Friday, 21 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Lula “alvejado” e a crítica que se mistura ao ataque

(Foto: Reprodução)

Repercussão da foto de Gabriela Biló para a Folha mostra a enorme confusão entre crítica do jornalismo e ataques à imprensa

A imagem da capa da Folha de S. Paulo de 19 de janeiro de 2023 é emblemática. Lula aparece de cabeça baixa, mão esquerda ajeitando a gravata, olhos baixos e sorriso nos lábios, por detrás de uma vidraça marcada na altura do lado esquerdo do peito como que atingida por um golpe. Para alguns, uma imagem que mostra a resiliência do presidente ao sorrir, mesmo que “alvejado”. Para outros, a imagem estigmatiza a violência contra Lula e o coloca como uma vítima derrotada.

Interpretações a parte, a imagem feita pela fotojornalista Gabriela Biló gerou enorme debate, especialmente no Twitter. Uma das discussões está relacionada à técnica utilizada, descrita pela autora como “múltipla exposição”, comum na era analógica e transposta para o digital. Nela, imagens são sobrepostas, criando uma nova. Múltipla exposição é fotojornalismo? Fotojornalismo é arte? A fotografia no jornalismo deveria aceitar algum tipo de manipulação? Ótimo ponto a ser pensado.

As múltiplas interpretações da imagem geraram outras discussões interessantes. A jornalista Fabiana Moraes argumentou que a imagem é uma “naturalização da violência”. O escritor e jornalista Lira Neto a chamou de “adulteração da realidade”. Para ele, gravíssima, pelas possíveis interpretações “nas circunstâncias atuais”. Não foram poucos os jornalistas, entretanto, que elogiaram o registro. O jornalista Flávio Fachel o chamou “excelente” enquanto a colega Cecília Flesch disse ver “um presidente rindo APESAR do estilhaço. Um homem blindado. Que não se desestabiliza diante da ameaça”. A semiótica é uma coisa linda, não? Peirce explica.

Particularmente, o caso me chama a atenção por outra discussão que o atravessa. Entre as milhões de visualizações que esses posts atingiram – apenas o post de Lira Neto marcava mais de 265 mil no início da tarde desta quinta-feira (19), dia da publicação da capa da Folha – muito se disse sobre a imagem e, de alguma forma, sobre sua autora. Quando criticamos o produto do trabalho de um jornalista (ou da fotojornalista neste caso) estamos atacando o profissional? De maneira nenhuma.

Fabiana Moraes, que usei como exemplo de comentário crítico, fez questão de ressaltar seu respeito pela profissional, direcionando sua crítica ao produto, no caso, à imagem e à capa da Folha. Abaixo, uma das manifestações da jornalista:

“Tenho respeito pelo trabalho de Gabriela, muito. Não é fácil ser fotógrafa, convivi durante anos com várias delas e vi o tamanho do machismo na área. Mas a imagem só engrossa o caldo de uma violência que não precisava de mais farinha”.

Gabriela Biló chamou as manifestações de “hate”. Ódio, em bom português. Na manifestação que fez, também no Twitter, não me parece que o caso tenha despertado nela nenhum tipo de reflexão quanto ao próprio trabalho.

“Como eu já previa, o hate veio forte com essa foto do Lula:

– Na foto tem quem veja morte, tem quem veja resistência, só um trincado, tem quem veja um sorriso atrás, o Lula arrumando a gravata. Não vou dizer o que você tem que ver. 

– Fotojornalismo não é feito para agradar.

Minhas fotos são o espelho do meu olhar. Essa só é a forma como eu vejo o mundo. Você pode ter o seu olhar, discordar do meu, tudo bem, o mundo é plural.  Sendo assim, vou ignorar absurdos como “apaga isso”, entre outros hates, especialmente depois do dia 08/01”.

É curioso. Sim, não tenho dúvida de que Gabriela tenha recebido manifestações de puro ódio pela foto publicada. Em algumas respostas ao post de Lira Neto, por exemplo, usuários a chamam de “escrota” e “desonesta”. Ataques pessoais, portanto. Por outro lado, a maioria dos comentários que encontrei eram respeitosos. Argumentavam em torno das interpretações que a imagem pode gerar na sociedade. Muitos outros questionam a técnica empregada. Concorde-se ou não com essas críticas, todas elas são pertinentes, interessantes. 

Como pesquisador, defendo que, de forma geral, é enriquecedor que o jornalismo seja criticado, especialmente pelo público mais amplo. Por óbvio, estou falando de critica, não de ataque. Quando se critica a imagem feita por Gabriela Biló não se está atacando a profissional, apenas questionando a construção de realidade que ela faz ao direcionar as suas lentes. Ao mesmo tempo, há uma enorme confusão entre crítica e ataque. Isso ficou claro nas respostas ao tuíte de Fabiana Moraes que reproduzi acima. Em dado momento, um usuário questiona:

“Tenho respeito depois de criticar? Hahaha faça-me o favor”.

Cadu, o nome utilizado pelo usuário, sintetiza bem como estabelecer um processo de crítica ao jornalismo é complexo nestes tempos. Sim, Cadu, é perfeitamente possível respeitar o trabalho de alguém e criticá-lo. Não, crítica não é sinônimo de desrespeito, muito menos de ataque. Chamar alguém de “escrota” não é uma crítica. É um ataque. Questionar a técnica usada é uma crítica. Avaliar as interpretações negativas que a imagem pode gerar é outra.

Jornalistas, de forma geral, têm enorme dificuldade em lidar com as críticas. Pouca gente gosta de ser criticada, por certo, mas as redações costumam usar todos os escudos possíveis contra qualquer comentário questionador. Diferentes trabalhos acadêmicos mostram isso, inclusive a minha dissertação e mestrado. As históricas dificuldades que alguns ombudsmen da Folha já enfrentaram corroboram essa percepção. No entanto, não há como evitar a discussão pública de uma atividade essencialmente pública e de enorme impacto social, como é o caso do jornalismo.

Temos nós, os animais, um instinto natural a nos fecharmos quando atacados, ou de atacar de volta. Isso é bem visível em casos como esse, que mesclam críticas e ataques em um fluxo único. Diante dos ataques, não raro, as críticas são descartadas, ou pior, equiparadas às agressões. Isso é um erro grave, que prejudica o próprio desenvolvimento do sistema de produção e difusão de informações. É preciso separar a ofensa da reflexão crítica para combater a primeira e aprimorar o próprio jornalismo a partir da segunda. A sobrevivência do bom jornalismo depende disso.

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Alisson Coelho é jornalista, doutor em Comunicação e coordenador do curso de Jornalismo da Universidade Feevale.