
(Foto: Leuchtturm Entertainment/Unsplash)
Contar histórias por meio de personagens faz parte do modo de narrar do telejornalismo. Não se trata de um desvio ficcional, mas de uma técnica para organizar fatos, conflitos e disputas em enredos compreensíveis ao público, inclusive na cobertura política. O problema surge quando essas figuras deixam de ser um ponto de entrada para o debate e passam a se confundir, muitas vezes, com o próprio debate, sem uma mediação crítica adequada.
Isso não é um caso isolado, mas um padrão recorrente da cobertura política. Na votação do projeto de lei da dosimetria, por exemplo, alguns políticos estiveram no centro do debate, mas o espaço ocupado por um senador chamou ainda mais atenção. Ele ganhou projeção com críticas ao projeto, aos acordos do governo no torno da pauta, além da disposição de protagonizar um embate institucional paralelo com o Supremo Tribunal Federal. Enquadrado fora do eixo governo-oposição, suas falas circularam a partir de um lugar intermediário no debate público, ampliando sua centralidade na narrativa.
Quem trabalha com televisão sabe o valor de declarações precisas, bem construídas e facilmente recortáveis. São características que favorecem a edição, tanto no telejornal quanto, de forma ainda mais intensa, nas redes sociais. O risco está em confundir eficiência narrativa com valor jornalístico. E, assim, muitas das falas do senador repercutiram na TV e se espalharam pelas redes sem o acompanhamento de uma contextualização mais ampla e reflexiva. O fato é que cumpriram bem sua função narrativa: organizar o conflito, sugerir antagonismos e oferecer ao público um fio condutor compreensível.
Na televisão, esse tipo de recorte já nasce condicionado pelo tempo. Nas redes, ele se fragmenta ainda mais: um argumento vira vídeo curto; uma posição política vira frase de efeito. E o personagem passa a ocupar o centro da cena, frequentemente sem que suas falas sejam confrontadas com histórico, prática política ou consequências concretas. Nesse processo, a centralidade de personagens não é fruto apenas da escolha de fontes, mas dos enquadramentos adotados. São eles que estruturam a narrativa, definem o tom do embate e, muitas vezes, reduzem debates complexos a performances individuais.
No fim, o desfecho da votação evidenciou essa lógica. Apesar das críticas públicas amplamente repercutidas e do tom de confronto, o projeto foi aprovado com o voto do próprio senador. A posição veio acompanhada de novas declarações, igualmente precisas, distribuindo responsabilidades e deslocando o foco para outros atores políticos. O discurso parece ter convencido mais uma vez e seguiu circulando. E assim, o personagem da narrativa seguiu criando novas manchetes, mas a ambiguidade e as contradições permaneceram praticamente sem confronto.
Faltou à cobertura recuperar contexto, confrontar retrospecto e tensionar a contradição entre performance discursiva e atuação prática. Não se trata de apontar incoerência como falha moral isolada. Afinal, a política é, por natureza, espaço de negociação e reposicionamentos. Mas mudanças abruptas de posição, quando não confrontadas, deveriam acionar o alerta jornalístico. É preciso reconhecer que houve avanços nesse sentido, sobretudo em alguns canais de jornalismo 24 horas. Isso só reforça que o confronto é possível e deve ser regra permanente.
Como dito, esse tipo de dinâmica/personagem não é exceção. A história recente mostra como figuras com boa performance midiática e domínio da retórica conseguem ocupar espaços centrais sem que suas falas sejam submetidas ao mesmo rigor aplicado às posições assumidas ou ao histórico dos personagens. Juízes, delegados e outras figuras públicas já percorreram esse caminho até chegarem ao Congresso, sabendo explorar o espaço aberto pelo jornalismo para projetar personagens compatíveis com a narrativa, impulsionados por coberturas extensas e, muitas vezes, pouco críticas.
Na cobertura do PL da dosimetria, a narrativa por diversas ocasiões transformou posições individuais em símbolos do embate institucional e acabou deixando em segundo plano uma questão elementar: todos os atores políticos estão jogando o mesmo jogo. Um jogo que tem regras públicas, transmitidas ao vivo, e outro que se desenrola fora do alcance das câmeras, nos acordos e rearranjos. Alguns conhecidos por todos, ainda que raramente explicitados. Outros, só entre eles.
Isso não implica nivelar políticos ou relativizar responsabilidades. Significa reconhecer que toda fonte pode e deve ser confrontada; que boa oratória não substitui a prática política; que desempenho midiático não equivale automaticamente a compromisso público; e que narrativas excessivamente coerentes podem ocultar contradições, negociações e interesses que ficam fora do enquadramento. Para o telejornalismo, o desafio não é abandonar a linguagem, mas submetê-la a uma crítica mais rigorosa, sobretudo quando o personagem permanece no centro da cena.
Num ambiente em que a televisão pauta as redes e as redes retroalimentam a televisão, essa reflexão é cada vez mais essencial. Sem isso, o jornalismo corre o risco de continuar criando e midiatizando personagens que não se sustentam no tempo e de repetir, cobertura após cobertura, armadilhas que já conhece, sem saber dosar o peso do personagem e o alcance da cena.
***
Vitor Belém é Jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor da Universidade Federal de Sergipe. Foi repórter e produtor de TV e atua como pesquisador na área de jornalismo audiovisual. Atualmente é Diretor Científico da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) e lidera o grupo de pesquisa Jornau.
