”, publicado no periódico brasileiro Parágrafo. Inclui-se o corte de custos para produções mais caras, como reportagens mais aprofundadas que demandam maiores sacrifícios, além do desligamento de repórteres mais experientes e, em geral, mais bem assalariados. Nesse sentido, as consequências provocam reflexões sobre a qualidade das produções e a capacidade de reflexão das redações.

O quarto e mais recente movimento que aprofunda a crise do jornalismo diz respeito ao cenário político e pela chamada pós-verdade. Em países como Brasil, Estados Unidos, Hungria, Índia, entre outros, a crise das instituições, da qual emerge um novo tipo de populismo neoliberal, calcado também na desinformação e ataques ao jornalismo, tem promovido a desconfiança sobre o valor do trabalho jornalístico, escancarando dilemas profundos em um debate superficial sobre a capacidade do jornalismo de informar. As pessoas agora questionam, geralmente pelos motivos errados, se os jornais realmente estão pautados por critérios de relevância social e interesse público. Parte delas opta, então, pelo não-jornalismo ou anti-jornalismo.

Quando somados os quatro elementos à realidade pandêmica, o que já era ruim parece ficar ainda pior. Além da fuga de capital publicitário, marca de períodos de recessão, também os jornalistas precisam se adaptar a novas condições para produção de notícias, com produções remotas e dependentes de assessorias e cujos fundamentos éticos tornam-se mais flexíveis, lidando com este mar de desinformação e desconfiança.

O jornalismo, aquela atividade cuja função primordial tem sido inegavelmente a de dar sentido ao conceito de interesse público, deve ser percebido a partir do seu papel informativo marcado pelas contradições inerentes a uma instituição cujas lógicas fundamentais são a expressão da crise da modernidade: o aspecto comercial (interesse privado representado pela necessidade de audiência e captação de recursos para sustentação do negócio) e o aspecto emancipatório (interesse público representado pelo ímpeto jornalístico na busca por acesso à informação e justiça social).

A partir de um olhar histórico, portanto, podemos relativizar o sentido da crise do jornalismo ou do que poderia ser chamado de tempestade perfeita.

Como demonstra a pesquisadora estadunidense Elizabeth Breese, o jornalismo vive uma crise perpétua demarcada por um discurso que volta e meia ganha força, colocando em questão o futuro do jornalismo e da profissão. Geralmente mudanças tecnológicas, novas mídias ou novos perfis de entrantes na profissão tendem a arrefecer os argumentos dos mais saudosistas.

Se observarmos alguns dados recentes, como do Instituto Reuters, que monitora o consumo jornalístico anualmente mais de 40 países, veremos que nem tudo está perdido. Pelo contrário. A partir de um olhar geral sobre a compreensão da importância do jornalismo na vida das pessoas, o que temos é uma curva ascendente em muitos aspectos.

As organizações jornalísticas aparecem em quarto lugar dentre as mais confiáveis para se saber sobre o coronavírus, atrás apenas de cientistas, médicos e organizações de saúde. No Brasil, a proporção de pessoas que se diz preocupada com a difusão de conteúdos falsos na internet é de 84%, o que coloca o país no topo do ranking, sendo que 40% identificam estes conteúdos como provenientes do meio político, indicando algum grau de senso crítico sobre o assunto.

Outro dado interessante é sobre os assinantes de veículos na web. Nos Estados Unidos 20% das pessoas assinam sites jornalísticos, na Noruega 42% e na Argentina 11%. No Brasil grandes e pequenas marcas jornalísticas também têm comemorado o crescimento de assinantes. Estes são número promissores que indicam a capacidade de sustentação financeira do jornalismo pelo consumidor direto, sobretudo porque a maior parte das pessoas que assinam o fazem porque acreditam que terão informação de qualidade.

Outro dado importante que aponta a existência de uma demanda por produtos jornalísticos diz respeito ao jornalismo local. 71% das pessoas dizem buscar informações em sites de notícia local e o Brasil lidera o ranking mundial de pessoas que se dizem interessadas em notícias locais, com 73%.

Diferentemente das análises que apontam uma redução da capacidade de cobertura horizontal e vertical do jornalismo, o que temos é um mercado cada vez mais heterogêneo e segmentado. Poderíamos listar uma série de iniciativas. Consideremos ainda a demanda pelo trabalho de checagem de informações que vem se consolidando nos últimos anos, além de outras novas diversificações do trabalho jornalístico como as lives que vêm fazendo enorme sucesso, convertendo-se em novas oportunidades de faturamento. Por fim, é preciso também lembrar das produções para streaming, como documentários e podcasts, que têm apresentado um crescimento significativo nos últimos anos. Nunca se consumiu tanta notícia como agora, porque também nunca se teve tanto acesso e tanta diversidade de oferta e de canais neste mercado.

Não estamos dizendo que o jornalismo está superando a crise, porque a crise do jornalismo é insuperável. Mas se nos permitirmos estabelecer uma visão mais ampla do jornalismo, a partir de um olhar histórico, veremos que esta é apenas mais uma tempestade que desafiou o jornalismo a se adaptar à realidade. Não significa que temos um jornalismo melhor do que antes. Significa que temos novas condições em disputa que oferecem possibilidades de avanços e retrocessos.

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Guilherme Carvalho é doutor com pós-doutorado em Jornalismo. Professor e coordenador do curso de jornalismo do Centro Universitário Internacional Uninter e do Programa de Mestrado em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Diretor científico da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (ABEJ).