
(Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Sabem? Há várias maneiras do repórter avaliar os resultados da 30ª Conferência do Clima da ONU (COP30), que começou nesta segunda-feira (10) e se estende até sexta, dia 21, em Belém (PA), nas entranhas da Floresta Amazônica. Entre as inúmeras avaliações que chamaram a minha atenção é que o evento conseguiu fazer sentar à mesa de negociação os líderes, ou seus representantes, das maiores potências econômicas e militares do planeta. Além de empresários, cientistas, técnicos e militantes das causas ambientais. Aliás, o poder da mesa de negociação afugentou da COP30 o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano). Mas importantes empresários, cientistas e pesquisadores americanos estão por lá. Por que desafiaram a orientação do seu presidente? Simples. A preservação ambiental nos dias atuais gera novas tecnologias, produtos e grandes negócios. Toda a história do crescimento da defesa do meio ambiente pode ser encontrada apertando um botão no teclado. Vamos conversar sobre um assunto que não é facilmente encontrado para ser pesquisado. É sobre o que aconteceu nas redações dos jornais quando começaram a pipocar as pautas ambientais, no tempo das velhas e barulhentas máquinas de escrever.
Por ser o assunto ser muito abrangente, vou facilitar vida do leitor dizendo qual é a minha qualificação para contar essa história. Comecei na lida da redação em 1979 e logo nos primeiros anos de profissão tomei duas decisões que esculpiram o meu perfil profissional: nunca assumir nenhum cargo que não fosse o de repórter. E, segundo, investir na especialização. Tornei-me referência na cobertura de conflitos agrários, povoamento de novas áreas agrícolas e crime organizado nas fronteiras. Estes assuntos me mantiveram na estrada, rodando pelos rincões da América do Sul em busca de histórias para contar. E nestas coberturas encontrei e troquei ideias com colegas de vários países e de muitos jornais brasileiros. Não me tornei um estudioso nas pautas ambientais. Mas observei o que acontecia ao meu redor. Vamos a nossa conversa. Na década de 70, trabalhar como repórter era uma barra, porque o Brasil, assim como vários países vizinhos, era governado por militares que censuravam a imprensa. Lembro-me de muitos colegas que foram presos, torturados e até mortos. Outros tantos perderem seus empregos. A questão ambiental já tinha quase uma década de visibilidade na imprensa europeia quando chegou às redações brasileiras. No início, se tinha uma certa liberdade para falar no assunto porque as pautas tratavam de temas como a plantação de árvores nas praças. Nada polêmico. Com o passar do tempo, as coisas foram se complicando porque começaram a surgir líderes populares que defendiam o meio ambiente e pautavam as redações. Foram muitos, mas vou falar sobre dois destes líderes que considero fazerem parte de um marco importante na luta ambiental.
No final da década de 70, na cidade de Xapuri (AC), no meio da Floresta Amazônica, o seringueiro, sindicalista e ativista ambiental Francisco Mendes (1944 – 1988), o Chico Mendes, inaugurou uma resistência contra a derrubada de árvores para plantar pasto para o gado que ficou conhecida como “empate”. Consistia em um grupo de seringueiros abraçarem o tronco de uma árvore para impedir que fosse derrubada. Nos estados do sul do Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, o agrônomo José Lutzenberger (1926 – 2002) começou a denunciar a intoxicação e morte de agricultores pelo uso de agrotóxicos. E também o uso de produtos químicos perigosos na fabricação de alimentos. Nas redações, começavam a surgir os repórteres especializados em meio ambiente, que maldosamente eram apelidados pelos colegas de “verdes”. É importante registrar que no final da década de 70 o regime militar, que havia tomado o poder com um golpe de estado, em 1964, começava a dar sinais de decadência. Quando finalmente chegou ao fim, em 1985, se iniciou a redemocratização do país. E com a redemocratização a cobertura dos assuntos ambientais pela grande imprensa cresceu e se modernizou. Na década de 80, aconteceram grandes conflitos agrários pelos rincões do Brasil e em países vizinhos. Estive na maioria deles e encontravam, nestas ocasiões, equipes de jornalistas de todos os cantos do Brasil e até de outros países. A preservação das florestas e a reforma agrária são assuntos muito próximos e, portanto, eram pauta nas conversas dos jornalistas durante os jantares depois de um longo dia de trabalho. Lembro-me que, enquanto se empilhavam garrafas vazias de cerveja, as conversas avançavam noite adentro. Os jornalistas europeus tinham dificuldade de entender a luta pela preservação do meio ambiente no Brasil e a reforma agrária.
As novas tecnologias mudaram toda a história das redações dos jornais. Primeiro, para sobreviver à migração de anunciantes e assinantes para as redes sociais os jornais fizeram grandes demissões e transformaram o repórter em “multimídia”. Agora, ele faz textos, fotos, vídeos e áudios da sua reportagem e a publica em todas as plataformas da empresa. O jornalismo especializado migrou para sites criados para tratar especificamente do assunto meio ambiente. Restou para a imprensa tradicional noticiar as grandes tragédias ambientais, que são tratadas sob o ponto de vista policial. Se o leitor quiser alguma informação mais aprofundada terá que consultar um site especializado. Caso contrário, ficará apenas com um resumo parcial da história. Assim como a maioria dos leitores não têm tempo para correr atrás dos sites especializados, o repórter que redige a notícia também não tem tempo para saber de todos os fatos sobre a sua pauta porque está superatarefado. E o leitor fica vulnerável às fake news. Arrematando a nossa conversa. A grande notícia é que os poderosos estão sentados em torno de uma mesa negociando assuntos que dizem respeito ao futuro de todos nós. Os detalhes destas conversas estão nos sites especializados.
Publicado originalmente em “Histórias Mal Contadas”
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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.
