Tuesday, 24 de May de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1188

A busca do “texto oculto” na leitura de notícias

Foto: Roman Kraft/Unsplash

Os meus colegas jornalistas que me perdoem, mas não dá mais para ler uma notícia de jornal apenas pelo que está publicado. O nosso universo informativo ficou muito mais complexo depois do surgimento da avalanche informativa na internet. Não dá mais para tomar como verdade absoluta a representação de um dado, fato ou evento feita por um repórter, editor e dono de um veículo de comunicação jornalística.

Este fenômeno, inédito na história do jornalismo, está nos obrigando a tomar uma notícia de jornal apenas como um ponto de partida para uma análise que, necessariamente, envolve a preocupação em descobrir o contexto do que foi publicado. A notícia de jornal não é mais a verdade definitiva, mas a porta de entrada numa realidade desconhecida e inevitavelmente complexa, contraditória e diversa.

Uma notícia como por exemplo a alta do dólar pode ser lida como um fato positivo para quem é exportador, uma catástrofe para quem depende da importação, uma arma político/eleitoral para um candidato presidencial, uma manipulação cambial por especuladores ou um ajuste macroeconômico promovido por bancos multinacionais. É apenas uma amostra de diversas percepções possíveis para um mesmo dado numérico.

Trata-se de uma mudança de atitudes que afeta profundamente a forma como a imprensa e o jornalismo autônomo abordam a notícia. A concepção tradicional coloca o jornalismo como uma espécie de fiel da verdade, apesar da retórica profissional e corporativa preconizar a necessidade de diversificação das versões e fontes. O jornalismo tradicional não se preocupa em induzir o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta a buscar outras fontes, porque a cultura profissional e corporativa ainda não leva em conta o fato de que já está provado que não há verdades absolutas.

O posicionamento da grande imprensa nacional na questão da proposta de emenda constitucional (PEC) alterando o funcionamento do Conselho Nacional do Ministério Público é um exemplo claro de como o noticiário induz o público a um posicionamento favorável a interesses empresariais e corporativos e não um convite à avaliação da complexidade do tema em debate.

Esta mesma atitude se repete em quase todas as notícias publicadas na imprensa e redes sociais porque a cultura predominante nas empresas jornalísticas é a de que elas sabem o que é bom para as pessoas. Isto é impossível na realidade da era digital. Um jornal, revista ou rede de TV tem condições de identificar o que é bom para a empresa, mas não pode saber o que é bom para o público por causa da incrível diversidade de percepções existentes no conjunto de sociedade.

O leitor crítico

A principal mudança que todos nós teremos que incorporar à nossas rotinas informativas é a necessidade de sermos críticos em relação às notícias que lemos, ouvimos ou assistimos. Ser crítico não significa ceticismo, incredulidade ou rejeição sistemática. O criticismo implica em procurar analisar, contextualizar e conferir uma notícia. Exige reflexão em vez da aceitação ou aversão automáticas.

Teremos que ser muito mais cuidadosos na seleção e avaliação das informações que chegam até nós e isto obrigará a um penoso ajuste de condutas pessoais. É todo uma herança comportamental que terá que ser alterada para que a gente consiga sobreviver no caos informativo.

Não se trata de fazer julgamentos morais sobre os profissionais encarregados de produzir e publicar notícias. A intensidade e diversidade do fluxo de informações circulando na internet aumentou nossas dúvidas e tende a reduzir o grau de certezas que cada um de nós desenvolve sobre aquilo que lemos, ouvimos ou vemos num jornal, revista, radio, telejornal ou rede social.

A busca de um novo modelo de formatação de notícias baseado numa cultura da diversificação informativa está apenas começando. Mas tudo indica que as regras vigentes na maioria dos manuais de redação terão que ser revistas e adaptadas. A primeira grande diferença é a preocupação centralizada no público que receberá a notícia porque ele é a razão e a fonte da diversidade de percepções da realidade. Levando em conta este fator, talvez seja necessário evitar apresentar uma notícia como um produto acabado. Em vez disso, mostrar como ela se situa num contexto que precisa ser explorado para que as pessoas possam compreender melhor o que está acontecendo.

A regra da pirâmide invertida (o mais importante logo no início) terá que ser revista, porque ela expressa aquilo que o jornalista ou editor considera o mais relevante numa notícia, comportamento que inevitavelmente condiciona o desenvolvimento das pessoas, especialmente aquelas que desconhecem os antecedentes do fato, dado ou evento em questão.

A referência é o público e não a empresa

Outra norma básica no jornalismo analógico é a preocupação em responder às perguntas o que, quando, como, onde e por que, na hora de produzir uma notícia ou reportagem. Caberá agora ao leitor, ouvinte ou telespectador buscar ele próprio as respostas, para que elas atendam às circunstâncias particulares de cada pessoa. O jornalista passa a ser um curador ao sugerir onde e como encontrar as respostas procuradas.

O jornalismo ainda é muito dependente das empresas de comunicação, que mesmo em crise, continuam influindo mais na agenda pública de debates do que os profissionais autônomos responsáveis por blogs, páginas pessoais e espaços em redes sociais. Inevitavelmente, isto cria uma situação em que o jornalista é levado a se preocupar mais com o universo corporativo e governamental do que com as pessoas que leem, ouvem ou assistem noticiários.

O público passou a ter uma importância estratégica na atividade profissional porque os jornalistas necessitam, cada vez mais, dos blogs pessoais, páginas web e postagens em redes sociais como fonte de notícias. A histórica dependência de fontes governamentais e corporativas está rapidamente sendo substituídas pela notícia oriunda de comunidades, grupos sociais organizados e influenciadores digitais. A agenda de notícias das elites perde espaços para a agenda do público. É esta nova forma de ver a realidade que está na base da necessidade do chamado “texto oculto”, um jargão acadêmico para uma diversificação na nossa nova maneira forma de ler, ouvir e ver notícias.

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.