Domingo, 7 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1391

Jornalismo de ideias, pensamento em estado de risco

(Ilustração: Gustavo Sobral)

Não é um jornalismo que se ancora apenas no fato, na apuração. Não é um jornalismo preocupado apenas em explicar ou organizar. É um jornalismo que provoca, usa o humor, a ironia, a sátira, o cotidiano e o humano. Um jornalismo de ideias.

Um jornalismo que, ao propor reflexão e crítica, conjuga duas linguagens, dois elementos, a união de duas forças. Uma delas, a mais usual, o texto; a outra, embora lendária no jornalismo, mas não a mais praticada, o desenho.

Um formato que recusa padronização. Não há fórmula certa para aplicar e replicar e só acontece uma vez, não se repete. Cada desenho precisa encontrar sua própria lógica interna e um texto para chamar de seu.

Um tipo de jornalismo sofisticado, porque une desenho, poucas palavras e o contexto, que se soma também ao que está no texto e ao que sinaliza a imagem. É a força dessa soma, nesse jogo entre o presente e o ausente, que brilha nesse jornalismo.

Um jornalismo que flerta com o absurdo e a incongruência e com a quebra de expectativa para se fazer compreender. Algo difícil de definir, mas plenamente compreendido quando se vê.

Um jornalismo que teve como artífice o jornalista Millôr Fernandes. Pensador que usava o lápis como extensão do raciocínio, com o traço despojado e a precisão cirúrgica das verdades incômodas reveladas pela marca de um risco, a produzir riso ao revelar o absurdo.

Um jornalismo praticado também por Angeli e Laerte Coutinho, entre outros. Cada um, à sua maneira. E nomes como Saul Steinberg e Roz Chast, ambos atrelados à tradição da centenária revista The New Yorker.

Um jornalismo que faz cada vez mais sentido e ganha força na era da rapidez, da imagem e do texto artificiais, por carregar essa essência da marca autoral que é praticamente artesanal, cujo desenho nasce do estilo e da singularidade do traço, coisa que não se repete.

Síntese, deslocamento, leitura e contexto parecem ser os elementos-chave que condicionam não só a formação desse tipo de jornalismo, mas também ajudam na sua compreensão e análise. Ainda assim, torna-se praticamente impossível explicar seu funcionamento em detalhes. As engrenagens não revelam a essência.

O certo nessa matéria é que estava certo E. B. White quando disse que analisar esse tipo de jornalismo é como dissecar a rã: pouca gente se interessa e a rã morre no processo. Melhor mesmo é reconhecer o prestígio, a qualidade, a capacidade e apreciar sem inibições esse jornalismo de ideias.

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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.