Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

A “melhor profissão do mundo” precisa se reinventar

(Foto: Reprodução)

Recomendo fortemente que antes de ler este meu artigo, que você possa ler o texto de Gabriel García Márquez intitulado “A melhor profissão do mundo”, publicado neste site em 20 de outubro de 1996. A descrição inspiradora das práticas jornalísticas da época, o surgimento das primeiras escolas de formação responsáveis por ensinar o ofício, e algumas críticas em relação à recente formação profissional, são um convite tanto à academia quanto ao mercado de trabalho para estabelecer uma reflexão a respeito das novas habilidades necessárias para ser jornalista.

Atualmente, observando em sala de aula, vejo nos alunos o encontro inspirador das aptidões pessoais em comunicação e o sonho de atuar com o jornalismo tradicional em redações. É perceptível que, com um espírito curioso e questionador, aliado às suas excelentes capacidades de oratória e escrita, obviamente se tornariam excelentes repórteres, apresentadores, editores, pauteiros, produtores, entre outras funções. Porém, com os avanços tecnológicos das últimas décadas e a crise instalada no modelo de negócio de comunicação, não haverá espaço para absorver todos. Ainda é difícil afirmar se haverá espaço para absorver alguns. Não é culpa do jovem estudante que o jornalismo mudou.

Gabriel García destaca em seu texto que alguns formados se sentiam “fraudados pela faculdade… culpam seus professores por não lhes terem inculcado as virtudes que agora são requeridas”. Uma frustração constatada pela pesquisa da Universidade de Georgetown (EUA) que demonstra que a graduação em jornalismo lidera o índice de arrependimento após a conclusão do curso; cerca de 87% dos estudantes se sentem arrependidos. Vamos conseguir reverter este cenário de desapontamento? Vamos conseguir gerar oportunidades para que essa fagulha que vejo nos alunos se torne algo maior?

Eu acredito que ainda há esperança, mas a esperança é condicionada a um estudo a respeito das novas habilidades para que profissionais de jornalismo, além de escrever e se comunicar bem, sejam ainda mais éticos e competentes em suas atuações.

É necessário desenvolver um forte perfil de liderança para pautar sem medo novas iniciativas em comunicação. É necessário desenvolver um perfil apto para gerir seus projetos pessoais, profissionais e as pessoas que, naturalmente, vão se agregar aos seus negócios e vão precisar de uma visão estratégica para onde ir. Além disso, acredito ser necessário aprender mais sobre marketing e venda para saber oferecer ao mercado seus projetos. É interessante analisar a iniciativa da Universidade do Texas em oferecer aos alunos de Negócios e Comunicação a possibilidade de um curso profissional de Vendas & Desenvolvimento de Negócios, sob o argumento de que “todos os campos e indústrias precisam de indivíduos que possam vender produtos, serviços e ideias para ajudar as empresas a crescer”. Acredito que as novas habilidades ajudam na busca por novas formas de financiamento para projetos em comunicação. Acredito ainda que uma boa parceria entre redação e departamento comercial poderá auxiliar na conquista de novos investimentos para potencializar projetos de conteúdo, séries, programas, podcasts e outras iniciativas transmídias.

Não quero e não pretendo esgotar o tema listando apenas as soft skills amplamente divulgadas em pesquisas recentes a respeito do futuro do trabalho e constatar que poucas delas estão listadas como disciplinas regulares nas atuais grades curriculares dos cursos mais tradicionais.

Gabriel García desconfiava de algo que hoje temos a certeza: “a profissão não conseguiu evoluir com a mesma velocidade que seus instrumentos e os jornalistas se extraviaram no labirinto de uma tecnologia disparada sem controle em direção ao futuro.”

Por isso, abro o convite de diálogo para que nós, jornalistas, possamos revisitar nossas experiências profissionais e identificar qualificações que melhoraram nossos currículos e nos ajudaram a ser melhor valorizados pelo mercado. É possível e necessário construir uma ponte com a graduação para que docentes e alunos estejam alinhados com alguma das demandas do mercado e, ao mesmo tempo, para que o mercado reconheça e respeite as qualificações que formam um bom jornalista. Fica o convite para uma boa reflexão!

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Marcelo Bueno é jornalista por formação, especialista em Gestão de Conteúdo pela Universidade Metodista, mestre e doutorando no programa de Mídia e Tecnologia pela Unesp de Bauru. Atua como professor universitário e é sócio-diretor da Agência Vnew, localizada em Bauru-SP.