Sexta-feira, 14 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1401

Quando o critério de publicação é o sensacionalismo e não o interesse público, o que acontece com o jornalismo?

(Foto: beytlik/Pexels)

A crise do jornalismo atual já não é novidade para ninguém. Muitas páginas, portais e emissoras sofreram o midiacídio com a rápida evolução do universo digital. Mas o que não se esperava é que muito do jornalismo brasileiro deixaria de servir ao interesse público para saciar o interesse do público.

De acordo com a pesquisa do Reuters Institute (2024), “a confiança geral nas notícias no Brasil despencou de 62% em 2015 para apenas 36%”. O que é o reflexo perfeito da polarização, subjetividade editorial, proliferação de desinformação e desconfiança nas instituições que deveriam ser contra tudo isso.

A definição de jornalismo de interesse público é a função de servir a sociedade, como um cão de guarda que apura, informa, alerta e auxilia. Mas a imprensa tornou-se refém de plataformas privadas que privilegiam a indignação e a polarização em detrimento da informação de qualidade.

O impacto das big techs digitais, que fazem o mundo girar ao seu redor, é que adoece a mente do público ao alterar algoritmos de entrega de notícias sem transparência. Para manter o usuário mais tempo na plataforma, o vício em dopamina barata precisa se sobressair ao conteúdo informacional de relevância.

O relatório global (Reuters Institute/Oxford – Digital News Report) aponta que o consumo de notícias por meios tradicionais cai a cada dia mais, enquanto redes sociais lideram o acesso à informação, sobretudo entre jovens.

A evitação de notícias virou fenômeno coletivo. Com a imprensa tradicional com medo de se reerguer em seu papel de direito, parcela significativa do público declara evitar o noticiário com frequência por considerar a cobertura desgastante, repetitiva ou focada excessivamente no sensacionalismo.

E, em algum momento, a sociedade caiu no conto do vigário e fez uma jornada guiada justamente por quem patrocina e se beneficia da confusão mental coletiva.

A tirania das métricas vence quando o critério de publicação passa a ser “o que dá mais cliques/views” e não “o que o público precisa saber”, fazendo com que o papel de muitos jornalistas seja igual ao de criadores de conteúdo comum, e não o de um profissional a serviço da função de algo maior e mais importante, degradando o debate comunitário e político.

Muniz Sodré, um dos maiores teóricos da comunicação no Brasil, argumenta que os meios de comunicação não são apenas ferramentas de difusão, mas criam um verdadeiro modelo. Em suas críticas recentes, Sodré mostra que a informação virou mercadoria de afeto e indignação.

Estamos vivendo uma era em que a convicção emocional vale mais do que a evidência concreta.

O jornalismo profissional tornou-se alvo constante de descredibilização porque se vendeu ao que era mais fácil, ao que paga mais e porque se mantém no viés do coronelismo até hoje. E quando o jornalismo se guia pelo algoritmo, torna-se ferramenta de manipulação, de controle e de adoecimento deliberado para manter a sociedade exatamente onde está. Ele deixa de formar consciência e passa a gerir humores sociais e gerar incômodo contínuo para manter as pessoas presas à tela, abandonando seu papel como uma instituição fiscalizadora do poder.

Então, eu me pergunto: quanto está valendo a integridade jornalística na praça pública?

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Vitória Bragi é estudante de Jornalismo no 5º semestre em Salvador.