Thursday, 18 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Mortos não cometem crime

A revelação das contas secretas do HSBC da Suíça, com a suspeita de crimes de evasão fiscal e lavagem de dinheiro por grandes personalidades do meio político, do esporte e artístico, escândalo apelidado de SwissLeaks, causou grande repercussão na imprensa internacional. Por aqui, a mídia tupiniquim concentrou seu foco e as energias nos mortos. O jornal carioca O Globo, por exemplo, na sua edição de 11 de fevereiro de 2015 deu na primeira página que, sob o governo de Hugo Chávez, a Venezuela escondeu US$ 12 bilhões na matriz da Suíça do HSBC inglês. Como bem sabemos, Chávez morreu há dois anos e não pode mais responder por esse ato. Já por aqui…

Mesmo com seis profissionais no Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativo, número menor somente que dos EUA, com 21 jornalistas, e do México, com sete jornalistas, nenhuma conta brasileira das 5.549 que somavam cerca de US$ 7 bilhões teve a identidade revelada. É importante lembrar que O Globo tem uma profissional que faz parte do Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo, ICIJ sigla em inglês.

E os brasileiros devem estar curiosos e ansiosos para saber quem são esses 5.549 privilegiados que dividem uma soma de R$ 19 bilhões convertidos para o real, valor esse, inclusive, divulgado pelo governo do que se pretende economizar para realização do ajuste fiscal, feito a partir de corte de beneficio como o seguro-desemprego. Vale ressaltar que a simples divulgação de quem tem conta nesse banco, até que se prove o contrário, não é um criminoso, apesar de pairar uma suspeita, pois essa matriz do HSBC ajudou seus clientes a sonegarem impostos.

Eu e os milhões de desempregados do Brasil que estamos sofrendo com o ajuste fiscal promovido pelo governo, não queremos saber quanto cada um desses 5.549 brasileiros tem na conta – isso, sim, configuraria crime de quebra de sigilo bancário – e sim, se eles pagaram os impostos e declararam esse dinheiro para a Receita Federal. Portanto, para isso pedimos encarecidamente que a Folha, IstoÉ e O Globo que são os veículos que tem jornalistas no Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo – ICIJ, façam seu trabalho para que possam inclusive começar a resgatar sua credibilidade de imprensa isenta de interesses obscuros.

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Carlos Fernandes de Oliveira é jornalista