
(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
A autonomia do Banco Central do Brasil (BC) vai muito além de garantir que a sua direção não seja demitida pelo presidente da República. Ela também garante segurança jurídica para os dirigentes do BC enfrentarem as armadilhas espalhadas no sistema bancário. A liquidação extrajudicial do Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, 42 anos, é uma demonstração da importância da autonomia do BC. Ela pode contribuir para deter o avanço, revelado pela Operação Carbono Oculto, das facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e outras tantas que nos últimos anos surgiram, cresceram, se sofisticaram e se entranharam no cotidiano do brasileiro, e que estão se infiltrando no mercado financeiro para lavar bilhões em dinheiro sujo.
Começamos a nossa conversa falando sobre a autonomia do BC, uma luta que durou três décadas. Finalmente, em 24 de fevereiro de 2021, o então presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, sancionou a Lei Complementar 179/2021, dando autonomia ao BC. Ficou instituído que o mandato do presidente do banco seria de quatro anos. E não coincidiria com o mandato do presidente da República. O primeiro presidente do Banco Central com autonomia para decidir sobre a política monetária do país foi o economista Roberto Campos Neto, 56 anos, que ocupou o cargo até 1º de janeiro de 2025, já na metade do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. Campos Neto foi substituído pelo seu colega Gabriel Galípolo, 43 anos. Acrescento que os conflitos entre os presidentes do BC e da República referentes às taxas de juros fazem parte da cultura política. Advirto que esse conflito não acontece só no Brasil. Seguimos a nossa conversa. Vamos falar sobre a infiltração das organizações criminosas no sistema financeiro. Ela é real e preocupante, como foi revelado pela Operação Carbono Oculto, uma ação conjunta da Polícia Federal (PF), do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e da Receita Federal, realizada em agosto de 2025. Os investigadores flagraram a infiltração do PCC na Faria Lima, uma referência à Avenida Brigadeiro Faria Lima, na cidade de São Paulo, o endereço do maior centro financeiro da América do Sul. A operação revelou um esquema de lavagem de dinheiro por meio da importação, distribuição e comercialização de combustíveis e a camuflagem do patrimônio usando fintechs (plataformas online que realizam pagamentos) e fundos de pensão. Na época, foi grande a surpresa da imprensa ao ver a chegada do PCC à Faria Lima. Na verdade, a facção criminosa não estava chegando, ela já estava lá instalada há um bom tempo. Como havia sido revelado em março de 2024, na delação premiada de Antônio Vinicius Lopes Gritzbach, 38 anos, ao Gaeco de São Paulo. Empresário do setor imobiliário, Gritzbach usava imóveis para lavar dinheiro do PCC e do CV. Ele revelou todo o esquema de lavagem de dinheiro e a prestação de serviços de policiais para as organizações criminosas. Em novembro de 2024, foi executado no Aeroporto Internacional de Guarulhos – na época, publiquei o post Delator do PCC foi executado no estilo dos acertos de contas dos cartéis mexicanos. Nos meses seguintes, usado a trilha de pistas descobertas na Carbono Oculto, aconteceram várias outras operações buscando os infiltrados nos mercados financeiros a serviço das organizações criminosas.
O caso do Banco Master é uma outra história e as investigações ainda não estão concluídas. Mas o que já foi revelado nos permite dizer que foi o “batismo de fogo” do atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Esse novo capítulo da história das fraudes contra o sistema financeiro começou a ser escrito no final de novembro passado, quando a PF prendeu o presidente Daniel Vorcaro e quatro dos seus sócios no Master. Ao mesmo tempo, o BC decretou a liquidação extrajudicial do banco. Usando o linguajar técnico, a liquidação aconteceu porque foi descoberto que o Master estava usando nos seus negócios métodos que violavam as leis e, portanto, colocavam em risco os seus clientes. Doze dias depois de ser preso, Vorcaro saiu da cadeia com tornozeleira eletrônica e foi para prisão domiciliar. Nesse ponto do enredo começa o enfrentamento entre Vorcaro e Galípolo e a direção do BC. Antes, uma explicação que julgo necessária. A história do Master é curta e interessante. Em 1990, surgiu o Banco Máxima, em São Paulo. Em 2018, o controle do banco foi assumido por Vorcaro. Em 2021, ele trocou o nome para Banco Master, que cresceu no mercado oferecendo para os seus clientes rendimentos muito acima dos concorrentes. O que todas as reportagens sobre o caso têm mostrado é que foi montado um sistema para proteger as operações arriscadas do banco. Uma rede de proteção que lembra o escudo de defesa de Israel, o Domo de Ferro, que detecta e destrói os mísseis lançados contra o país. Vou citar um exemplo. Na primeira semana de janeiro, o vereador Rony Gabriel (PL), de Erechim (RS), que tem 1,7 milhão de seguidores no Instagram, denunciou que foi procurado por uma agência de publicidade que estava contratando influenciadores sociais para trabalhar em uma campanha contra o BC e em favor de Vorcaro. No caso aqui, o míssil inimigo era Galípolo e a direção do BC – matérias na internet. O vereador recusou a oferta. Vorcaro disse que não tinha nada a ver com o caso. O próximo passo de Galípolo foi dado na última quinta-feira (15): decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos de Valores Mobiliários S.A., o novo nome da Reag Trust. A PF encontrou as digitais da empresa nos negócios do Master.
Para arrematar a conversa. A história do Master começou com a PF e o BC. Atualmente, já trabalham no caso o Supremo Tribunal Federal (STF), a Procuradoria-Geral da República (PGR), o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Congresso. Ainda existem muitas pontas soltas na investigação. Aqui é o seguinte. No final da história é a Justiça que decidirá quem são os inocentes e os culpados. E quem vai cavar fundo nesta história na busca dos fatos e seus bastidores é a imprensa. É assim que as coisas funcionam. Estou há mais de 40 anos envolvido com a investigação jornalística. Acompanho atentamente a cobertura do caso Master. Aprendi na lida que as coberturas mais complexas são também as que oferecem as melhores oportunidades de garimpar boas informações. Como em toda grande cobertura jornalística, a do caso Master tem lá os seus problemas. A maioria é causada pela acirrada concorrência entre os jornais, que mantém o sangue dos jornalistas circulando a mil por hora. A carga de trabalho do repórter nos dias atuais é enorme. Porque houve uma diminuição dos efetivos nas redações e um aumento de demanda de notícias trazidas pelas novas tecnologias da comunicação. Trabalhei em redação de 1979 a 2014, hoje ando pelas estradas procurando boas histórias para contar. Nas confusões, se sai melhor o repórter que tem as melhores fontes. A respeito das fontes, vou lembrar aos jovens repórteres um conselho que recebi logo que pisei na redação. Fui alertado por um colega calejado na lida da reportagem que, durante a cobertura de grandes confusões, proliferam em torno da imprensa as “pessoas que têm segredos para contar”, desde que seu nome não seja revelado. Fui advertido pelo colega do seguinte: “Não existe almoço grátis”. Antes de fazer um acordo com uma fonte, devemos lembrar que ela tem os seus interesses. Ainda mais em situações de conflito, quando ninguém se aproxima da imprensa “pelos nossos belos olhos”. Faz parte do jogo. Se aprende fazer jornalismo, fazendo. Os professores das faculdades de comunicação têm a oportunidade de unir todos os pontos soltos da cobertura e discuti-los com os seus alunos. Nossos futuros colegas na tal “trincheira da imprensa”.
Publicado originalmente em História Mal Contadas.
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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.
