Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Uma opção de resistência

Com a edição nº 520, o Jornal Pessoal completa 25 anos de vida. É provável que não tenha a oportunidade de comemorar outra data redonda, a dos 30 anos. Por isso decidi tirar uma edição comemorativa do dossiê, que começou a circular no final da semana passada. Espero que seja um documento significativo da trajetória desta publicação, capaz de contribuir para a sua história e ser de alguma utilidade para a imprensa paraense.

O Jornal Pessoal resultou de um ato de indignação diante de uma frase por diversas vezes repetida para um jornalista quando sua matéria contraria ou se choca com a linha editorial da empresa para a qual ele trabalha: se quiser publicá-la, ele que crie seu próprio jornal. Quase sempre a porta se fecha, a matéria não sai e o jornalista enfia sua viola no saco – ou esquecendo da música, ou indo cantar em outra freguesia.

Ao voltar para São Paulo, em 1972, ocupei a função de pauteiro das sucursais e correspondentes de O Estado de S. Paulo. Pedia e recebia todos os dias centenas de matérias, produzidas por todo o país. Dialogava com os autores dos textos, cobrava suítes, sugeria mudanças.

Ao final da noite, minha mesa estava atulhada de mensagens de telex, que era então o mais moderno meio de comunicação escrita. Grande parte dessa produção jornalística não assumia a forma impressa. Por muitos motivos: da censura oficial, instalada na redação do jornal paulista, à falta de espaço para tanta coisa que chegava.

Entre as nove da noite e a meia-noite eu trabalhava sobre essa base, fazia pesquisas, consultava outros documentos, às vezes fazia contatos ou ouvia pessoas. E disso resultava o meu primeiro Jornal Pessoal, uma página inteira que saía na edição dominical da finada A Província do Pará. Como alguns dos meus textos começaram a ser vetados pela direção da empresa, e aproveitando o convite de Cláudio Augusto de Sá Leal, que então mudava de casa, transferi o meu jornal para O Liberal de domingo.

Inferno astral

No final de 1974 estava de novo em Belém e a página enviada de São Paulo, por malote aéreo, perdeu o seu sentido. Passei a dispor de uma coluna diária e, na última fase, depois da morte de Romulo Maiorana, em 1986, de espaço para minhas reportagens especiais. Mas não para aquela investigação sobre o assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles de Lima, em setembro de 1987.

Quando a porta da empresa se fechou, abri uma fresta num sótão. Ia aproveitar toda minha experiência para tentar forjar uma publicação que fosse ao mesmo tempo alternativa nos meios e completamente profissional na finalidade. Tinha nessa época 38 anos de idade e quase 22 de jornalismo. Sem essa base concreta, certamente este jornal teria durado pouco. E, mesmo se sua existência se prolongasse mais do que as previsões do momento, se perderia ao longo da sua carreira.

Fui um privilegiado pela circunstância de acompanhar passo a passo a história da Amazônia entre 1966, data que serviu de marco a uma nova fase da sua ocupação, e 1987, período que ainda se prolongou até 1992. Viajei muito por toda região nessa época, testemunhei os acontecimentos de corpo presente, formei fontes preciosas, colhi documentos fundamentais e tive o suporte de duas organizações – no plano nacional, em O Estado de S. Paulo, e, localmente, no grupo Liberal de Romulo Maiorana pai. Todas as sugestões de viagens que apresentei foram aprovadas. Nenhum fator me impediu de me deslocar de imediato para onde fatos relevantes estivessem acontecendo.

Foi com esse capital que dei início ao Jornal Pessoal. Desligando-me do Estadão em 1989, incorporei ao empreendimento um pouco de capital material graças à indenização que recebi. Foi assim que criei o serviço de assinaturas, ao qual se incorporaram 1.200 leitores, assegurando ao jornal uma posição privilegiada. Parecia que ele tinha a possibilidade de se tornar um negócio estável, a despeito de não aceitar publicidade.

Os processos judiciais sucessivos a partir de 1992 foram minando não só a estrutura física do jornal como as minhas condições de trabalho e a minha própria saúde. O JPsofreu duas breves interrupções por conta dessas dificuldades crescentes e por várias vezes pensei em encerrar a sua carreira. Só resisti por uma questão de honra pessoal e dignidade profissional: era justamente a extinção do jornal, o que pretendiam aqueles que me levaram às barras dos tribunais. Nãob era justa sua pretensão nem buscavam a verdade. Queriam eliminar uma voz incômoda e que resistia às seduções e intimidações para se calar.

Mas é evidente a deterioração do jornalismo aqui praticado. Neste mês, além de o JPcompletar 25 anos, chegarei aos 63 e a perseguição judicial alcançará a marca dos 20 anos. Tudo isso num mesmo mês, o que, de certa forma, daria razão aos astrólogos e videntes, para os que creem neles, sobre o inferno astral durante a mudança de idade.

Fome, desconforto, miséria

Mal coloco um novo número nas ruas, a pauta da edição seguinte se apresenta robusta. Mas o que sai impresso é uma pálida imagem do que foi pensado. Quando a tramitação dos processos se acelera, aí o conteúdo do JPse torna ainda mais insatisfatório. Às vezes fico arrasado. Meu senso profissional me exige que pare. Minha convicção, porém, não resiste aos dias seguintes.

Talvez porque eu seja um leitor exigente e, ao menos sobre Amazônia, bem informado. O que, na condição de leitor, leio na grande imprensa não me satisfaz. Sei que neste jornal estou fazendo bem menos do que poderia se não estivesse atado ao foro paraense (e que foro!) nem fosse um definitivo outsider do jornalismo. O problema é que a grande imprensa está fazendo ainda menos.

Não quero dizer com isso que sou melhor do que meus companheiros de profissão. Eles é que não dispõem de meios para fazer um acompanhamento dos acontecimentos na Amazônia: viajam pouco, quando viajam; não recebem estímulos para se qualificar; ganhando mal, são obrigados a ter outros meios de sobrevivência; e muitos deles, desistindo dos seus ideais e abandonando as melhores práticas profissionais, entregam os pontos e se submetem à domesticação empresarial.

Há pouco jornalismo de linha de frente, que é o melhor – e o fundamental – do jornalismo. A dinâmica da vida na Amazônia é acelerada, tem múltiplos elos, vários deles transcendendo as fronteiras regionais e nacionais. Sem profissionais capacitados, registrar a realidade concreta, oferecendo uma agenda significativa aos leitores, é impossível. Como leitor e como profissional, sinto essa lacuna.

Dou um exemplo expressivo. Quando a inundação do vale do Pindaré, no Maranhão, mostrou que seria catastrófica, no ano passado, circulei pela internet atrás de relatos testemunhais dos fatos. Fiquei ainda mais angustiado ao saber que, depois de alguns dias parados por causa do alagamento da ferrovia, os trens de minério de ferro de Carajás retomaram sua trilha hemorrágica até o porto da Ponta da Madeira, em São Luís.

Depois de muitas horas de caça na rede virtual, consegui imagens incríveis do trem quase navegando sobre as águas tufadas. A inventividade humana, com muito trabalho e dinheiro aplicados, fizera diques de cada lado dos trilhos e secara o seu interior com motobombas para que as gigantescas composições atravessassem o caudal como se fossem guiadas por um novo Moisés tecnológico.

Antes de começar a escrever sobre o que vi e anotei, passei um bom tempo a contemplar as imagens e a pensar sobre o seu vasto significado alegórico, metafórico e histórico. Ali estava o retrato colonial por excelência: dinheiro, tecnologia, gente e imaginação a serviço do que interessa: mandar para o mercado mundial os recursos da Amazônia, vitais por seu conteúdo eletrointensivo.

Enquanto isso, os moradores da baixada maranhense sofriam, quase desamparados e solitários, os azares da natureza, com fome, doenças, desconforto, miséria. Os helicópteros tinham que arremessar viveres, remédios e roupas do alto. Não podiam mais aterrissar para não atingir moradores, que corriam na direção do aparelho indiferentes ao risco de morrer a golpes de hélice.

Com esperança

Viver a história é a maior recompensa que o jornalismo pode nos proporcionar. Mesmo à distância, nesse caso, senti a pulsação do tempo naquelas imagens do trem quase aquático e da população submersa, num contraste vizinho que ilustrava a forma de ser do regime colonial. Se este jornal tivesse um pouco de capital e eu não estivesse posto numa condição prometeica, atado à rocha judicial, sujeito aos abutres poderosos, eu teria deixado minha cadeira e me mandado para a região, atendendo ao chamado da história, sempre carente de alguém que reporte sua epifania.

Foi o que sempre fiz enquanto estive vinculado a um órgão da grande imprensa. Mal tinha notícia de um fato relevante e já acionava a quem de direito para me garantir a locomoção até onde o canto do tempo chamava. Fui aos pontos extremos da Amazônia em Roraima, Rondônia, Acre, Amapá, Amazonas e até Maranhão e Mato Grosso. Na maioria das vezes, sozinho, tendo que decidir que transporte usar, a que companhia recorrer, quais as fontes buscar, como me comportar na adversidade, e ainda fotografar.

Fui intensamente feliz nessas ocasiões. Não só por conseguir troféus jornalísticos: a alegria vinha também dos contatos humanos, de conhecer pessoas que, mesmo sem saber, estavam contribuindo com seu tijolinho para essa grande construção humana que é a história. E uma história única, fugidia e veloz, como a da conquista e submissão da Amazônia. Seu fim.

O Jornal Pessoal não é mais essa presença de vanguarda que alimenta a esperança (e a ilusão) de que essa história não seguirá exclusivamente a versão do colonizador. Mas continua empenhado em manter qualquer forma de registro alternativo e a encorajar os que quiserem se lançar à senda desse desafio formidável e recompensador. Mesmo que, a cada nova edição, se acendam simultaneamente a esperança e a frustração.

Felizmente o grande poeta mineiro (da Itabira de que Parauapebas é a nova edição, ampliada e piorada), Carlos Drummond de Andrade, nos animou a trabalhar com a palavra mal começa amanhã, mesmo que venha a ser uma matéria prima precária e fugaz. Não importa: toda essa história não se originou do barro? Pois enquanto houver poeira no ar, a esperança não morrerá.

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Jornalismo que reluz

Num artigo sobre Belo Monte para a revista eletrônica Carta Maior, o jornalista Najar Tubino criticou o procedimento das empreiteiras nas grandes obras na Amazônia, autoritário e arrogante. E citou um exemplo seu em abono dessa observação, Reproduzo esse trecho porque pode ser pedagógico para outros jornalistas e para o público em geral no trato com o tema amazônico:

“No final da década de 1970, em uma visita sem autorização ao projeto do então bilionário Daniel Ludwig no Projeto Jari, na divisa entre o Amapá e o Pará, conheci o método das construtoras. Quando aconteceu um tumulto desse tipo, baixou em Monte Dourado, a capital do Jari, um pelotão do Exército, de Boeing, pois a empresa mantinha uma linha aérea Monte Dourado-Belém-Miami. Na época a única coisa do Estado brasileiro dentro dos três milhões de hectares que o americano dizia possuir, era um posto do Ministério do Trabalho. Isso aconteceu em 1979”.

Imediatamente postei este comentário:

“Prezado Tubino. No seu artigo você diz que, ‘no final da década de 1970, em uma visita sem autorização ao projeto do então bilionário Daniel Ludwig no Projeto Jari, na divisa entre o Amapá e o Pará’, conheceu ‘o método das construtoras’. Teria sido quando (aí você já define a data: 1979) aconteceu um tumulto desse tipo e ‘baixou em Monte Dourado, a capital do Jari, um pelotão do Exército, de Boeing, pois a empresa mantinha uma linha aérea Monte Dourado-Belém-Miami’. Nada disso é verdade. O primeiro tumulto foi em 1972, quando um grupo de peões protestou contra as condições de trabalho no local, surpreendendo a comitiva do presidente Garrastazu Médici, que visitava o projeto. O segundo tumulto foi em 1973, por causa de um surto de meningite (que antecedeu e, de certa forma, deu causa, à pandemia de São Paulo) e eu o revelei, em ‘furo’, em O Estado de S. Paulo e em Opinião. A linha aerea que havia era entre Monte Dourado e Belém, com um DC-3 e, depois, um Hirondelle. Nada de Miami. O Exército não baixou na área. Quem atuou foi a Polícia Militar. Em 1979 já havia no Jari, além do Ministério do Trabalho, a Capitania dos Portos e o sindicato dos estivadores, para cujo ingresso no local minhas matérias deram sua contribuição. Em 1984 escrevi um livro sobre o Jari com base em 13 anos de viagens ao local e anotações.”

O jornalista respondeu ao editor da revista:

“O Lúcio Flávio Pinto mandou um comentário a respeito da viagem ao Jari. Nós estivemos em 1979 – eu, os repórteres Caco Schimidt e José Neto – durante um mês na região. Alugamos um barco porque haviam negado a nossa entrada na região, era aprovada pela empresa do Daniel Ludwig. Ficamos 16 dias no rio Jari. Uma equipe de segurança da empresa tentou nos prender. Fomos falar com o delegado na vila do Beiradão, que fica na frente de Monte Dourado. Explicamos que éramos jornalistas. Eles diziam que uns cabeludos estavam na região e podiam ser assaltantes. Na fábrica de celulose da Jari, encontramos operários e peões em greve. Sobre a descida de um pelotão do Exército na região isso nos foi relatado por várias pessoas.O José Neto fotografou o próprio Ludwig descendo de um Boeing em Monte Dourado, com uma comitiva de banqueiros. E a linha existia, porque vimos isso nas escalas da empresa e em conversa com os técnicos e executivos. Recebemos documentos de funcionários da Jari, principalmente de uma secretária que era chilena. Só continuamos na área, porque no outro dia do incidente com a gente, era a inauguração do posto da Capitania dos Portos em Monte Dourado. Eu falei com o comandante sobre a situação. A nossa matéria com a foto do Ludwig, que era uma raridade, foi publicada no COOJORNAL – órgão da Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre e na capa do Pasquim. Também publicamos uma matéria sobre a prostituição no Beiradão, no jornal Repórter, doTim Lopes. A nossa viagem na Amazônia durou três meses e meio. Em 1980 eu voltei mais uma vez. Depois disso, nos 13 anos que morei no cerrado estive vãrias vezes no norte do Mato Grosso e no Pará. Também escrevemos um livro sobre o Jari, mas por problemas com a Editora do Pasquim o livro não saiu. Desde essa época que pesquiso sobre a Amazônia. Sobre energia, nos últimos três anos, junto com Luam Tubino, meu filho, economista, temos pesquisado sobre energia, principalmente, etanol e biocombustíveis, petróleo e hidrelétricas. Temos um arquivo bem recheado. Não sei como publicar isso. Mas gostaria de esclarecer. Também estivemos com o Lúcio Flávio, em Belém, mas acho que ele esqueceu. Um abraço.”

E eu trepliquei assim:

“Caro Tubino. Não questiono que você esteve no Jari. O que questionei foram os outros fatos e as datas. Garanto-lhe que não havia essa linha Monte Dourado-Belém-Miami, a que você se referiu. Isso é fato, mas você pode pesquisar à vontade se quiser contestar. Se você fotografou o Ludwig saindo de um jato pousado em Monte Dourado, acompanhando banqueiros, seria bom divulgá-la. Esta é raridade mesmo. Fotos do Ludwig, a edição de Realidade/Amazônia de 1971 divulgou, feitas pelo Sérgio Buarque de Gusmão. Mas o milionário americano chegando ao aeroporto de Belém. Por duas vezes estive ao lado dele, mas ele se recusou a me dar entrevista. Fui persona non grata ao Jari durante alguns anos. Voltei à área por pressão interna de técnicos que queriam que eu acompanhasse o projeto. Também havia gente boa, competente e honesta por lá. Realmente não lembrava o nosso contato, tantos eu mantenho com quem me procura em Belém. Continuo ao dispor para o que ainda puder ser útil.”

Não houve nova manifestação até encerrar a edição deste jornal.

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[Lúcio Flávio Pinto é jornalista e editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)]