
(Foto: Tânia Rego/Agência Brasil)
O mês de fevereiro de 2026 foi, desde 1961, o mais chuvoso na cidade mineira de Juiz de Fora com 752,4 mm registrados, aproximadamente 342% acima da média histórica. Por si sós, esses números compõem o vocabulário usual da cobertura jornalística de desastres no Brasil: magnitude, extensão, dramaticidade. O que a maior parte do noticiário não fez com consistência foi perguntar “por quê”. Não o “por que choveu tanto”, mas o “por que a chuva matou quem matou”. A distinção é decisiva, haja vista que eventos hidrometeorológicos extremos são, na linguagem técnica da gestão de riscos, “hazards”, fenômenos físicos independentes da vontade humana. O desastre, porém, não é o hazard, o desastre é o produto da interseção entre o evento físico e as condições estruturais de vulnerabilidade historicamente produzidas, formulação que o IPCC sistematizou em 2014 e que a realidade de Juiz de Fora confirmou com crueldade empírica. Quando o noticiário abre com “chuvas causam mortes”, está tecnicamente correto e politicamente insuficiente, pois a chuva foi o gatilho, a estrutura foi a arma.
Esta insuficiência não é uma falha técnica corrigível por aperfeiçoamento de pauta, é um enquadramento, e enquadramentos não são neutros. Ao tratar o evento climático como causa suficiente, o jornalismo opera uma função ideológica precisa, pois naturaliza o que é social, despolitiza o que é resultado de escolhas verificáveis, converte em fatalidade o que é produto de omissão mensurável. A naturalização da tragédia é, neste sentido, uma escolha editorial com consequências políticas concretas, já que ela protege os atores responsáveis pela omissão preventiva ao dissolver a causalidade estrutural no drama humanitário imediato.
Dos R$ 70,2 milhões destinados pelo PAC à contenção de encostas na cidade, apenas R$ 11,56 milhões, cerca de 16,5%, haviam sido efetivamente realizados antes da catástrofe. A verba estava travada há quase um ano por questões burocráticas entre o Ministério das Cidades e a Caixa Econômica Federal e, ainda por cima, houve cortes de 95% no orçamento estadual para resposta a desastres em relação a 2023.
A cobertura jornalística de desastres no Brasil tem uma arquitetura própria, tão estrutural quanto a vulnerabilidade que deveria investigar, e se organiza em fases bem definidas: o impacto imediato, com ênfase na dramaticidade e nas vítimas; o momento solidário, com apelos a doações e voluntariado; o balanço dos danos, com números de mortos e desabrigados; e, eventualmente, a cobrança pontual de autoridades, geralmente encerrada quando a lama seca.
O que raramente aparece, e quando aparece, tende a durar pouco, é a investigação da estrutura que tornou o desastre possível, como os orçamentos não executados, os planos diretores descumpridos, os mapeamentos de risco ignorados pelo mercado imobiliário, a série histórica de eventos análogos que invalida qualquer narrativa de imprevisibilidade. Juiz de Fora já havia sido atingida por eventos análogos em décadas anteriores, no mesmo território, com o mesmo mecanismo físico e atingindo populações posicionadas nas mesmas zonas de risco. Uma série histórica assim documentada invalida, sem apelação empírica possível, qualquer enquadramento do evento de fevereiro de 2026 como excepcional ou imprevisível. O que ela documenta, além dos danos imediatos, é a insuficiência das respostas institucionais que precederam cada novo episódio, o ciclo de mobilização emergencial, compromissos de obras preventivas, execução insuficiente e normalização gradual que prepara as condições para o evento seguinte.
Juiz de Fora era, antes de fevereiro de 2026, o nono município brasileiro com maior população em zonas de risco, segundo levantamento conjunto do IBGE e do CEMADEN, com 128.946 moradores em áreas classificadas como suscetíveis a deslizamentos, inundações e enxurradas. Era o terceiro em índice de risco de moradias. Em 2025, figurou como a quarta cidade do país em número de alertas emitidos pelo CEMADEN, atrás apenas de Manaus, São Paulo e Petrópolis. Esta informação estava disponível, publicada, ranqueada com precisão nacional, antes de fevereiro de 2026. O silêncio em torno dela, no jornalismo preventivo, nas coberturas municipais de gestão, no acompanhamento da execução orçamentária do PAC, é tão revelador quanto o ruído depois da catástrofe. A pergunta que o jornalismo deveria ter feito antes das chuvas é: o que foi feito com esse conhecimento? A ausência desta pergunta antes do desastre não é lacuna de pauta, é escolha editorial com consequências verificáveis em óbitos.
É aqui que o papel das mídias sociais precisa ser pensado com mais rigor do que habitualmente se faz, pois os vídeos produzidos por moradores cumpriram funções que o jornalismo institucional não estava em condições de cumprir com a mesma velocidade: documentar a simultaneidade e a dispersão geográfica dos eventos, identificar pontos críticos ainda não alcançados pelas equipes de emergência, mobilizar solidariedade comunitária em tempo real. Isso é real e não deve ser subestimado, mas existe um custo nesta substituição que precisa ser nomeado com precisão, porquanto os vídeos das mídias sociais carecem, por definição, dos mecanismos de verificação, contextualização e hierarquização da informação que o jornalismo profissional, quando praticado com rigor, é capaz de oferecer. A circulação acelerada de imagens de impacto emocional intenso sem enquadramento analítico tende a reforçar exatamente o padrão que deveria ser combatido, ou seja, a naturalização da tragédia, a narrativa do sofrimento sem a narrativa da estrutura que o produziu. As mídias sociais produziram, em tempo real, uma documentação capilar e irrepetível da destruição, e a circulação desta documentação, desacompanhada de enquadramento estrutural, funcionou predominantemente como amplificador de comoção, não de responsabilização.
A distinção entre comoção e responsabilização é o eixo em torno do qual gira o problema central do jornalismo de desastres no Brasil. A comoção é necessária, pois ela mobiliza recursos, gera solidariedade, pressiona autoridades no curto prazo, entretanto, ela não produz, por si só, as condições para que o desastre seguinte não aconteça. Para isso, é necessária a inteligibilidade estrutural que o jornalismo, quando funciona bem, é o dispositivo público em condições de produzir de forma sistemática. Um relatório do CEMADEN não alcança o eleitor médio e uma audiência pública sobre execução orçamentária do PAC não mobiliza solidariedade nas mídias sociais. O jornalismo é o mediador entre o conhecimento técnico produzido pelos sistemas de monitoramento e a esfera pública em que as decisões políticas se legitimam ou se invalidam. Quando este mediador opera predominantemente no registro da comoção, e abandona o acompanhamento estrutural quando a atenção pública se desloca para o próximo evento, ele não está sendo neutro, está sendo funcional a uma arquitetura de impunidade preventiva.
A frase da prefeita Margarida Salomão de que a população de menor renda acaba morrendo nos deslizamentos enquanto aqueles com mais recursos encontram outro lugar, merece uma análise que vai além do elogio à sua lucidez. É uma frase politicamente corajosa, contudo, é igualmente uma frase que corre o risco de produzir um efeito paradoxal, o da absolvição por diagnóstico. Se a causa é a desigualdade brasileira, estrutural e histórica, quem pode ser responsabilizado? A resposta fácil é “ninguém em particular”, e esta resposta, convenientemente, protege os atores específicos cujas decisões e omissões são identificáveis e auditáveis. O jornalismo não pode aceitar este deslizamento retórico, pois a desigualdade brasileira não é uma força anônima, ela tem mecanismos verificáveis, atores identificáveis, decisões datadas e orçamentos auditáveis.
O mesmo raciocínio se aplica ao argumento burocrático. O bloqueio dos recursos do PAC por razões procedimentais é uma justificativa estruturalmente legítima, pois os mecanismos de controle existem para evitar o mau uso do dinheiro público e têm fundamento histórico inegável. O jornalismo deve reconhecer esta legitimidade e, simultaneamente, recusar que ela encerre a investigação, porque o fato de que os mesmos recursos foram desbloqueados em regime de exceção, em tempo comprimido, após a decretação de calamidade, demonstra que a velocidade burocrática é uma variável modulável, não uma constante técnica. Se ela pode ser acelerada depois do desastre, por que não pôde ser acelerada antes, para um município classificado entre os três com maior índice de risco de moradias no país? Esta pergunta tem resposta, e a resposta não é técnica, é política. A não-ativação do regime procedimental acelerado antes do evento de fevereiro de 2026 é uma escolha verificável, não uma limitação intransponível. Sua implicação é a de que o sistema foi operado, em relação a Juiz de Fora, de forma calibrada para responder a desastres, e não para preveni-los.
A concentração de 130 mil pessoas em zonas de risco na cidade não é produto de caprichos geológicos nem de escolhas individuais desinformadas, mas o resultado historicamente sedimentado de um modelo de urbanização periférica que opera, estruturalmente, pela exclusão das populações de menor renda das porções territorialmente mais seguras da cidade. O mercado fundiário urbano valoriza diferencialmente o solo e inviabiliza economicamente o acesso das camadas de menor renda às porções mais seguras do território, empurrando-as sistematicamente para os domínios de maior instabilidade geomorfológica. Isto é um mecanismo de mercado com efeitos letais documentados. A distinção entre morrer no deslizamento e ser desalojado para encontrar alternativa habitacional por meios próprios é, em sentido técnico preciso, a distinção entre vulnerabilidade como fatalidade e resiliência como capacidade, e esta distinção se distribui de forma inversamente proporcional à posição socioeconômica dos grupos expostos. O jornalismo que trata esta estrutura como cenário de fundo para a narrativa humana de vítimas, e não como objeto central de investigação, está reproduzindo o apagamento político que a própria estrutura requer para se manter intacta.
O jornalismo de desastres que o Brasil precisa não é aquele que substitui a cobertura de vítimas pela cobertura de orçamentos, mas aquele que integra as duas, que sustenta o enquadramento estrutural além do ciclo de atenção imediata, que transforma rankings de vulnerabilidade em pauta preventiva antes que as encostas desabem, que desagrega os dados de óbitos por gênero, raça e faixa etária para tornar visível o padrão de impacto diferencial que as médias agregadas ocultam, que acompanha a execução orçamentária de programas de prevenção como rotina, e não como revelação pós-tragédia. A invisibilidade, nos dados agregados de óbitos e desabrigados produzidos pela Defesa Civil, da desagregação por gênero, raça e idade não é uma lacuna administrativa menor, é a invisibilização institucional de um padrão de impacto diferencial que, não nomeado, não pode ser adequadamente endereçado por políticas públicas de prevenção. O jornalismo que se limita a reportar os números agregados está, neste sentido, contribuindo para a manutenção desta invisibilidade.
A tragédia de Juiz de Fora não é uma tragédia natural, mas o produto documentado de uma falha de conversão, a incapacidade estrutural e verificável de um sistema de transformar em ação preventiva proporcional o conhecimento que já possuía sobre sua própria vulnerabilidade. O sistema sabia e, não obstante, produziu uma cidade em calamidade, não por ignorância, não por falta de recursos formalmente disponibilizados, não por incapacidade técnica verificável, mas pela persistência de uma arquitetura institucional calibrada para administrar o risco e não para eliminá-lo.
A cobertura jornalística da catástrofe revelou, simultaneamente, a arquitetura da vulnerabilidade do próprio jornalismo brasileiro de desastres, forte na documentação do impacto, frágil na investigação da estrutura; ágil na comoção, lento na responsabilização; presente na calamidade, ausente na prevenção. As duas arquiteturas, a da cidade e a do jornalismo, se retroalimentam.
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Ramsés Albertoni é Professor de Artes, Pesquisador de Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador do Grupo de Pesquisa Arte & Democracia.
