Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

A polarização das incertezas

Foto: Felipe Campos Mello

A polarização ideológica que toma conta da política brasileira atualmente veio para ficar ou é um fenômeno passageiro? Esta é apenas a mais preocupante de uma série de perguntas que jogam muitas dúvidas sobre o nosso futuro. Outra dúvida, não menos inquietante é: por que centenas de indivíduos foram contagiados por um extemporâneo saudosismo num momento em que a humanidade vive um dos maiores surtos de inovação de sua história? Será possível voltar à segurança dos “velhos e bons” tempos passados? E o que está motivando o surgimento de tanta inquietação?

O simples fato de convivermos com tantas perguntas sobre nosso futuro como sociedade já fornece uma pista sobre a natureza do problema que enfrentamos. O volume e a intensidade das incertezas mostram que temos mais dúvidas do que certezas e não somos os únicos a viver tal situação. O que nos diferencia da maioria das nações do mundo é o fortalecimento interno de grupos políticos de extrema direita que contestam a ordem vigente, com um claro apelo à um retorno ao passado.

Existe uma certa hierarquia nas dúvidas que preocupam os brasileiros. Há uma causa global, que afeta a todo o planeta e uma local, específica do nosso país. O mundo inteiro vive hoje um processo de transição da era analógica para a digital, o que por si só já cria uma incerteza globalizada, enquanto, localmente, vemos um governo errático responsável por um processo de desestabilização social, política e econômica.
As incógnitas surgidas em torno da transição para a era cibernética têm uma única e grande causa em comum: nossa dificuldade em conviver com tantas novidades e dúvidas criadas pela chegada de novas tecnologias que alteram radicalmente nosso modo de viver. Está não é uma situação atípica na história da humanidade porque grandes transformações tecnológicas como a invenção da imprensa, das máquinas a vapor, da eletricidade e da energia nuclear também geraram convulsões sociais, conflitos militares e guerras econômicas.

Grandes inovações inevitavelmente produzem grandes incertezas antes que as novidades sejam absorvidas pela sociedade da época. O que estamos vivendo hoje é a transição de um modelo social, político e econômico baseado numa concepção analógica da realidade que nos cerca para um sistema onde a abordagem digital é predominante, sem, no entanto, eliminar a herança legada por avanços tecnológicos e humanísticos anteriores. Estamos usando ferramentas futuristas, mas nossos mecanismos mentais ainda estão nos séculos XIX e XX.

O contrassenso do voto impresso

Em alguns momentos, nossas inseguranças têm motivos quase óbvios quando, por exemplo, nos defrontamos com um terminal eletrônico de banco que nos obriga a uma desafiadora viagem por um emaranhado de opções, sem qualquer ajuda humana. Noutras situações, a relação entre causa e consequência deste paradoxal instinto de volta ao passado é complexa e sem um nexo direto aparente, como é o caso das razões pelas quais alguns brasileiros apoiam a volta do voto impresso, depois de termos desenvolvido a urna eletrônica mais moderna do mundo.

Diante do crescimento do número das perguntas, ainda sem reposta, para nossas dúvidas pessoais e dilemas coletivos na sociedade em que vivemos, a tendência é as pessoas se agarrarem ao que é conhecido, seguro e estável. É um instinto natural que se manifesta de forma mais aguda nos tempos de crise provocados quando surge algo novo e imprevisto que muda as rotinas, normas e valores vividos pelas pessoas. Nos momentos de crise, o passado tranquiliza e o futuro assusta, diz a sabedoria popular.
É o que estamos assistindo aqui no Brasil, com a polêmica em torno do voto impresso nas eleições presidenciais do ano que vem. A ideia da volta ao voto no papel está associada a um encabulado sentimento de medo diante das incertezas políticas resultantes de um provável retorno ao poder do ex-presidente Lula. Não há fatores objetivos capazes de justificar uma suposta maior segurança do voto impresso e nem que uma derrota do bolsonarismo represente uma tragédia nacional.

O que está por trás desta volta ao passado é o medo, puro e simples, do futuro, alimentado pela incapacidade de conviver com a incerteza. Prova disto é que a absoluta maioria dos simpatizantes do voto impresso só usaram a urna eletrônica porque são jovens demais. A pretendida mudança no sistema de votação, já derrotada na Câmara de Deputados, responde muito mais a uma motivação ideológica do que a uma necessidade prática. É mais fruto de um desejo de tumultuar o pleito de 2022, usando como pretexto o medo das incertezas.

O ressurgimento do ultraconservadorismo em todo mundo, seja ele laico ou religioso, mostra claramente como ponderáveis setores sociais se mostram desiludidos com os resultados políticos e econômicos dos modelos liberais e de esquerda, fato agravado pela desorientação causada pela avalanche informativa e pela proliferação descontrolada de notícias falsas nas redes sociais na internet. Como ninguém gosta da incerteza, insegurança e desorientação, nossa tendência é agarramos aquilo que mostrou alguma solidez e confiabilidade no passado.

Só que esta atitude contraria a necessidade do avanço tecnológico na direção de inovações que aumentem a capacidade econômica do planeta de garantir a sobrevivência da humanidade. A digitalização é irreversível e suas consequências também não têm volta. Mas é um processo exploratório e de aprendizado cujos resultados são sempre incertos, como mostram o gigantesco cemitério das chamadas empresas start ups e as perdas milionárias de experiências frustradas em megaempresas como Google e Apple.

A digitalização surgiu a partir da necessidade de otimização do desenvolvimento econômico do capitalismo. Só que a lógica do processo, inevitavelmente, afeta toda a sociedade e, também a política. As incertezas tornaram-se parte do nosso dia a dia porque são uma consequência da exploração digital e precisamos aprender a conviver com elas. Teremos que coexistir com a dúvida ainda por algum tempo, pelo menos até que a era digital deixe de ser um desafio para se tornar algo consolidado no conhecimento humano.

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Carlos Castilho é Jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.