Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

O governo terceirizado

Parece irrefutável a ideia de que o cérebro funciona como um músculo, que precisa ser exercitado e estimulado para não definhar. Estudos nesse sentido garantem que além do aprendizado básico e convencional, tudo é válido para abastecer os neurônios do indispensável suprimento de conhecimento e informação que nos valeu a pole position na teoria da evolução.

O que justifica até hábitos aparentemente estúpidos como ver o hediondo BBB, nossos jurássicos programas televisivos de auditório, as intermináveis e enfadonhas resenhas futebolísticas em que se discute o sexo dos anjos como se fosse a coisa mais importante do mundo, tentar deslindar a desencontrada semiótica de nossa imprensa; e no que me compete, dedicar algumas horas de meu precioso tempo para redigir estas mal traçadas.

Sem falar na verdadeira compulsão cibernética ensejada pelos incisivos e onipresentes recursos da internet, que aos poucos vai até desbancando a mídia tradicional como imbatível formadora de opinião. Com o grave inconveniente de atuar num estado de desregulamentação que possibilita a disseminação indiscriminada de material abusivo e apelativo, principalmente pelas redes sociais, que virou uma espécie de terra de ninguém onde se manifestam os instintos mais primitivos e sórdidos da espécie humana.

No precário padrão de nossas classes legentes, não faltam evidências de que o excesso de liberdade e liberalidade pode ser contraproducente, da mesma forma como o trânsito desmesurado de informações serve mais para embaralhar as ideias do que elucidar. Exemplos eloquentes disso são os absurdos que circulam pela internet, o manancial de bobagens e baixarias proferidos sem qualquer pudor, e nos quais fica claro que a ignorância e a desorientação não inibem a volúpia irrefreável de opinar, de julgar e condenar. Quanto menos essa legião de vândalos virtuais conhece um assunto, quanto menos tem a condição de pensar com racionalidade, mais se sentem livres e senhores de si para vociferar, agredir, repetir slogans e palavras de ordem de uma autoexaltação raivosa e ressentida condizente com os ditames da realpolitik que impera no país.

Veementes e barulhentas

Não bastasse a inexorável deterioração de nosso tecido social, oriunda do longevo descaso dos governantes com o setor educativo, some-se a dificuldade de lidar e se situar em meio a notória falta de referenciais confiáveis, agravada nas duas últimas décadas. A tal falta de protagonistas a que me referi no artigo anterior, escassez que se estende a praticamente todos os setores da sociedade, do meio político ao esportivo. Se antigamente ainda tínhamos alegrias no futebol, intelectuais e artistas que dava gosto de ler e ouvir, hoje em dia é um marasmo só. Na própria imprensa, com todos os recursos e a profusão de nomes disponibilizados pelas vias digitais, a diferença entre ontem e hoje é abissal. Se nem tanto sob o ponto de vista da qualidade, pelo escancarado engajamento da grande maioria a demandas político-partidárias que comprometem o papel institucional da imprensa.

Cisão potencializada pela polarização que tomou conta do meio midiático desde a chegada do PT ao poder, e que por si só requer, no mínimo, o chamado pé na frente e outro atrás frente a tudo que é divulgado e apresentado por nossos veículos de informação. A começar pela noção de que todos eles não deixam de ser empresas com fins lucrativos, e com o tal, sujeitas a diretrizes e práticas comerciais que priorizam o superávit comercial. Prioridades diante das quais até mesmo quesitos básicos do jornalismo, como qualidade e isenção, costumam ser sacrificados sem maiores escrúpulos. Como, aliás, vem ocorrendo ultimamente em proporções extremamente preocupantes, com os cortes drásticos nas redações dos principais grupos do país.

Um esfacelamento só não mais perceptível e danoso no desempenho da chamada grande imprensa por conta da sucessão de infortúnios que cercam o segundo mandato de Dilma Rousseff, que em meio a pressão generalizada, precisou praticamente terceirizar seu governo para o mui amigo aliado PMDB, com a entrega da coordenação política a seu vice, Michel Temer. Acuada por uma inédita desaprovação popular da ordem de 60%, segundo pesquisa da Datafolha divulgada no fim de semana, e corroborado pelas novas manifestações populares do domingo (12/4) – não tão grandes como as do mês passado, mas mais barulhentas e veementes –, a presidente optou por um virtual parlamentarismo branco, em que se sujeita a entregar os anéis para não perder os dedos.

Um cenário que ainda assim, promete não se desanuviar tão cedo, de acordo com a previsão de entendidos de que a economia só deve se aprumar a partir do próximo ano. Daí a tendência de a fritura da presidente continuar em fogo alto, o que para a imprensa antipetista é uma mão na roda, mel na chupeta. Ainda mais por não precisar nem fazer força para cavoucar notícias ruins e botar mais lenha na fogueira.

Mel na chupeta

Mesmo com a operação Lava Jato de certa forma já cansando a opinião pública, não só pela natural morosidade do processo como pelas táticas protelatórias da defesa, como o evasivo depoimento do tesoureiro João Vaccari Neto na quinta-feira (9/4) na CPI da Petrobrás, e a própria sutil mudança na delação premiada do ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, de que as propinas teriam vindo da margem de lucro das empreiteiras, ao invés de subfaturamento, já há praticamente um consenso de que o estigma de delitos e complacência com a roubalheira vinculado ao PT é irreversível.

Lamente-se apenas que com as atenções concentradas na defenestração do PT, não se dê a devida atenção a casos com potencial para se tornarem ainda mais escabrosos que a rapinagem na Petrobrás, como o das contas clandestinas do HSBC e da operação Zelotes, sobre o cancelamento de multas a cargo da Carf, orgão fiscalizador da Receita Federal. Notadamente, por parte da grande imprensa, que exceção da edição desta semana da revista CartaCapital, pouco ou quase noticiou na semana passada sobre o andamento das investigações a cerca dos dois casos que chamam a atenção por envolver nomes e empresas de peso de nossa economia. Entre as quais, pelo menos uma do ramo de comunicação, o grupo RBS, que monopoliza o meio jornalístico no extremo Sul, suspeito de pagar R$ 15 milhões de reais para anular infrações que chegariam a R$ 150 milhões de reais.

Procura-se urgentemente um novo Sérgio Moro para tocar as investigações.

Pauta permanente

Foram nove dias de temores, versões desencontradas e de uma luta titânica das mal equipadas guarnições de bombeiros da região para conter o fogo altamente inflamável que se alastrou por seis dos 38 tanques pertencentes a empresa Ultracargo, no bairro da Alemoa, na entrada de Santos (SP). Incêndio que começou na manhã do dia 2/4, de causas ainda ignoradas, que causou apreensão e angústia aos moradores não só das imediações como de toda região, devido ao risco de o fogo espalhar para os tanques de combustível de conteúdo ainda mais explosivo e dos efeitos da espessa nuvem de fumaça negra que pairou na atmosfera por todo esse período. Menos mal que a imprensa local em particular – notadamente o jornal A Tribuna e seu irmão caçula, Expresso Popular – mostrou-se à altura da gravidade da situação, mantendo a população informada com uma cobertura ampla e detalhada, e o que é mais importante: sem alarde e sensacionalismo desnecessário. Sinal de que quando quer e a situação exige, ainda há reservas de vitalidade e competência no normalmente letárgico jornalismo de uma região que já foi referência no ramo.

Resta esperar que o episódio sirva de alerta e continue como pauta permanente na imprensa, diante da constatação de que não só faltam equipamentos e recursos aos bombeiros, para o combate de incêndios de materiais altamente inflamáveis, como não há planos eficazes de contingência e prevenção, algo fundamental para uma região que vive praticamente em cima de um barril de pólvora, cercada por centenas de tanques com toda espécie de material, transportados por terra e por mar, além da extensa rede de tubulações que saem desses terminais, como os que causaram a dizimação da vila Socó há duas décadas. Sem falar nos misteriosos depósitos da ilha de Barnabé, praticamente em frente ao porto, e cujo conteúdo, segundo uma antiga lenda urbana, seria capaz de varrer Santos do mapa.  Momento melhor para explorar este e outros aspectos deste delicado quadro não poderia haver.

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Ivan Berger é jornalista