
(Foto: Pawel Czerwinski/Unsplash)
O presente artigo buscar analisar a obra documental “Dois Mundos”[1] a partir dos Estudos de Som. A narrativa fílmica do curta explora personagens surdos que, a partir de uma cirurgia de implante coclear, ou do uso de aparelhos auditivos, passam a ouvir. O relato dos personagens suscita um universo particular, transitório: de um mundo do silêncio para o mundo sonoro, o dos ouvintes. No entanto, por vezes há um certo “estranhamento” dos sons e procura-se novamente pelo silêncio. Um retorno ao status quo. Nesta perspectiva, busca um diálogo conceitual com o artigo: “Sonlêncio: modulações da experiência de silêncio na cultura Aural Contemporânea” [2], de autoria de Vinicius Andrade Pereira que instiga e investiga pesquisas atuais sobre o universo do silêncio na cultura aural contemporânea, por meio de práticas silenciadoras.
Introdução
O documentário “Dois Mundos”, com direção de Thereza Jessouroun, teve seu lançamento em 2009, na cidade do Rio de Janeiro. O curta, com duração de 15 minutos, explora em sua narrativa uma perspectiva ímpar: a do surdo depois de um implante coclear, em alguns casos, ou que faça uso de aparelhos auditivos. Ou seja, o universo transitório do mundo do silêncio para o mundo dos ouvintes. A história gira em torno de diferentes personagens – com reações igualmente distintas – sobre a experiência de escutar e experienciar os mais diversos sons. A experimentação de uma determinada atividade ou ação em dois universos: o mundo do silêncio e o mundo sonoro, costumeiramente chamado “dos ouvintes”.
Na mesma medida, o artigo “Sonlêncio” nos traz um estudo pertinente no escopo do silêncio, fortalecendo um diálogo simpático com o documentário “Dois Mundos”. Isso porque, sua narrativa, exalta experiências silenciadoras, num cenário social cada vez mais barulhento e caótico. O autor chama a atenção, inicialmente, para um excesso de representatividade imagética, se comparada com a sonora, especialmente nos imaginários coletivos sociais (materialidade). De certa forma, contrastando com uma sociedade cada vez mais barulhenta, que constrói dispositivos, aparelhos, aplicativos que ofertam incontáveis sons e ruídos. Com o intuito de compreender e arguir o silêncio dentro dos Estudos de Som, o texto promove algumas destas práticas silenciadoras, comumente chamada pelo autor de “Sonlêncio”.
“Dois Mundos” e o som do silêncio
“A maioria dos surdos vive no silêncio total. Alguns estabelecem o elo com o mundo sonoro através do aparelho auditivo ou do implante coclear. Este filme é sobre essas pessoas”.
Assim se inicia o filme. Um GC na abertura apresenta, sem mistério, do que se trata a obra. Reserva ao espectador uma narrativa reflexiva. O ritmo da compreensão revela as histórias de seus personagens, que dão vida à tela (sobretudo por meio dos sons), num mecanismo natural de envolvimento por parte do espectador. Sem dúvida o aspecto mais valorativo do filme, são seus personagens e suas histórias.
E é justamente por aí que o curta documental desenvolve sua narrativa. Ancorado nas falas e depoimentos de seis personagens: Letícia de Jesus Moura, Mauro Soares Ribeiro, Leonardo Braconnot, Juliana Amado, Isabela Ruffeil Ishak e Priscilla Cavalcante. Enquanto proposta metodológica, a análise seguirá a mesma ordem listada acima, isto é, a ordem de aparição dos personagens no curta.
Notadamente, se percebe pitadas simbólicas de valor estético-narrativo, no escopo imagético-sonoro, ao longo do filme. Quando, por exemplo, mostra os personagens fazendo uso do aparelho de surdez (ajustando e/ou (re)posicionando), o gesto assertivo com o aparelho proporciona, não só aos personagens, mas ao público, o sabor do som da narrativa documental. Ou seja, temos aí um verdadeiro exemplo de som diegético, como recurso estético-narrativo. E, de modo inverso, o silêncio rouba a cena, contrastando com paisagens visuais, sabidamente ruidosas (no mundo dos ouvintes, claro), quando os personagens não fazem uso de seus aparelhos de audição.
Letícia abre o documentário destacando esse universo dual: do silêncio e do som. Ela fez um implante e passou a ouvir. Sua fala enfatiza uma necessidade de desvendar esse novo mundo: o do som (ou barulho, expressão também usada pela personagem). Como o som provocado pela fricção dos pés tocando a areia, no caminhar pela praia “eu achava que não fazia barulho”, destaca com um olhar expressivo de descoberta.
A novidade, a descoberta de um novo som ou barulho de certa forma contrasta com algumas decepções neste percurso sonoro aventureiro. Isso porque, se presume até certo ponto natural, pela força do hábito, um maior conforto pelo silêncio. Ela fala com um sorriso farto “o mundo do silêncio é muito mais gostoso”. Seus depoimentos, carregam um certo descontentamento com os barulhos, com os sons, taxados como ruins “eu imaginava que não era isso” ou ainda, “foi decepcionante”. A estranheza dos sons, dos barulhos foi sua primeira percepção sonora, “o mundo do barulho você não tem como fugir”. De certa forma, essa angústia embargada em sua fala, faz menção a essa sociedade contemporânea cada vez mais barulhenta, sedenta na produção de sons. Sons esses, em sua grande maioria, ruins – fazendo alusão a fala da personagem.
As histórias particulares revelam suas angústias (o fato de não se apresentar no palco em razão da dublagem ou não ouvir o som do tubo, na prática do surf), como também seus prazeres e descobertas (o som da areia, ao caminhar pela praia ou o canto dos pássaros, numa paisagem de natureza). A narrativa fílmica documental acerta em revelar e desvendar esse universo, ou melhor, esses dois mundos: do silêncio e dos ouvintes. Assim, em certo caso, promove reflexão por parte do espectador, com os depoimentos sinceros de seus personagens, sobretudo se se tratar de um espectador ouvinte.
O “Sonlêncio” na cultura aural contemporânea
“Vivemos na era do ruído. O silêncio está ameaçado” (Erling Kagge)
O artigo produzido em 2019, pelo professor e pesquisador Vinícius Andrade Pereira, investiga a prática do silêncio na cultura contemporânea. De certa forma, as investigações sobre a temática do silêncio dialogam fortemente com as condições sociais e culturais que estamos vivendo, como uma espécie de resposta frente ao colapso sônico.
O relato das personagens Letícia e Priscilla no documentário, “Dois Mundos” reiteram o discurso proposto por Foy (2010). Para ambas, os ruídos contemporâneos, das nossas cidades, se tornam completamente desagradáveis, a ponto de tornarem a experiência sonora, no mínimo, desastrosa.
Aparelhos e mídias digitais intensificam uma ligação tecnológica onipresente, o que sugere um outro problema: os ruídos interiores. Isto é, a capacidade de nunca se desconectar, se desligar. O ruído não é mais exterior, ele também está presente em você, permanece em sua cabeça e pensamentos. Numa tentativa de ruptura destes ruídos, como um ato de repúdio e ao mesmo tempo de liberdade, Letícia afirma ter que retirar o aparelho auditivo, para conseguir um pouco de paz e tranquilidade, isto é, um silêncio interior.
É difícil ficar em silêncio nos dias de hoje, o que nos impede de ouvir o discurso interior que acalma e apazigua. A sociedade exige que aceitemos o ruído para sermos parte do todo, em vez de ouvirmos a nós mesmo (CORBIN, 2018, p. 02 apud PEREIRA, 2019, pág. 7).
A questão levantada por Corbin (2018) retira ou minimiza a culpa pelos ruídos comuns das práticas tradicionais de nossas urbes, como o trânsito, comércio e pessoas. Para ele, a dificuldade maior está intensificada no silêncio interior.
Numa perspectiva classificatória, Pereira (2019) destaca, portanto, três tipos de silêncio: a) o silêncio exterior (ausência de sons e ruídos materiais, enquanto dimensão física); b) o silêncio interior (um estado de silêncio mental, por meio de uma busca pessoal, como por meio de práticas de meditação) e c) silêncio relativo (com foco de atenção restrito, esse silêncio não depende de outros sons). É justamente neste último grupo que o “Sonlêncio” é aplicado.
Em outras palavras, a proposta do “Sonlêncio” funcionaria tanto em um ambiente de extremo silêncio (isto é, com a entropia máxima) ou num ambiente com sons específicos, imperceptíveis (com baixa entropia), com auxílio de práticas silenciadoras (produtos e tecnologias/dispositivos capazes de produzir experiências silenciadoras, como: Muzo, ruídos coloridos, sons e ruídos da natureza, batidas binaurais, tons isocrônicos, ASMR (autonomus sensory meridian response)).
Grosso modo, percebemos aqui uma importante relação entre as personagens, Letícia e Priscilla, do documentário “Dois Mundos” e as experiências silenciadoras do “Sonlêncio”, propostas no artigo.
Os depoimentos e relatos das personagens, afirmam um certo desconforto com o excesso de ruídos e sons. Como alternativa de ruptura e fuga, há uma retirada, ainda que temporária ou transitória, do aparelho auditivo, para conseguir um momento – nas palavras das personagens – de tranquilidade.
Tal experiência se aproxima muito das experiências silenciadoras, especialmente pela busca do silêncio interior e do silêncio relativo. Evidentemente que as metodologias são completamente distintas.
Independente do método, ambos casos, promovem uma reflexão sobre o ritmo caótico de nossa sociedade. Em especial, as consequências deste ritmo apressado na paisagem sonora. O progresso frenético das indústrias, das comunicações, de uma conexão ilimitada e ubíqua, da pós-modernidade, de certa forma está impactando muito nossa qualidade de vida. A fuga pelo silêncio ou por práticas silenciadoras, reforçam a necessidade de uma ponderação sobre nossa rotina social e cultural.
Referências
BERNARD, Sheila Curran. Documentário: Técnicas para uma produção de alto impacto. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.
CORBIN, 2018; A History of Silence – From the Renaissance to Present Day. Polity Press, Cambridge, UK, 2018 (Edição para Kindle).
DOIS MUNDOS. Produção e Direção: Theresa Jessouroun. 15 min. 2009. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=N-bbYNiCZtM . Acesso em: 12 nov. 2020.
KAGGE, E. Silêncio na era do ruído. Objetiva, Rio de Janeiro, 2016 (Edição para Kindle)
PEREIRA, Vinícius Andrade. Sonlêncio: Modulações das experiências de silêncio na cultura aural contemporânea. Porto Alegre: COMPÓS, 2019.
PEREIRA, Vinícius Andrade. Mais grave! Como as tecnologias midiáticas afetam as sensorialidades auditivas e os códigos sonoros contemporâneos. Niterói: Revista Contracampo, 2011.
Notas
[1] Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=N-bbYNiCZtM>. Acesso em: 12 nov 2020.
[2] Disponível em: <http://www.compos.org.br/biblioteca/trabalhos_arquivo_V8T3LAC95GDI4TSY68D1_28_7186_22_02_2019_12_01_44.pdf>. Acesso em: 12 nov 2020.
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Ulisflávio Oliveira Evangelista é Doutor em Comunicação pela UERJ – Universidade do Estado de Mato Grosso. É professor titular do curso de Jornalismo da UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso.
