Quinta-feira, 26 de março de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1381

O elo perdido entre a imprensa, a corrupção e outras tragédias brasileiras

(Foto: Tima Miroshnichenko/Pexels)

Setecentos mil mortos da pandemia de Covid-19 no Brasil não são estatísticas ou números. Representam setecentas mil famílias destroçadas.

Quantas vítimas poderiam ser evitadas se a população fosse simplesmente orientada, sem controvérsias, a usar máscaras, higienizar as mãos com frequência, cumprir isolamento ou, simplesmente, manter distância de outras pessoas para evitar a contaminação?

Seis anos depois, a pauta sobre Covid pode ser retomada sob diferentes aspectos, pouco explorados. Entre eles: quantas pessoas foram infectadas e mortas por Covid no Brasil em 2025?

Como estão as campanhas de conscientização para a população se vacinar contra a doença? Qual a taxa de cobertura vacinal?

Houve negligência na condução da pandemia no país? O que resultou, de fato, do ponto de vista jurídico?

Como estão as vítimas que sofrem com sequelas físicas da contaminação? Quais sequelas psicológicas a pandemia causou? O que aconteceu com as crianças que perderam o pai e mãe na pandemia?

Normalizamos tragédias. Mortes diárias nas estradas, nas enchentes, por latrocínios e balas perdidas de fuzil que encontram cabeças de crianças nas escolas. Estatísticas.

A dor que a mãe vai levar até a morte, após enterrar o filho ou a filha, é resumida nas manchetes a mais uma criança morta durante tiroteio entre a polícia e traficantes no Rio de Janeiro.

É muitas vezes higiênico o papel da imprensa brasileira. Não fosse o trabalho de investigações e denúncias feitas por jornalistas, este país já teria afundado no caos econômico e social ou em regimes de exceção.

É nesse ponto que se forma um elo raramente explicitado: quando a corrupção é noticiada sem a tradução clara de suas consequências concretas, ela se distancia da vida real e perde sua dimensão humana.

Além de expor os esquemas que mantêm a corrupção brasileira, frequentemente apontada em estudos e análises como um problema estrutural, deveríamos fazer constar em cada matéria sobre desvio de dinheiro público o que foi extirpado do cidadão que paga impostos altíssimos.

Desvio é um eufemismo para apropriação indevida ou fraude. A palavra suaviza o que deveria ser dito com clareza: dinheiro público que seria destinado a uma escola, por exemplo, acabou no bolso de alguém.

O recurso do box, que praticamente sumiu dos textos publicados, era utilizado no jornalismo impresso para dar suporte à reportagem. Nele, reuniam-se, em poucas linhas, números importantes, dados-chave, contexto histórico e informações complementares que ajudavam o leitor a compreender o conteúdo com mais clareza.

Não adianta escrever para minorias e ignorar a parcela quase absoluta para quem escrevemos.

Segundo o IBGE (PNAD Contínua, ano base 2024), 5,3% da população com 15 anos ou mais é analfabeta, o equivalente a 9,1 milhões de pessoas.

De acordo com o INAF, edição 2024/2025, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são considerados analfabetos funcionais, ou seja, conseguem ler palavras ou frases simples, mas não são capazes de interpretar textos ou utilizar a leitura no cotidiano.

Isso significa que cerca de 71% da população possui ao menos habilidades básicas de leitura. Apenas uma parcela reduzida — estimada entre 12% e 15% — atinge níveis plenos de compreensão, sendo capaz de interpretar, analisar e refletir criticamente sobre textos.

Profissionais que não vivem da comunicação — médicos, arquitetos, advogados, entre outros — acreditam que escrever bem significa usar palavras rebuscadas ou frases complexas. É um erro clássico.

Escrever bem é o oposto: transformar uma ideia complexa em algo comum que qualquer pessoa, dentro ou fora do seu universo, consiga absorver e aplicar.

A complexidade exige clareza absoluta. Fora isso, todo trabalho apurado nas redações pode resultar, em muitos casos, em excelente material com enorme potencial para não ser compreendido.

É justamente essa ausência de tradução que transforma cifras em abstrações. E é nesse espaço que o elo perdido se estabelece: entre o dinheiro desviado, a forma como ele é comunicado e as tragédias que deixam de ser evitadas.

Para efeito de análise, consideramos hipoteticamente um desvio de R$ 52 bilhões, sem imputar responsabilidade a qualquer instituição específica ou agente público ou da iniciativa privada.

Esse valor é dinheiro suficiente para operar transformações significativas na infraestrutura brasileira, um dos maiores gargalos do país.

Aqui vão alguns exemplos do que, hipoteticamente, poderia ser feito com R$ 52 bilhões:

Dados de referência do DNIT (ano base 2025) indicam que o custo médio por quilômetro de rodovia é de aproximadamente R$ 10 milhões, permitindo asfaltar 5.200 km, distância de São Paulo até Lima, no Peru.

Daria para fazer uma rodovia duplicada, ida e volta, de primeiro mundo, ligando Campo Grande (MS) a Salvador (BA).

Com base nos parâmetros do SINAPI e do Ministério da Saúde (ano base 2025), seria possível implantar 17.300 unidades básicas de saúde (UBS) com cobertura praticamente universal.

Segundo estimativas do FNDE (ano base 2025), a construção de 6.500 escolas públicas teria custo médio entre R$ 6 e R$ 12 milhões por unidade, atendendo cerca de 3,2 milhões de estudantes.

Conforme dados do FNDE (ano base 2025), aproximadamente 17.300 creches poderiam ser construídas para atender 1,4 milhão de crianças.

Parâmetros do programa Minha Casa Minha Vida (ano base 2025) indicam que seria possível construir com R$ 52 bilhões cerca de 346 mil moradias populares, beneficiando aproximadamente 346 mil famílias.

Somente no setor da construção civil, para atender ao Minha Casa Minha Vida, ao longo de dois anos contínuos, o mesmo valor proporcionaria centenas de milhares de empregos diretos a pedreiros, serventes, eletricistas, engenheiros, mestres de obra, ajudantes e ainda impulsionaria as indústrias do cimento, do aço e de tijolos.

Além disso, criaria demandas diretas para o transporte, para o comércio, o agronegócio e o setor de serviços, conforme multiplicadores tradicionais do setor.

Com R$ 52 bilhões seria possível recuperar integralmente a Baía de Guanabara, revertendo décadas de degradação ambiental e transformando um dos principais cartões-postais do Brasil em um ativo econômico, social e turístico de escala global.

Segundo estimativas históricas de projetos de saneamento (anos 2000–2020), despoluir o Rio Tietê demandaria algo em torno de R$ 20 a 50 bilhões.

A iniciativa envolveria a expansão de redes coletoras em áreas urbanas, ligação de milhões de residências ao sistema, construção e ampliação de Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e aumento da capacidade de tratamento para níveis próximos de 100%.

A despoluição atenderia o controle de águas pluviais, combate a ligações clandestinas, retirada de sedimentos contaminados, limpeza de resíduos sólidos e recuperação de afluentes.

De quebra, entre os benefícios, o paulistano poderia nadar no Tietê que corta o município, usar o local como ponto turístico para passeios e até pescar nas margens para aliviar a tensão de morar na maior cidade da América Latina, que está entre as seis maiores do mundo.

Falhamos quando a linguagem falha.

Fontes de Pesquisa

IBGE – PNAD Contínua 2024 (analfabetismo)

https://dados.gov.br/dados/conjuntos-dados/pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-anual-pnadc-a

INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional 2024/2025

https://alfabetismofuncional.org.br/

DNIT – Custos médios de obras rodoviárias (R$ 10 milhões/km)

https://www.gov.br/dnit/pt-br/assuntos/planejamento-e-pesquisa/custos-referenciais

SINAPI/IBGE – UBS, escolas, creches, moradias

https://www.caixa.gov.br/poder-publico/modernizacao-gestao/sinapi/Paginas/default.aspx

FNDE – Projetos padrão de escolas e creches

https://www.gov.br/fnde/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/proinfancia/projetos-arquitetonicos-para-construcao/projeto-tipo-1

Ministério das Cidades – Programa Minha Casa Minha Vida

https://www.gov.br/cidades/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/habitacao/programa-minha-casa-minha-vida/bases-de-dados-do-programa-minha-casa-minha-vida

Ministério da Saúde – Projetos padronizados de UBS

https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/requalifica-ubs/projetos-padronizados-ubs

Integra Tietê – Estimativa de custo de despoluição do Rio Tietê

https://semil.sp.gov.br/integratiete/investimentos/

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Paulo Renato Coelho Netto é jornalista, pós-graduado em Marketing. Tem reportagens publicadas nas Revistas Piauí, Época e Veja digital; nos sites UOL/Piauí/Folha de S.Paulo, O GLOBO, CLAUDIA/Abril, Observatório da Imprensa e VICE Brasil. Foi repórter nos jornais Gazeta Mercantil e Diário do Grande ABC. É autor de nove livros, entre os quais biografias e “2020 O Ano Que Não Existiu – A Pandemia de verde e amarelo”.