Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

Enganou-se quem pensou que BBB era mero entretenimento

(Foto: Divulgação)

Em todo início de ano, a programação das TVs abre os trabalhos a passos lentos, ainda com resquícios do ano que acabou de terminar, com anúncios do que está por vir e uma grade com entretenimento para aguardar o carnaval chegar, passar e permitir que a vida tome seu rumo corriqueiro. Entretanto, como diferentes processos alterados pela pandemia da Covid-19, a programação da TV neste início de 2021 não foi como os anteriores, até porque uma crise sanitária de dimensões mundiais, com impactos devastadores na econômica, que aprofundou desigualdades e já ceifou a vida de mais de 240 mil brasileiras/os não passa pela história sem reorganizar a vida por completo.

O ano de 2020 foi marcado também por episódios que descortinaram as subalternizações históricas e o quão ainda estamos distantes de sociedades equitativas e justas. Foi o caso dos protestos “Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”), que eclodiram pelo mundo contra o racismo, motivados pelo assassinato do afro-americano George Floyd, por policiais brancos, em Minneapolis, e que escancararam, mais uma vez, as desigualdades étnico-raciais pelas quais significativa parcela da população passa cotidianamente. No Brasil, em 10 anos, a taxa de homicídios da população negra cresceu 11,5%, de acordo com os dados do Atlas da Violência 2020. Não contabilizados nesta estatística, mas concretizando o racismo estrutural que banaliza vidas negras no país, conhecemos ainda pela imprensa as histórias de Miguel, Emilly Victoria, Rebecca Beatriz, João Pedro, João Alberto e de tantos outros que se foram abruptamente.

Nessa toada, o entretenimento televisivo não poderia passar ileso e, como fuga, mas também como lupa, foi atravessado pelas questões vividas no tecido social. Numa casa, construída dentro de um estúdio de televisão, onde 20 pessoas de diferentes partes do país, classe, raça e gênero ficarão confinadas por 100 dias e vigiadas 24 horas, seria, no mínimo improvável, que as tensões de fora não aparecessem ali dentro. Mas o que o Big Brother Brasil deste ano trouxe vai além da mera “treta”: ele permitiu um olhar escancarado para as contradições dentro das contradições. Houve o cancelamento praticado por quem – histórica e socialmente – já é um corpo marcado como cancelado: a mulher negra. Vimos a incapacidade de ouvir um “não” de uma mulher por parte de quem lutou tanto para ter sua voz respeitada: um jovem negro periférico, oriundo de escola pública. Assistimos à autoridade individualista de “militante” quando, de fato, a militância se faz na coletividade. Além da humilhação mal traduzida como “empoderamento”. O Big Brother conseguiu, em menos de um mês, desvelar que os dilemas atrelados às desigualdades e, em especial, ao combate destas, são mais complexos do que soluções “drive thru”. No mundo atravessado pela internet e, por vezes, simplificado pelas discussões em poucos caracteres, os episódios estarrecedores veiculados em TV aberta no Brasil servem para demonstrar que as saídas simples e fáceis não parecem ser a solução de desigualdades de gênero e raça.

A edição com maior número de pessoas negras – nove, ao todo – demonstrou que só a “presença” não é suficiente para impedir a reprodução de práticas violentas e de discriminação. Não queremos aqui dizer que a presença e a representatividade devem ser abandonadas. Pensar assim é seguir no mesmo caminho de soluções “simplistas e lacradoras” que precisamos combater. Para nós, a presença, em espaços públicos, de corpos anteriormente renegados à invisibilidade é um passo dentro de um escopo de mudanças a serem conquistadas. Estes corpos – herdeiros de violências históricas – não são isentos de contradições e de práticas violentas. Mas, constituídos por elas. E uma das chaves para que não as reproduzam está na prática coletiva e na “tomada de consciência” de que apenas inverter o polo da opressão só gera mais opressão.

Vale lembrar, também, que não parece ter sido aleatória essa escolha de elenco. De um lado, a edição passada esquentou as redes sociais com discussões sobre misoginia, feminismos e machismo. A preferência do público pela médica paulistana Thelma Assis e, inclusive, sua vitória deram ainda mais combustível para os fãs do BBB que inundaram seus feeds com hashtags sobre valorização das mulheres negras. Mas, por outro, estamos falando de um programa de TV que, além de entreter, precisa lucrar e se conectar com a realidade. E, nesse ponto, temos de reconhecer: o BBB tem cumprido seu papel. Se concordamos ou não com os limites e as consequências do programa, é outra discussão. Entretanto, é inegável que o elenco desta edição já conseguiu catapultar os índices de audiências, além de pautar por dias o debate nas redes sociais, “refrescando” um formato que parecia esgotado ou fadado às dificuldades de fazer televisão no meio da pandemia.

Por fim, apesar dos custos, os episódios lamentáveis vistos até aqui no BBB se tornaram uma oportunidade de refletir sobre nossos desafios como sociedade e também como comunicadores. As relações sociais, assim como as notícias, não são feitas por apenas dois lados, do “nós contra eles”, do totalmente certo para o absurdamente errado. Entre um e outro polo, existe uma infinidade de possibilidades.

Buscar equidade é trazer o outro que foi historicamente retirado de seu lugar de protagonismo para o patamar de visibilidade semelhante ao seu; é conviver em meio à diferença, sem anular as chances do outro de expressar sua divergência… Lições tão simples que parecem estar esquecidas no mundo do confinamento, das redes sociais, de sociedades polarizadas e/ou que idolatram “mitos” autoritários.

Somos um agente, junto de tantos outros, podendo reforçar ou destruir essa estrutura opressora e violenta. Estar certo não dá licença para humilhar qualquer pessoa; ser “empoderada” não significa aval para destratar os demais; apropriar-se de lutas coletivas em proveito próprio não é ser ativista; querer dividir os espaços entre brancos e negros não é buscar igualdade; fazer piada com crenças religiosas não é humor. Não é correto aqui fora. Não é correto lá dentro.

Este mundo desigual foi construído a muitas mãos, por muitas narrativas e por muito tempo, de forma processual e dinâmica. Por isso, a solução também é processual, permanente, cotidiana e de longo prazo. Uma manchete, um tweet, uma semana nos trending topics são importantes, mas não suficientes. Seria bom se tudo fosse simples assim, mas as soluções de problemas complexos são também complexas. Cabe perguntar, quem está disposta/o a se dedicar a elas?

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Viviane Gonçalves Freitas é jornalista e doutora em Ciência Política (UnB). Pesquisadora associada à Rede de Pesquisas em Feminismos e Política e ao Margem – Grupo de Pesquisa em Democracia e Justiça (UFMG). É coordenadora do GT Mídia, Gênero e Raça da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica). Tem pesquisas e publicações nas áreas de mídia, política, feminismos e raça.

Lucy Oliveira é jornalista e professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Tem estágio de pós-doutorado pela FAPESP no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e, atualmente, desenvolve pesquisa e trabalhos nas áreas de mídia, política, discurso, gênero e representatividade. É vice-coordenadora do GT Mídia, Gênero e Raça da Compolítica.