Tuesday, 09 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1199

Metrô recusa anúncio de livro sobre ‘black blocs’

O Metrô de São Paulo se recusou a veicular um anúncio da editora Geração Editorial ao tomar conhecimento de que o objeto da propaganda era um livro sobre os black blocs, ativistas associados à violência nas manifestações no país a partir de junho de 2013.

O anúncio trazia o título da obra, Mascarados: A Verdadeira História dos Adeptos da Tática Black Bloc, junto à capa do livro, na qual aparece um jovem com o rosto parcialmente coberto. Ao fundo, entreviam-se imagens da PM atirando e de um black bloc em cima de um carro da polícia de ponta-cabeça.

De acordo com a editora, as conversas para veiculação do anúncio do livro – de autoria da cientista social Esther Solano e dos jornalistas Bruno Paes Manso, que mantém um blog no jornal O Estado de S. Paulo, e William Novaes – começaram no dia 4.

Foram negociados 20 espaços horizontais, localizados na parte superior das janelas, a serem fixados em trens das linhas verde e vermelha.

No dia 19, a Geração Editorial enviou a arte do anúncio para aprovação – segundo a editora, seria apenas uma burocracia para checar se o tamanho estava adequado.

Horas depois, o setor de marketing do Metrô informou, segundo a Geração Editorial, que a peça não foi autorizada, pois poderia incitar a violência. O Metrô disse à editora ter autonomia para barrar anúncios que contrariem seu regulamento.

“Sem apologia”

Em nota, nesta segunda (24/11), a editora afirmou ter tido seu “anúncio censurado pelo Metrô de São Paulo, sem motivos plausíveis”. “A Geração Editorial não foi informada sobre as regras do regulamento e elas não constam no mídia kit”, diz o texto.

Procurado pela Folha, o Metrô confirmou a recusa de veicular o anúncio, ressaltando, no entanto, ser “totalmente favorável à liberdade de expressão” e disponibilizar “diversos espaços para manifestações artísticas, culturais e publicitárias”.

De acordo com a companhia, o anúncio foi recusado tendo como base seu regulamento para Exploração de Mídias em Áreas e Equipamentos de Propriedade – o mídia kit enviado à editora.

O texto diz ser proibida “a veiculação de mensagens publicitárias que infrinjam a legislação vigente, atentem contra a moral e os bons costumes, possuam temas de cunho religioso ou político partidário, que possam prejudicar o desenvolvimento operacional do sistema metroviário ou a imagem da Companhia do Metrô e ou que possam suscitar comportamentos inadequados”.

Bruno Paes Manso, um dos autores da obra, diz que a ideia é “desestereotipar” os black blocs, “sem qualquer tipo de engajamento”. “Ninguém está levantando a bandeira dos black blocs. Pelo contrário, buscamos contextualizar. É um livro que não faz nenhuma apologia.”

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Raquel Cozer, da Folha de S.Paulo