Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

O sensacionalismo que aposta no quanto pior, melhor

(Foto: Maxim Ilyahov na Unsplash)

O sensacionalismo revela características disseminadas na mídia e evidencia constatações hoje consensuais (de que responde à função catártica, por exemplo). Ficou muito relacionado ao jornalismo que privilegiava a superexposição da violência por intermédio da cobertura policial e da publicação de fotos chocantes, de distorções, de mentiras, e da utilização de uma linguagem composta por gírias e palavrões. Entendemos que o sensacionalismo é historicamente recorrente e manifesta-se em vários graus e de diversas maneiras, por isso não devemos tratar do fenômeno in totum. Rotular um jornal de sensacionalista é enfatizar, de uma maneira geral, que ele se dedica a provocar sensações, prática hoje generalizada.

Não é de hoje que a coletividade sofre com notícias falsas, informações desencontradas e acusações infundadas. Recentemente, vivenciamos, durante a pandemia, ataques às vacinas e exaltação de medicamentos de eficácia não comprovada. Agora isso volta a ocorrer neste momento em que vivenciamos as inundações no Rio Grande do Sul. “Os gaúchos lidam com a enchente de rios e um mar de fake news” – alerta Abrahão F. do Nascimento, na coluna “Desabafos” do jornal Correio Braziliense (15/5/2024).

A desinformação acaba sendo um desserviço e demanda atividade para combatê-la num momento em que todos os esforços deveriam estar voltados para ajudar quem realmente precisa. Diante dessas práticas que só agravam um quadro já caótico, resta esperar uma reação consciente da sociedade para desautorizar esses arautos do “quanto pior, melhor”. E os que cometeram crimes ao impulsionar mentiras, que a lei os alcance na medida de sua culpabilidade. Além disso, seria desejável que cada internauta buscasse confirmar aquilo que repassa na internet para não fazer parte de uma rede que vai na contramão da solidariedade.

Na tradição liberal, o Estado deve abster-se totalmente de qualquer interferência em relação à liberdade de expressão dos cidadãos. Essa interferência é entendida como cerceamento da liberdade individual, como uma forma de censura. Na tradição republicana, ao contrário, a intervenção do Estado é bem-vinda na medida em que são os cidadãos que definem, através de sua participação política na res publica [vida activa], as regras que serão seguidas para que a liberdade seja desfrutada em sua plenitude [autogoverno]. A liberdade de expressão é o instrumento básico dessa participação e, embora se realize tanto no espaço público quanto no espaço privado, neste, ela só é possível através da política, vale dizer, de sua defesa pública. Cabe ao Estado garantir que todos os cidadãos possam exercer igualitária e plenamente a liberdade de expressão.

Tentando combater o sensacionalismo midiático – em suma, o jornalismo apelativo e antiético, – cresce como necessidade o controle social dos meios de comunicação. Muitas vezes, ao taxarmos um jornal ou programa de sensacionalista, também revelamos uma noção equivocada da atividade jornalística, uma visão problemática dos aspectos culturais que a envolvem e uma compreensão simplista que reduz os jornais e programas populares à manipulação, degradação ou interesse comercial. É de Machado de Assis (1839-1908) uma definição crucial sobre a importância do jornalismo para a ilustração pública: “O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções” (O jornal e o livro, 1859).

Em regimes democráticos, os conflitos sociais são possibilitados pelas instituições e pelas leis, assim como pelos pactos entre as classes sociais. Ressalta ainda que o sistema de governo considerado democrático é aquele que permite a manifestação de interesses diversos na esfera pública, arena que incorpora os interesses comuns e os de classes: os interesses comuns são os relacionados à nação, à identidade nacional e ao Estado nacional, e os interesses de classes aqueles que se distinguem em razão da posição e interesses de cada classe social. A mídia se autodefine como neutra, independente, apartidária e não ideológica, porém carrega amiúde valores hegemônicos e interesses tendenciosos.

Acontece que quem está sendo chamado para colocar a casa em ordem carrega uma série de vícios problemáticos. Nesse sentido, alerta o jornalista Flávio Tavares, em O dia em que Getúlio matou Allende e outras novelas do poder (2004): “O poder político é quase tão-só um gigantesco espelho que nos reflete aquilo que nós queremos ver refletido, sem que isso, necessariamente, reproduza a realidade ou seja a sua cara fiel. A pompa ou as convenções humanas — chame-se como for — deram ao poder a chama e a luminosidade do deslumbramento, e, assim, ao ser lume e luz, nos deslumbra. Não nos deslumbra, porém, no sentido de nos fazer mais luz, mas no sentido de nos ofuscar e nos cegar. Todo deslumbramento é um choque e todo deslumbramento enceguece pelo acúmulo e diversidade de luzes que contém. Pela sua intensidade”.

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Marcos Fabricio Lopes da Silva é Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE-UFMG). Poeta, professor autônomo e pesquisador independente. Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB).