Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

A globalização autoritária põe fim à neutralidade jornalística

(Foto: Foto: Marri Nogueira/Agência Senado)

Agora é democracia ou autoritarismo. Todas as demais opções políticas se tornaram secundárias. Esta é a escolha colocada diante de quase dois bilhões de pessoas, inclusive nós brasileiros, que participarão de eleições em 65 países diferentes no ano que vem. A afirmação parece um exagero, mas a globalização do autoritarismo ultraconservador polarizou a maioria dos processos eleitorais e tornou a promoção do sistema democrático a única opção para aqueles que rejeitam um retorno a práticas políticas retrógradas.

O jornalismo e a imprensa (1) têm um papel chave e insubstituível na promoção da democracia porque ainda são os mais importantes canais de transmissão de informações para a população. E, também, porque a sobrevivência de ambos depende do livre fluxo de informações, um dos fundamentos do sistema democrático. Nos regimes autoritários ultraconservadores o jornalismo vira sinônimo de relações públicas e a imprensa passa a ser um sistema de propaganda e desinformação (2). 

Muitos jornalistas e vários órgãos da imprensa já fizeram uma opção pelo sistema democrático, mas a polarização ideológica no planeta passou a exigir um novo papel dos meios de comunicação.  Tornou-se indispensável mostrar às pessoas o que é uma democracia plena, já que no imaginário popular o sistema acabou limitado à realização de eleições e à existência de partidos políticos. Boa parte da população se acostumou a conviver com um sistema que embora se proclame democrático e antiautoritário, tolera, e em alguns casos até incentiva, distorções como a desigualdade social e usa ferramentas de desinformação para neutralizar e ocultar opiniões divergentes.

Novas estratégias editoriais

A democracia não se limita à realização de eleições. Há muitos regimes autoritários que promovem votações periódicas. O golpe de 64 não eliminou os pleitos. Monarquias também fazem eleições e algumas até toleram partidos de oposição. Mas o que o autoritarismo de extrema direita nega é a convivência entre visões de mundo diferentes, a liberdade irrestrita de informação, de associação e o respeito a regras de convivência social baseadas na equidade, respeito às diferenças e às escolhas da maioria da população.

O jornalismo e a imprensa ocupam uma posição estratégica na catequese da democracia numa conjuntura de enfrentamento com o autoritarismo ultraconservador, mas ambos precisam rever suas estratégias de comunicação e informação. O modelo atual baseado na comercialização da notícia exige uma adaptação às novas circunstâncias criadas pela ascensão de líderes populistas autoritários como o Nayib Bukele, de El Salvador; Javier Milei, na Argentina; Jair Bolsonaro, no Brasil; Viktor Orban, na Hungria; Wladimir Putin, na Rússia; Donald Trump nos Estados Unidos; Giorgia Meloni, na Itália; e Marie Le Pen, na França, para mencionar apenas os mais conhecidos.

A busca de novas estratégias editoriais está mais avançada entre pesquisadores norte-americanos, como Jay Rosen, da CUNY (City University of New York), autor da fórmula “menos chances e mais consequências”, numa alusão ao hábito jornalístico de cobrir campanhas eleitorais como se fossem corridas de cavalos num hipódromo. O que Rosen quis dizer é que em vez de se preocupar com quem vai ganhar ou perder, o mais importante, para quem está pensando na democracia, é identificar claramente os desdobramentos políticos, econômicos e sociais das propostas de candidatos, em especial os ultraconservadores.

Margareth Sullivan, também norte-americana e articulista do jornal The Washington Post vai mais longe ao afirmar que o jornalismo precisa superar a preocupação com a equidistância política quando a questão democrática está em jogo. “Não podemos ser neutros, precisamos ser dignos de confiança”, diz ela num texto em que critica fortemente a preocupação de colegas seus norte-americanos em polemizar sobre a idade e as gafes do presidente Biden, possível candidato à reeleição, ou priorizar a abordagem performática do republicano Donald Trump.

Ensinar democracia

A imprensa e o jornalismo perderam para as redes sociais o monopólio na produção e disseminação das notícias de atualidade, numa mudança que acarretou o aumento na responsabilidade de explicar as causas e consequências dos dados, fatos e eventos noticiados. É esta responsabilidade que justifica a preocupação de “ensinar” democracia para leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. 

Adotar os princípios democráticos como um paradigma emergencial na seleção e edição de notícias não é partir para a militância informativa. Pelo contrário, é tentar preservar o livre fluxo de informações que viabiliza a própria existência tanto da atividade jornalística como o negócio da imprensa. Implica, entre outras coisas, detalhar como funciona a estratégia ultraconservadora de criar factoides e notícias falsas para ocupar o maior espaço possível nas mídias, desviando a atenção do público em relação ao que realmente importa no atendimento das necessidades econômicas das pessoas e na defesa da diversidade informativa na sociedade.

Esta estratégia diversionista na informação encontra nas plataformas digitais tipo Facebook, Telegram e Twitter o ambiente ideal para proliferar, como mostram as campanhas eleitorais de Jair Bolsonaro, Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele. O mesmo recurso vai ser usado nos pleitos do ano que vem, o que coloca vários dilemas para o jornalismo e a imprensa comprometidos com a democracia. Os factoides, fatos criados propositalmente para gerar curiosidade e polêmica, chamam mais a atenção das pessoas, logo têm mais valor financeiro para quem os divulga. Idem para as fake news mais escandalosas e esdrúxulas.

Diante da perspectiva de promover a preservação do sistema democrático, o jornalismo e a imprensa assumem a necessidade de abandonar a neutralidade política no confronto com o autoritarismo ultraconservador. É uma opção que coloca princípios acima dos interesses políticos e financeiros imediatos, o que sinaliza uma situação inédita na comunicação contemporânea. 

  1. Jornalismo e imprensa não são sinônimos. Jornalismo é a atividade relacionada à investigação e edição de dados, fatos, eventos e ideias indispensáveis para a tomada de decisões pelas pessoas. Imprensa é o conjunto de empresas voltadas para a disseminação e comercialização de notícias jornalísticas.  
  2. Qualquer dúvida pode ser esclarecida acessando a revista Oeste, o noticiário da Jovem Pan ou blogs como o de Alexandre Garcia, um ex-jornalista  produtor de desinformação e notícias falsas.

 

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.