Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

A cor amarela da fome: do diário de Carolina ao telejornalismo que esperança

(Foto: YEŞ/Pexels)

No clássico “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, publicado em 1960, Carolina Maria de Jesus pinta a fome com uma cor inesquecível: “Eu sou negra, a fome é amarela e dói muito”. Essa imagem poética e trágica, registrada nos diários de uma mãe negra lutando para alimentar três filhos na favela do Canindé, em São Paulo, transcende o pessoal e revela uma chaga social que persiste. Audálio Dantas, o jornalista que transformou esses cadernos encardidos em reportagem e depois em livro traduzido para 13 idiomas, destacou como a fome se torna personagem inescapável na narrativa de Carolina – uma presença irritante, marcante, que clama por visibilidade. Décadas depois, essa fome amarela ainda assombra o Brasil, mas o telejornalismo, com seu alcance massivo, tem o dever de não apenas denunciá-la, mas de iluminar caminhos para superá-la.

Os dados recentes confirmam o paradoxo brasileiro: um país de riquezas naturais vastas, mas onde milhões enfrentam a insegurança alimentar. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2025, 6,48 milhões de pessoas saíram da insegurança grave entre 2023 e 2024, e o Brasil deixou o Mapa da Fome da ONU (Organização das Nações Unidas) no triênio 2022-2024. Ainda assim, a incerteza sobre a próxima refeição é a realidade de muitos, agravada por desigualdades estruturais, crises econômicas e falhas em políticas públicas. Essa realidade ecoa o diário de Carolina, no qual a fome não é abstrata, mas uma dor diária que imobiliza e humilha.

O telejornalismo, como principal fonte de informação para grande parte da população, deve ir além da constatação episódica para fomentar um debate que promova direitos humanos e democracia. Contudo, a cobertura tradicional da fome nos telejornais brasileiros, analisada em pesquisas como a tese “Sob as lentes da esperança: as potencialidades do Jornalismo de Soluções para a narrativa da fome no telejornalismo brasileiro”, de minha autoria (Disponível em: https://repositorio.ufjf.br/jspui/handle/ufjf/18596) revela limitações claras.

De acordo com a pesquisa, há a predominância de uma abordagem reativa, focada em crises – secas, pandemias ou invernos rigorosos –, com imagens impactantes de panelas vazias e rostos sofridos, acompanhados de trilhas sonoras melancólicas. Essa narrativa, de fato, humaniza as vítimas, mas as retrata majoritariamente como passivas, sem agência, e ignora causas profundas como o desperdício alimentar ou políticas falhas. O resultado é uma fadiga noticiosa, com a qual o público se sente impotente, sucumbindo ao fatalismo que Paulo Freire, em “Pedagogia da Esperança” (1992), alerta como paralisante. Freire diferencia a espera da “esperança do verbo esperançar”: uma força ativa que impulsiona a ação, a construção e a resistência coletiva.

Aqui, a lição de Carolina ressoa: sua escrita, em meio à miséria, não era lamento passivo, mas ato de resistência. Registrar o cotidiano de fome e exclusão dava voz aos silenciados, expondo contradições sociais e clamando por mudança. A mesma tese defende a oportunidade do telejornalismo brasileiro em adotar essa essência, na medida em que busque incorporar o Jornalismo de Soluções, uma abordagem que não nega a gravidade do problema, mas investiga respostas concretas – iniciativas locais, programas sociais eficazes e políticas replicáveis. Surgido nos Estados Unidos em 2013, por meio da Rede de Jornalismo de Soluções, e adotado em dezenas de países ao redor do mundo, esse modelo analisa evidências, limitações e lições de soluções, transformando denúncia em inspiração. Em vez de apenas mostrar a fome amarela de Carolina, os telejornais poderiam destacar hortas comunitárias, ações contra o desperdício ou o impacto do Bolsa Família, que ajudou a reduzir a insegurança grave para 3,2% dos domicílios em 2024, segundo o IBGE.

É importante salientar que essa guinada propositiva não minimiza responsabilidades estatais nem simplifica complexidades; ao contrário, equilibra a crítica com propostas, combatendo a apatia e reconectando o público. Em um país em que o telejornalismo penetra lares de todas as classes, priorizar soluções significa promover a dignidade humana, alinhando-se aos princípios constitucionais de 1988 que garantem o direito à alimentação adequada. Freire enfatiza que a esperança crítica não é ingênua, mas engajada, impulsionando os oprimidos à transformação. Nesse sentido, o jornalismo pode “esperançar” ao mostrar que a mitigação da fome é viável, inspirando sociedade civil – e o público – a agir.

Assim, a fome amarela que tanto doeu em Carolina pode, enfim, perder sua cor na narrativa nacional – não por esquecimento, mas por superação coletiva. O telejornalismo, com seu poder de alcance, tem o papel de liderar essa transição: de vítima passiva para protagonista de mudanças. É hora de contar não só a dor, mas a vitória possível – e necessária – sobre ela.

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Jemima Bispo Sanches é Jornalista e doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Membro da Rede de Pesquisadores em Jornalismo (Rede Telejor). Vice-coordenadora do Intercom Júnior de Jornalismo da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.